Dirigido por Nia DaCosta, Extermínio: O Templo dos Ossos é maduro em sua direção, ao mesmo tempo que se distancia da franquia para construir algo que beira o bizarro.
Apesar de ter revitalizado o gênero zumbi, a franquia Extermínio nunca deixou de considerar as mudanças que essa situação ocasionaria nos humanos restantes, frequentemente levando a decisões moralmente questionáveis em prol da sobrevivência da espécie, como visto no arco dos militares nos dois primeiros filmes.
Quando Danny Boyle ressuscitou a franquia com Extermínio: A Evolução (2025), essa abordagem estava mais clara do que nunca. Os infectados tornaram-se meros coadjuvantes de um arco que, de forma poética, tratava de renovação, maternidade e família. Esse afastamento mais direto do horror, conduz diretamente aos eventos de Extermínio: O Templo dos Ossos.
Segundo Jack O’Connell, este novo filme da franquia é o “primo estranho e desvairado” de seu antecessor, na medida em que foca ainda menos nos infectados e volta seu olhar para cultos religiosos e seus perigos, enfatizando como os humanos são inimigos bem mais perigosos do que os infectados.

Cena de “Extermínio: O Templo dos Ossos”- Divulgação Sony Pictures
Essa abordagem de Nia DaCosta permite algumas das cenas mais bizarras e, ao mesmo tempo, mais interessantes do filme. A diretora estrutura duas tramas paralelas: Dr. Kelso e Sansão, e a seita de Jimmy, não como um grande épico de jornadas, fugas e redenções, mas como algo mais próximo de uma DLC de videogame. A narrativa opera em uma escala menor, servindo para expandir personagens previamente apresentados e abrir novos caminhos para o futuro da franquia.
Se em 2002 Danny Boyle tivesse dirigido uma dança entre um homem e um infectado, ou uma performance demoníaca ao som de Iron Maiden, a produção provavelmente não teria alcançado o sucesso que teve. No entanto, agora que personagens, objetivos e o bizarro já foram apresentados dentro de uma propriedade intelectual bem estabelecida, é possível testemunhar exatamente estas sequências em O Templo dos Ossos.
O tom do filme de DaCosta permite um cuidado maior na composição da obra, que se afasta do horror tradicional para se aproximar do choque. De um lado temos a seita composta apenas por “Jimmys” que comete atos absurdos e extremamente gráficos, com um sangue de vermelho intenso, enquanto, em paralelo, acompanhamos uma trama muito mais contemplativa e filosófica com dois dos personagens mais interessantes do filme anterior: Dr. Kelso e o infectado apelidado de Sansão.
Essa relação fraterna entre ambos oferece um novo olhar sobre os infectados, que deixam de ser vistos apenas como uma ameaça irracional e passam a ser compreendidos como doentes atormentados física e psicologicamente. Essa é a maior contribuição narrativa do personagem vivido por Fiennes, uma abordagem que permite, uma montagem de dança ao som de Duran Duran, seguida, na cena seguinte, por uma chacina em um celeiro repleta de sangue e vísceras. Essa dualidade se torna uma das maiores forças da produção de DaCosta e também o elemento que mais testa seu público.

Chi Lewis-Parry em cena de “Extermínio: O Templo dos Ossos”- Divulgação Sony Pictures
Aqueles que buscam uma nova abordagem de horror dentro da franquia Extermínio têm grandes chances de sair decepcionados. Por outro lado, quem estiver disposto a mergulhar nesse pequeno capítulo, tanto em escala quanto em ambição, encontrará uma obra conduzida por uma direção íntima e bem executada, além de um roteiro de Alex Garland mais interessado nos pequenos gestos e nas sutilezas que seus personagens são capazes de gerar, do que em grandes acontecimentos que afetam a todos.
Sansão e Kelso observando a Lua, Jimmy se abrindo para o personagem de Fiennes, uma performance bizarra ao som de Iron Maiden, entre outras questões que não levam ao horror, e sim para um sentimento de “o que está acontecendo aqui, e acima de tudo, por que estou gostando?”, e a resposta é mais simples do que parece, e pode ser encontrado no constante tom da produção de DaCosta, que apesar destes momentos, não vira os olhos dos perigos de nosso mundo.
Ao abordar a violência de forma explícita e sem receio de expor os perigos de um líder cultista, o filme nos convida a refletir sobre quais humanos moldarão o futuro, à medida que os infectados passam a ser controlados. Se esse futuro for guiado por figuras como Jimmy, e não por Kelso, então o verdadeiro perigo definitivamente não são os infectados.
Ao final, Extermínio: O Templo dos Ossos encerra com graça, coragem e bizarrices a jornada iniciada por Boyle no filme anterior, abrindo caminho para um futuro inesperado para a franquia, seja retornando ao horror, seja aprofundando ainda mais o impacto dos humanos em uma civilização em constante transformação, mas acima de tudo, com consciência de sua força como franquia.
Distribuído pela Sony Pictures, Extermínio: O Templo dos Ossos estreia nos cinemas no dia 15 de janeiro.
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