Dirigido por Ken Scott, Era Uma Vez Minha Mãe acerta em cheio no tom. O que poderia se transformar em um drama pesado sobre limitação física e superproteção materna, surge como uma comédia dramática leve, vibrante e acolhedora.
Era Uma Vez Minha Mãe acompanha Roland, nascido com uma deficiência que compromete sua locomoção, e sua mãe, Esther, uma mulher incansável que se recusa a aceitar qualquer limite imposto ao filho. Ao longo de décadas, quase 50 anos de narrativa, acompanhamos a evolução dessa relação intensa, marcada por amor incondicional, sacrifício e, inevitavelmente, excessos.
O ritmo acelerado da narrativa é um dos pontos mais interessantes da obra. Ao invés de pesar a mão no drama, o filme opta por uma condução ágil, quase frenética, que reforça a sensação de que estamos folheando rapidamente um álbum de memórias. Essa escolha aproxima o espectador da jornada de Roland, mas também cobra seu preço: alguns personagens e conflitos acabam sendo pouco explorados, especialmente os secundários.
Ainda assim, o coração do filme nunca se perde. Muito pelo contrário. A leveza com que situações potencialmente dolorosas são tratadas cria uma atmosfera quase otimista, onde o espectador sente, o tempo todo, que há amor suficiente para sustentar tudo aquilo. Esse equilíbrio delicado entre drama e humor é o que diferencia o longa de outras produções semelhantes.

Sylvie Vartan em cena de “Era Uma Vez Minha Mãe”- Copyright Marie-Camille Orlando – 2024 Gaumont – Egérie Productions – 9492-2663 Québec Inc. (filiale de Christal Films Productions Inc.) – Amazon MGM Studios
A comparação com Cinema Paradiso (1990, Giuseppe Tornatore) surge naturalmente, já que ambos percorrem a vida inteira de seus protagonistas. No entanto, enquanto o clássico italiano aposta em uma nostalgia contemplativa, Era Uma Vez Minha Mãe segue por um caminho mais energético, colorido e emocionalmente imediato.
Grande parte do mérito vem da atuação de Leïla Bekhti, que entrega uma Esther complexa e profundamente humana. Sua performance transita com naturalidade entre o admirável e o sufocante, é impossível não se emocionar com sua devoção, ao mesmo tempo em que surge o impulso quase instintivo de pedir que ela permita ao filho viver por conta própria. Bekhti não apenas sustenta o filme: ela é o eixo em torno do qual tudo gira.
Por outro lado, o desenvolvimento de personagens secundários deixa a desejar. A participação de Joséphine Japy, por exemplo, é carismática, mas limitada, com pouco espaço para se tornar realmente relevante dentro da narrativa. Esse é um reflexo direto do foco absoluto na relação entre mãe e filho, uma escolha coerente, mas que reduz o impacto de outras camadas da história.

Joséphine Japy e Jonathan Cohen em cena de “Era Uma Vez Minha Mãe”- Copyright Marie-Camille Orlando – 2024 Gaumont – Egérie Productions – 9492-2663 Québec Inc. (filiale de Christal Films Productions Inc.) – Amazon MGM Studios
Outro aspecto curioso é a própria abordagem temática. O filme flerta com questões profundas: dependência emocional, identidade, ausência paterna, mas opta por não mergulhar totalmente nelas. Essa decisão pode soar, ao mesmo tempo, como uma limitação e como uma escolha consciente: ao priorizar o tom leve e afetivo, a obra evita se tornar excessivamente densa, mantendo sua proposta acessível e emocionalmente envolvente.
O título original, Ma Mère, Dieu et Sylvie Vartan, já indica o caráter quase sagrado que Esther atribui à sua missão como mãe, enquanto a versão brasileira, Era Uma Vez Minha Mãe, reforça o tom de fábula, como se estivéssemos ouvindo a história de uma figura maior que a vida. E, de certa forma, é exatamente isso que o filme entrega.
No fim, mesmo com uma estrutura narrativa relativamente tradicional, o que faz Era Uma Vez Minha Mãe se destacar é sua execução: uma direção segura, uma estética vibrante e, principalmente, uma protagonista inesquecível. É um filme sobre amor em sua forma mais intensa, bela e, por vezes, sufocante.
Distribuído pela California Filmes, Era Uma Vez Minha Mãe estreia nos cinemas no dia 7 de Maio.
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