Dirigido por André Bushatsky, Futebol de Cegos apresenta de maneira ágil e envolvente os bastidores do consagrado time paralímpico brasileiro de futebol de cegos.
Documentários sobre preparações para grandes eventos esportivos não são novidade, basta lembrar do recente Mental – A Escola Queniana (2024, Pedro Damasio). Contudo, as obras mais instigantes são aquelas que revelam ao público modalidades, equipes ou universos esportivos pouco conhecidos, sendo neste campo que o documentário de Bushatsky encontra sua força, introduzindo espectadores ao cotidiano e ao espírito competitivo da seleção brasileira de futebol de cegos.
Por meio de entrevistas com atletas e membros-chave da equipe, Futebol de Cegos dá voz a jogadores como o baiano Cássio Reis, medalhista paralímpico e figura constante nas campanhas vitoriosas do time. A seleção, que acumula cinco medalhas de ouro e recentemente trouxe o bronze das Paralimpíadas de Paris, permanece como uma das maiores potências da modalidade no mundo. Mesmo sem alcançar o desejado hexacampeonato, sua trajetória impressiona: ao longo de seis edições paralímpicas, foram 32 partidas disputadas, com 24 vitórias, oito empates, 61 gols marcados e apenas seis sofridos.

Cena de “Futebol de Cegos”- Divulgação
Embora hoje já se conheça o desfecho da campanha em Paris, o documentário volta no tempo para retratar a preparação para o evento, nos conduzindo pelos bastidores da equipe, mostrando sessões de treinamento, conversas estratégicas com o técnico Fábio Vasconcelos, entrevistas intimistas com os atletas e registros de partidas no exterior, acompanhando a jornada que se inicia em quadras de Pernambuco e culmina nos portões da capital francesa, destacando a força, disciplina e unidade do time.
Um dos maiores méritos da produção é o cuidado com que aborda o ambiente interno da seleção, transmitindo um senso de empatia, coletividade e comprometimento característicos de equipes vencedoras, especialmente de uma com tantos títulos e reconhecimento internacional. Não se trata apenas de apresentar a modalidade ao público, mas de revelar a dimensão humana e simbólica do esporte, ressaltando sua relevância dentro e fora das quadras.
A obra também se destaca ao desconstruir estigmas historicamente associados à deficiência, evidenciando que na equipe não há heróis e nem vítimas: somente atletas altamente qualificados, orgulhosos de exercer sua profissão e de representar o Brasil no mais alto nível do esporte paralímpico.
Essa perspectiva é reforçada pela fala de José Antônio Freire, presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro: “Este documentário reflete o que o movimento paralímpico brasileiro representa: excelência esportiva, trabalho em equipe e o poder transformador da prática esportiva. É um retrato fiel do nosso compromisso em promover o esporte nas melhores condições possíveis e em valorizar cada atleta como protagonista de sua trajetória.”
Com seus objetivos claros, a produção se desenvolve ao longo de 77 minutos, com um ritmo rápido. No entanto, embora seja eficiente ao prestar uma homenagem à seleção pentacampeã, por vezes recorre a um didatismo excessivo, quando poderia ter aproveitado e explorado com maior profundidade as dificuldades enfrentadas não apenas por um time acostumado a vencer, mas por atletas com deficiência visual que conciliam suas vidas pessoais, sociais e profissionais com a alta performance esportiva, ampliando essas camadas e tornando a obra ainda mais robusta.

Cena de “Futebol de Cegos”- Divulgação
Apesar disso, Futebol de Cegos permanece como um filme relevante por iluminar um universo pouco conhecido para grande parte do público. Com sensibilidade e honestidade, constrói um retrato cuidadoso e significativo de uma equipe singular, que segue deixando sua marca na história do esporte paralímpico mundial.
Após uma exibição exclusiva na Cinemateca Brasileira, realizada na última quarta-feira, 19, marco dos mil dias para os Jogos Paralímpicos de Los Angeles 2028, Futebol de Cegos estreia no dia 25, terça-feira, no SporTV, às 0h30, e, em seguida, passa a integrar o catálogo da Globoplay.
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