Dirigido por Rod Blackhurst, Dolly: A Boneca Maldita se apresenta como um slasher que flerta com o trash, mas nem sempre de forma consciente.
Filmado em película, Dolly: A Boneca Maldita deixa claro desde os primeiros minutos que busca evocar a atmosfera dos clássicos do terror das décadas de 1970 e 1980, especialmente O Massacre da Serra Elétrica (1974, Tobe Hooper). A referência não está apenas na estética granulada e suja, mas também na construção da antagonista: Dolly, uma figura grotesca que mistura inocência infantil com brutalidade visceral. Embora haja potencial para que a personagem se torne um ícone cult no futuro, neste momento ela soa mais bizarra do que memorável.
A trama aposta na simplicidade quase fabulesca. O casal Chase e Macy decide fazer um passeio pela floresta e, após uma sucessão de decisões pouco inteligentes, cruza o caminho de uma mulher com máscara de marfim que se comporta como uma boneca. Macy é sequestrada e passa a lutar por sua sobrevivência enquanto a figura perturbadora a trata como filha. A premissa, embora funcional, não vai muito além do básico, e tampouco tenta.

Fabianne Therese em cena de “Dolly: A Boneca Maldita”- Divulgação Paris Filmes
O problema central está no tom. Dolly: A Boneca Maldita se leva a sério demais para funcionar como trash divertido, mas é absurdo demais para sustentar o horror que pretende construir. Há cenas que beiram o constrangimento, como Dolly trocando a “fralda” de Macy, ou Chase vagando pela floresta com metade da mandíbula pendurada, gritando desesperadamente. Momentos como esses diluem qualquer tensão, transformando o que poderia ser perturbador em algo involuntariamente cômico.
Visualmente, no entanto, o filme encontra seus melhores trunfos. A estética vintage é reforçada pelo uso intenso de gore, da atmosfera de terror, maquiagem prática convincente e uma fotografia que abraça imperfeições como ruídos e granulação. Em um cenário atual dominado por produções mais limpas, essa escolha confere personalidade. Diferente de Ursinho Pooh: Sangue e Mel (2023, Rhys Frake-Waterfield), que abraça o absurdo de forma escancarada, aqui há uma tentativa genuína de construir terror sério, ainda que nem sempre bem-sucedida.
No elenco, Fabianne Therese se destaca como Macy, entregando uma final girl determinada e fisicamente convincente. No entanto, o roteiro não colabora. Em um contexto onde o público já está acostumado às convenções do gênero, certas decisões da personagem soam difíceis de aceitar, como ignorar oportunidades óbvias de escapar ou reagir diante de ameaças evidentes.
Dolly, por sua vez, parece incorporar um espírito indestrutível à la Leatherface, resistindo a qualquer ataque sem consequências reais. Essa invulnerabilidade compromete a verossimilhança e cansa o espectador, que deixa de sentir medo para experimentar apenas desgaste.

Cena de “Dolly: A Boneca Maldita”- Divulgação Paris Filmes
Há ainda ideias interessantes que acabam negligenciadas, como o subtexto envolvendo a relação de Macy com a própria mãe. O tema é sugerido, mas nunca desenvolvido, perdendo espaço para uma estrutura episódica dividida em capítulos que pouco acrescentam à narrativa. O desfecho, previsível e claramente inspirado em O Massacre da Serra Elétrica, carece de impacto e soa mais como repetição do que homenagem.
Ao final, Dolly: A Boneca Maldita é um filme que subestima seu público enquanto tenta, paradoxalmente, se afirmar como algo mais sofisticado do que realmente é. Preso entre o trash e o terror sério, não abraça completamente nenhum dos dois caminhos, e acaba se perdendo no meio deles.
Distribuído pela Paris Filmes, Dolly: A Boneca Maldita estreia nos cinemas em 7 de maio, e somente o tempo dirá se a produção realmente encontrará seu público no futuro.
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