Dirigido por Andrucha Waddington, Gêmeas mostra a potência de uma Fernanda Torres que sempre foi, e sempre será, uma das maiores que nós temos.
Como parte da retrospectiva de clássicos e restaurados da Première Brasil, a exibição de Gêmeas aconteceu em uma sala lotada do Espaço Net Botafogo, durante o 27º Festival do Rio. Estavam presentes o diretor Andrucha Waddington, Fernanda Montenegro e, claro, Fernanda Torres, que discursaram antes da sessão sobre a longevidade e a força do projeto, porém, muito além da nostalgia, assistir a essa deliciosa e intensa adaptação de Nelson Rodrigues em 2025, e ver o público aplaudir de pé, é um lembrete de como o cinema brasileiro tem força de ser eterno.
Lançado em 1999, Gêmeas estreou no mesmo ano em que Fernanda Montenegro concorreu ao Oscar de Melhor Atriz por Central do Brasil (1998, Walter Salles), e 26 anos antes de Fernanda Torres viver situação semelhante ao ser indicada por Ainda Estou Aqui (2025, Walter Salles). Mãe e filha não levaram a estatueta, mas seguiram sorrindo e lutando pelo legado do cinema nacional, algo que ficou evidente em suas presenças calorosas nas sessões do festival.

Fernanda Torres em cena de “Gêmeas”- Divulgação Festival do Rio
Baseado em um conto de Nelson Rodrigues, Gêmeas é mais do que uma simples adaptação: é uma ode à dualidade humana, ao desejo e à ironia trágica que marcam a obra do autor. Rodrigues, conhecido por peças como Vestido de Noiva (1943) e pelos contos de A Vida Como Ela É…, tinha o dom de retratar o Brasil com crueza e poesia.
Os contos de sua coluna foram unidos em um grande livro homônimo, um que guarda significado pessoal para mim: foi o favorito da minha avó, Maria do Carmo Sanchez, uma mulher forte que perdemos durante a pandemia. Guardo seu exemplar até hoje, com sua assinatura presente no meio das páginas.
Entrei na sessão sem lembrar exatamente do conto que inspirou o filme, e saí completamente encantado. Em apenas 75 minutos, Waddington entrega uma narrativa ágil, divertida e, ao mesmo tempo, profundamente humana. É impressionante em tão pouco tempo a produção varia entre riso, tristeza e tensão, uma combinação perfeita da escrita provocadora de Nelson Rodrigues, da direção precisa de Waddington e do talento de Fernanda Torres.
A trama acompanha as gêmeas Iara e Marilene, irmãs que vivem enganando homens para desespero do pai. Quando Marilene se apaixona por Osmar, um instrutor de autoescola, nasce um triângulo amoroso fadado à tragédia. A interpretação de Torres é magistral: pequenas diferenças de postura, tom de voz e expressão bastam para diferenciar as irmãs. Iara é sensual e autoconsciente, enquanto Marilene é mais doce e contida, sendo esta dualidade o coração do filme.
Do ponto de vista técnico, Gêmeas é surpreendente, com cenas incrivelmente orgânicas entre as duas personagens, com abraços, toques e planos-sequência que criam a ilusão perfeita de duas pessoas distintas, muito antes da popularização dos efeitos digitais ou da inteligência artificial. O resultado é mais convincente do que em muitos filmes da mesma época, como Operação Cupido (1998, Nancy Meyers), mas com uma naturalidade e uma fisicalidade que só o cinema brasileiro parece alcançar.

Fernanda Torres em cena de “Gêmeas”- Divulgação Festival do Rio
A fotografia aposta em tons bege e dourados, que evocam nostalgia e sensualidade, enquanto as sombras reforçam o mistério e a tensão crescente, enquanto um ritmo ágil e clima constante de provocação, torna impossível desgrudar os olhos da tela. Cenas como o baile de Carnaval, o passeio de carro e as brincadeiras das gêmeas unem com leveza o humor, o erotismo e a melancolia, marcas registradas de Nelson Rodrigues.
Mas o que realmente torna Gêmeas inesquecível é Fernanda Torres. Sua entrega é absoluta. Ela domina cada gesto, cada olhar, criando duas mulheres completas e contrastantes. Em 1999, talvez ela ainda não tivesse dimensão do tamanho de seu próprio talento, porém, hoje é inegável: Torres é uma das maiores atrizes da história do cinema brasileiro.
Ao final da sessão, sob aplausos entusiasmados, fui cumprimentar Fernanda Torres, que estava acompanhada da mãe, Fernanda Montenegro, sentadas logo atrás de mim. Pedi uma foto com ambas. Por um breve instante, ao olhar para Montenegro, enxerguei minha avó. Senti um conforto imenso quando ela me disse, com um sorriso: “tudo de bom para você”, e como mostrado na foto abaixo, foi impossível conter o riso e a emoção.
Entre tantas experiências que o cinema já me proporcionou, essa ficará guardada por muito tempo, não apenas por ver pela primeira vez um grande clássico nacional, mas por viver um momento de amor e memória que só o cinema brasileiro, e seus respectivos artistas, é capaz de oferecer.

Fernanda Montenegro, André Quental Sanchez e Fernanda Torres em sessão de “Gêmeas” realizada no 27º Festival do Rio
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Sua crítica entusiasta foi tão instigante que reacendeu meu interesse em assistir Gêmeas novamente, buscando compreender melhor as nuances e interpretações que você apontou.