Dirigido por Justin Tipping, GOAT explora masculinidade, e sua relação com a brutalidade do futebol americano, mas se perde em alegorias desconexas e impacto vazio
Assim como Whiplash (2014, Damien Chazelle), Cisne Negro (2010, Darren Aronofsky) e A Substância (2024, Coralie Fargeat), GOAT discute o tema da obsessão pelo sucesso e a jornada autofágica em busca da perfeição, em ser o “Greatest Of All Time”. No entanto, ao contrário destes exemplos, que equilibram a intensidade dramática com uma narrativa sólida e empática, apesar de seguirem um caminho onírico e bizarro, o filme de Justin Tipping se perde em sua própria grandiosidade, deslizando para um surrealismo que mais confunde do que ilumina.
Ao contrastarmos GOAT com a obra de Jordan Peele, que aqui assina como produtor da produção, esta questão se torna ainda mais chocante. Tanto em Corra! (2017) quanto em Nós (2019), Peele alia o horror à camadas simbólicas claras: racismo, identidade, poder e memória coletiva. Em GOAT, há a tentativa de repetir essa fórmula, mas o que poderia ser uma análise afiada sobre masculinidade, traumas familiares e brutalidade esportiva, se dilui em alegorias desconexas, criaturas místicas e rituais enigmáticos que não apresentam a devida explicação sobre seus efeitos, ou processo em si.

Marlon Wayans em cena de GOAT-Divulgação Universal Pictures Br
O futebol americano surge como palco e metáfora para a discussão principal sobre masculinidade. Cameron é moldado desde a infância por um pai que projeta nele a figura de Isaiah White, quarterback idolatrado que, mais tarde, assume o papel de mentor e figura paterna. Crescendo com esta pressão de ser “homem de verdade” para assim ocupar este espaço mítico, Cameron passa por um processo que se resume em uma verdadeira seita de iniciação, onde a dor, o sacrifício e a violência são vistos como ritos de passagem necessários. Nesse ponto, GOAT se aproxima da contundência de Peele: a crítica social não está apenas na superfície, mas embutida no imaginário coletivo que naturaliza a violência como parte da identidade masculina.
Recheado de acontecimentos bizarros que não apresentam a explicação devida, como a fã maluca de Isaiah, ou as criaturas que apresentam do nada, levam inicialmente à reflexão que toda a produção ocorreu por conta da contusão de Cameron, que sonha com tudo aquilo, porém, isto não acontece, levando a um surrealismo vazio que por não apresentar uma base no real, se torna fraca, levando o horror a ser não uma ferramenta de desconstrução, mas um recurso de estranhamento que, ao invés de expandir o discurso, o dilui.
Ao fim, GOAT apresentava a ambição de ser ao mesmo tempo um retrato psicológico, uma crítica social e uma obra surrealista à la David Lynch, no melhor estilo Cidade dos Sonhos (2002, David Lynch), mas sua narrativa fragmentada e seu foco na estética sobrepõe-se ao discurso.

Tyriq Withers e Julia Fox em cena de GOAT- Divulgação Universal Pictures Br
Apesar de uma construção cinematográfica louvorosa e experimental, a principal discussão envolvendo masculinidade, racismo no esporte, e a lógica sacrificial que existe no mundo, quando se deve passar o bastão para alguém mais jovem estão presentes, mas não encontram a mesma síntese que fizeram dos filmes de Peele símbolos desta nova era do horror, resultando em uma produção brutal, violenta, mas vazia, que prefere chocar em vez de revelar e aprofundar, deixando para o seu espectador todo o trabalho de construir as relações, e tentar achar lógica onde em certos momentos está claro demais, e em outros complexo demais.
Distribuído pela Universal Pictures BR, GOAT estreia no dia 02 de outubro.
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