Dirigido por David Ayer, Coração Selvagem aborda a guerra não por seu impacto direto, mas pelas consequências que ela deixa em seus combatentes mais fortes, humanos e caninos
Recentemente, durante a divulgação de O Fim da Rua (2026, David Robert Mitchell), Anne Hathaway declarou que filmes que apresentam a morte de cachorros deveriam receber automaticamente uma classificação indicativa para maiores de 18 anos. Assim como a produção de Robert Mitchell, o filme de David Ayer também coloca um cachorro em situações nas quais sua vida corre grande risco, e para muitos espectadores, a simples possibilidade de ver esses animais morrerem já é suficiente para provocar um desconforto difícil de ignorar.
Por isso, a decisão de David Ayer e da produção de revelar antes do lançamento de Coração Selvagem que Otis sobrevive ao filme funciona simultaneamente como um spoiler e como um respiro para o público. Afinal, apesar de colocar o animal e James, personagem interpretado por Brad Pitt, diante dos perigos que o Alasca pode proporcionar, a produção deixa claro que Otis está protegido. E, em uma análise rápida, talvez ele seja justamente o verdadeiro protagonista da história.
Brad Pitt é um dos poucos atores que possuem carisma e star power suficientes para carregar nas costas uma produção tão particular quanto Coração Selvagem. Embora J.K. Simmons tenha uma pequena e importante participação, responsável por contextualizar Otis como um cão marcado pelos traumas da guerra, a narrativa se sustenta principalmente na relação entre o subtenente reservista, e seu inseparável companheiro canino.

Brad Pitt em cena de “Coração Selvagem”- Divulgação Paramount Pictures
A primeira parte do filme funciona justamente por explorar essa relação. As grandes paisagens do Alasca servem de cenário para interações espirituosas entre os dois, construindo uma dinâmica capaz de aproximar o público dos personagens. Porém, quando ambos caem na floresta e precisam lutar pela sobrevivência, no segundo ato, a produção começa a prolongar determinadas situações em busca de um impacto que, depois de certo ponto, deixa de funcionar.
Durante mais de uma hora, acompanhamos Pitt sofrendo de todas as maneiras possíveis: caindo de uma ponte, ficando preso em um tronco, quase se afogando, enfrentando lobos e atravessando uma sucessão de situações extremas. Afinal, o cachorro precisa ficar bem.
O problema é que a jornada principal do filme não pertence exatamente a James, mas a Otis. O tema central é encontrar paz mesmo diante das piores circunstâncias, e James, desde o início, já encontra esse conforto por meio do animal. Otis, por outro lado, ainda precisa enfrentar os próprios traumas para conseguir alcançar esse estado de paz. A ideia fica evidente desde a primeira sequência e, por mais grandiosamente que o filme se estrutura tanto em questão visual quanto sonora, torna-se desnecessário estender essa reflexão por quase duas horas.

Brad Pitt em cena de “Coração Selvagem”- Divulgação Paramount Pictures
O sentimento que permanece durante boa parte do segundo ato é, na falta de uma expressão melhor, o de “chutar um cachorro que já está morto”. Já entendemos que James é determinado e que fará de tudo para sobreviver, mas, como a produção não pode colocar Otis em perigo real demais, acaba utilizando o protagonista humano como saco de pancadas para sustentar a sensação de ameaça. O subtenente sofre em dobro, e depois de algum tempo, o recurso começa a se tornar cansativo.
Essas sequências são eficientes inicialmente, mas perdem força à medida que se repetem. Em seu lugar, os flashes da guerra poderiam ter recebido maior atenção, aprofundando justamente os traumas que fazem parte da premissa do filme. Porém, Ayer prefere prolongar a jornada de sobrevivência, fazendo com que uma ideia relativamente simples seja esticada além do necessário.
Tecnicamente, Coração Selvagem impressiona. A fotografia valoriza grandes planos abertos e a natureza do Alasca, uma região dos Estados Unidos que nem sempre recebe esse tipo de atenção no cinema. Ao mesmo tempo, David Ayer privilegia momentos de silêncio e intimidade para fortalecer a tensão, especialmente quando James e Otis estão sozinhos na floresta, à mercê dos perigos ao redor. Dentro desse espetáculo visual, Brad Pitt entrega uma atuação potente e carismática, capaz de nos emocionar mesmo quando o roteiro começa a repetir suas próprias ideias.
Ao final, a jornada de Coração Selvagem é genuinamente emocionante, mas poderia ter sido ainda mais potente com um pouco mais de contenção. O coração da produção está no lugar certo, algo que fica evidente desde o começo e, principalmente, nos últimos 20 minutos, capazes de arrancar lágrimas até dos espectadores mais resistentes.
O que falta, portanto, não é emoção, mas polimento. Com uma narrativa um pouco mais enxuta e maior equilíbrio entre sobrevivência, trauma e desenvolvimento dos personagens, Coração Selvagem poderia ter alcançado a grandiosidade que claramente busca.
Distribuído pela Paramount Pictures, Coração Selvagem estreia nos cinemas em 24 de setembro.
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