Friday, November 27, 2020

‘Dois Papas’ é divino | CRÍTICA

‘Dois Papas’ tem uma direção primorosa de Fernando Meirelles. Cortes precisos entre as imagens, por crucifixos e mãos, rostos e batinas. Ao som de “Dancing Queen” do ABBA, a ironia fica explícita e parece que vemos um baile de cardeais passando por caminhos tortuosos entre política e espiritualidade. O filme se confunde entre realidade e ficção e por muitas vezes mais parece um documentário.

A princípio é um drama biográfico, escrito por Anthony McCarten, com base na obra, “O Papa”. É estrelado por Anthony Hopkins e Jonathan Pryce que vivem, respectivamente, o conservador alemão Joseph Ratzinger, Papa Bento XVI, e o reformista argentino Jorge Bergoglio, Papa Francisco. Dois gigantes da atuação que trazem trabalhos esmerados ao extremo. Elenco não faz um bom filme, já é sabido. Entretanto, quando forças dessa magnitude divina se unem sob o comando detalhista de um diretor da estirpe de Fernando Meirelles, tem tudo para fluir em algo abençoado. E é assim que ocorre.

O duelo de closes e opiniões seguido pela caminhada através dos jardins é belo e elucidativo. Os dogmas da Igreja são debatidos entre dois baluartes do catolicismo. Fernando Meirelles brinca com o foco e é como se o espectador estivesse ali pertinho, vendo os dois andando, acompanhando a conversa. O passado também surge em preto e branco, tempo de escolhas e sinais que guiam um homem para uma missão grandiosa. ­

Fotografia belíssima

A fotografia de César Charlone é louvável, e a beleza salta aos olhos. Passado e presente vão e voltam entre belíssimas imagens e emoções diversas. Polêmicas em meio à ditadura argentina não são esquecidas, assim como traumas – e arrependimentos. Perdão, Senhor. O pecado é humanno. O jovem Bergoglio é feito por Juan Gervasio Minujín como muita alma. Há cenas em que ele caminha em meio ao nevoeiro, ou paisagens impressionantes, e Fernando Meirelles mostra seu cinema como poesia. Aliás, a trilha sonora vai de tango até Beatles passando pelo anteriormente citado ABBA, com clássicos italiano também, e acaba por temperar com muito bom gosto, acrescentando cinematograficamente a cada cena.

O início da película se liga maravilhosamente ao fim, o vento sopra a fumaça branca que traz uma nova jornada, do alto da montanha. O recado final segue bonito, contudo, muito mais que isso, é atual e necessário. Ainda temos um cômico epílogo com algumas lembranças recentes relacionadas ao futebol. Enfim, dois Papas, dois seres humanos, em um filme glorioso em sua sofisticada simplicidade.

Trailer:

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