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Cena de "Feliz Aniversário em Belgrado"- Divulgação Pandora
CríticaCinema e Streaming

Crítica: ‘Feliz Aniversário em Belgrado’ transforma festa em hermética metáfora política

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 26 de fevereiro de 2026
5 Min Leitura
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Cena de "Feliz Aniversário em Belgrado"- Divulgação Pandora
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Dirigido por Milica Tomovi?, Feliz Aniversário em Belgrado parte de uma festa infantil para investigar um trauma coletivo que assombra os envolvidos.

Mesmo durante os tumultuosos anos 90, a normalidade se mantinha, ou pelo menos a tentativa de uma, por isso a escolha de uma festa de aniversário 10 dias depois do dia oficial, somente para deixar a jovem Minja feliz. Porém, o que está em jogo não é apenas a comemoração de Minja, mas a tentativa de sustentar uma aparência de normalidade enquanto o mundo ao redor se reorganiza de maneira abrupta. A Sérvia do início dos anos 1990, atravessada pelo colapso do bloco socialista e pela entrada desordenada no capitalismo, não surge em Feliz Aniversário em Belgrado como pano de fundo histórico, mas como uma tensão constante que infiltra cada gesto, cada conversa, cada silêncio.

Há algo de profundamente desconfortável na maneira como Tomovi? estrutura esse microcosmo. A festa, que deveria simbolizar continuidade e afeto, transforma-se em um campo de fraturas. As crianças brincam de Tartarugas Ninjas, incorporando com naturalidade um imaginário norte-americano que até pouco tempo era distante. Enquanto isso, os adultos discutem preços abusivos no mercado, a ausência de produtos básicos, praticam relações extraconjugais e vivenciam ressentimentos acumulados. A casa se converte em território político.

Cena de "Feliz Aniversário em Belgrado"- Divulgação Pandora

Cena de “Feliz Aniversário em Belgrado”- Divulgação Pandora

Feliz Aniversário em Belgrado parece interessado em registrar o instante exato em que um sistema de valores se dissolve sem que outro esteja plenamente consolidado. Não se trata apenas de crise econômica, mas de uma crise de orientação. As dúvidas que os adultos convivem diariamente, se refletem na próxima geração. Como educar os filhos em um mundo cujas referências mudam da noite para o dia? Afinal, o capitalismo não chega apenas como modelo econômico, mas como linguagem cultural.

Tomovi? aposta em densa e excessiva construção metafórica. Sua narrativa exige do espectador um esforço ativo de contextualização. Não há didatismo, tampouco preocupação em facilitar o entendimento histórico. Essa escolha fortalece o caráter ensaístico da obra, mas também a aproxima de um terreno hermético. A experiência de assistir ao filme se torna menos emocionalmente fluida e mais intelectualmente exigente. É preciso decodificar gestos, perceber repetições, aceitar silêncios prolongados, e estar preparado para cenas explícitas e até com teor de violência que aparecem quando menos esperamos.

A oscilação entre humor e drama contribui para essa sensação de instabilidade. Situações potencialmente cômicas, pequenos constrangimentos, exageros comportamentais, tensões familiares, coexistem com momentos de profunda melancolia. Não há uma separação clara entre os registros. O riso, quando surge, carrega amargura. O drama, por sua vez, raramente explode; ele se acumula.

Cena de "Feliz Aniversário em Belgrado"- Divulgação Pandora

Cena de “Feliz Aniversário em Belgrado”- Divulgação Pandora

Com múltiplos personagens e tramas que se entrelaçam, Feliz Aniversário em Belgrado aproxima-se de um certo cinema europeu interessado menos na progressão narrativa do que na observação de estados emocionais e históricos. A duração dilatada reforça essa proposta contemplativa, ainda que, em determinados momentos, a repetição de conflitos dilua a potência de algumas cenas, como se a produção estivesse consciente de que o esgotamento do espectador ecoa o esgotamento de seus personagens.

Ao final, o que permanece não é a festa, nem seus desfechos individuais, mas a sensação de deslocamento. A celebração de um aniversário, um dos mais diretos ritos de passagem, vira metáfora de um país que envelhece rapidamente. Dentro deste contexto, crescer vira quase uma imposição. E talvez seja nesse desconforto, nessa recusa em oferecer respostas simples, que reside simultaneamente a força maior, e uma das maiores fraquezas, de Feliz Aniversário em Belgrado: ele não explica a crise, ele a encena. Não resolve o trauma, mas o mantém aberto, pulsando sob a superfície de uma comemoração que nunca chega a ser alegre, mas com certeza se torna memorável.

Distribuído pela Pandora Filmes, Feliz Aniversário em Belgrado estreia nos cinemas no dia 26 de Fevereiro.

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Tags:aniversárioCinemacríticaCrítica Feliz Aniversário em BelgradoDestaque no ViventeFeliz AniversárioFeliz Aniversário em Belgradopandora filmes
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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.
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