Dirigido por Diane Kurys, Eu, Que Te Amei peca no ritmo ao contar uma história digna de uma tragédia grega, que nunca parece alçar voo.
Segundo a mitologia grega, Hera, esposa de Zeus, era conhecida e reverenciada tanto como a deusa do casamento quanto como uma víbora briguenta nos relatos de Homero. Apesar das constantes infidelidades de Zeus, sua ira jamais se direcionava ao marido, voltando-se para “a outra mulher”. Enquanto Hera se sentia humilhada pelas traições e se retraía cada vez mais nas sombras do próprio passado, buscando consolo em épocas em que fora mais feliz, seu marido seguia a vida como se nada a afetasse, mesmo tendo mais consciência do que aparentava.
Para discutirmos Eu, Que Te Amei, esse paralelo com Hera é fundamental. Afinal, se considerarmos os arquétipos apresentados por Jean Shinoda Bolen, simbolicamente Simone Signoret é Hera e Yves Montand é Zeus. Sem espaço para questionamentos, esses dois atores marcaram a França da segunda metade do século XX, ao mesmo tempo em que viveram um casamento infeliz, mantendo-se juntos por amor, mesmo com um constantemente ferindo o outro.

Marina Foïs em cena de “Eu, que te Amei”- Divulgação Autoral FIlmes
A produção de Diane Kurys explora a relação real entre os atores e como os casos extraconjugais de Yves afetaram Simone, a verdadeira protagonista da história. Contudo, apesar de um começo promissor, em que acompanhamos Marina Foïs e Roschdy Zem, dois atores pouco semelhantes a seus retratados, preparando-se para entrar nos papéis, o filme rapidamente entra em um ciclo constante de sofrimento e agonia. Durante quase duas horas, acompanhamos Simone sofrer em silêncio, sem catarse clara ou evolução significativa de personagem, o que acaba por cansar o espectador.
Faltou, acima de tudo, coragem no retrato desse casal. Eu, Que Te Amei poderia facilmente ter sido uma obra com mais molejo e sabedoria narrativa, sem elipses temporais tão distantes ou hiperfocos mal explorados, como o caso de Yves com Marilyn Monroe, sempre mencionado e nunca exemplificado. Essa escolha apenas reforça a lógica de uma Hera ciumenta que deposita a culpa na outra mulher, contribuindo para a difamação de Marilyn Monroe, figura que já sofreu muito em vida para ainda receber um retrato tão raso no pós-morte.
Eu, Que Te Amei poderia ter sido explorada de forma alegórica, metalinguística, criando uma dualidade entre atores e personagens, ou até sob uma perspectiva social e feminista, porém, a opção por um retrato repetitivo e enfadonho não movimenta um filme que nem com o potencial dramático de Foïs e Zem, consegue despertar o interesse necessário do público.

Marina Foïs, Roschdy Zem em cena de “Eu, que te Amei”- Divulgação Autoral FIlmes
O retrato de época e o contexto de como ambos eram grandes atores, embora um fosse incapaz de lidar com o sucesso do outro, permanecem apenas no subtexto. Assim, Eu, Que Te Amei se perde ao tentar abraçar tudo sem ofender ninguém, afastando-se de um retrato matrimonial mais incisivo, como o encontrado em A Esposa (2019, Björn Runge), que também aborda conflitos de ego e traições, mas mantém um foco claro e consistente.
Ao final, Eu, Que Te Amei ganharia força se estruturasse sua narrativa com maior distanciamento das dores, do sofrimento e da agonia de Simone, explorando outras facetas dessa Hera que era muito maior do que apenas uma mulher depressiva presa ao passado. Afinal, alguém que afirma que “num casal, sempre há um que sofre e outro que se entende” oferece material para um retrato muito mais amplo do que uma sucessão de cenas de dor sem viés político, social ou feminista, apenas um lento e cansativo retrato de decadência.
Distribuído pela Autoral Filmes, Eu, Que Te Amei estreou nos cinemas no dia 01 de Janeiro de 2026.
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