Dirigido por Marco Dutra, Enterre seus Mortos tenta estruturar um épico de proporções bíblicas, mas, tropeça em sua própria grandiosidade
Há filmes que nascem da ambição de ser mais do que uma simples história, buscando uma atmosfera de épico que torna a produção algo maior do que si mesma, e é neste lugar que se encaixa Enterre Seus Mortos. Baseado no livro homônimo de Ana Paula Maia a obra aborda o fim do mundo, a batalha entre homens e demônios, a queda inevitável da humanidade diante de um apocalipse simbólico, porém, quanto mais coisas apresenta em sua narrativa, mais difícil fica de se manter coerente.
Enterre seus Mortos constrói um aparato técnico de grandiosidade inegável, fotografia atmosférica, cenários carregados de densidade, trilha e direção que sugerem solenidade, além de um elenco extremamente capaz de segurar os mais densos dos papéis, mas se perde em um roteiro que não sustenta a promessa inicial, levando a um espetáculo que impressiona visualmente, mas esvazia-se narrativamente.
Dividido em sete capítulos, que se iniciam e terminam de forma aleatória, Enterre seus Mortos evoca desde o princípio a ideia de um universo particular com suas próprias regras, porém, essas regras nunca são claramente estabelecidas. O céu vermelho, as tempestades constantes, a presença de um polvo gigante, a seita misteriosa, a chuva de pedras, tudo é apresentado como fragmento de um mundo em colapso, mas nada é verdadeiramente explicado, e ao invés de esta história hermética atuar como um convite à reflexão, na medida que ao longo de mais de duas horas, nenhuma dessas perguntas encontra eco, a produção ao mesmo tempo exige fé e atenção do espectador, mas não oferece o mínimo de coerência para que seja sustentada.

Marjorie Estiano em cena de Enterre Seus Mortos- Divulgação Festival do Rio
O problema central é a insistência em trocar coerência narrativa por alegorias e simbolismos que nunca encontram significado. Diferente do surrealismo enigmático de cineastas como David Lynch, cujos enigmas reverberam em múltiplos sentidos, aqui o hermetismo soa vazio. O espectador é guiado por símbolos que se acumulam, mas não se transformam em metáfora consistente.
A jornada de Edgar Wilson, poderia ter sido um mergulho psicológico ou espiritual, mas se limita a um estoicismo frio, distante de qualquer empatia. O personagem não é um enigma fascinante, mas uma presença opaca, reforçada por um roteiro que pouco lhe oferece além da pose de herói amaldiçoado, atormentado por um demônio que aparece tarde demais em sua narrativa.
Selton Mello, Marjorie Estiano, Betty Faria, Danilo Grangheia e Gilda Nomacee são intérpretes de peso, todos com histórico de papéis marcantes no cinema nacional, e de fato há momentos em que o talento desses atores rompe o hermetismo da trama: a conversa entre Edgar e Nete sobre Titanic revela uma rara fagulha de humanidade; o monólogo de Tomás sobre seu encontro com o demônio é um respiro dramático poderoso, porém, são lampejos isolados em uma narrativa que sufoca seus personagens sob o peso de símbolos religiosos e imagens grandiosas.
Enterre seus Mortos se localiza entre uma produção técnica, com ares de fábula universal, e um roteiro que recusa a clareza, mas também não oferece complexidade ou explicações suficientes. O espectador é convidado a acreditar na importância de elementos que nunca se concretizam: a seita que não se explica, as crianças cujo destino permanece obscuro, o demônio Gilson que surge mais como recurso gratuito do que como eixo dramático.

Selton Mello em cena de Enterre Seus Mortos- Divulgação Festival do Rio
Marco Dutra não é estranho ao fantástico, As Boas Maneiras (2018, Juliana Rojas, Marco Dutra) já havia demonstrado sua capacidade de reinventar o gênero no cinema brasileiro, porém, em Enterre Seus Mortos, essa magia parece ausente. O que poderia ser uma fábula sombria sobre o fim dos tempos se transforma em um labirinto vazio de conteúdo. Há material, há talento, há potência, faltando apenas o que sustenta qualquer produção cinematográfica, por mais ambiciosa que seja: uma narrativa que convoque o espectador a não apenas assistir, mas a participar.
Ao final, Enterre Seus Mortos ostenta os recursos e o elenco de um épico, mas se fragiliza naquilo que deveria ser o seu coração: a história. É um filme que promete a revelação do apocalipse, mas entrega apenas fragmentos dispersos de um mundo que, assim como seus personagens, parece condenado a vagar sem rumo.
Distribuído pela O2 Filmes, Enterre seus Mortos estreia nos cinemas no dia 30 de Outubro.
Siga-nos e confira outras dicas em @viventeandante e no nosso canal de whatsapp !



