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Paul Mescal e Josh O Connor em cena de "A História do Som"- Divulgação Imagem Filmes
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘A História do Som’ acerta na estética, mas falha no conflito

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 26 de fevereiro de 2026
6 Min Leitura
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Paul Mescal e Josh O Connor em cena de "A História do Som"- Divulgação Imagem Filmes
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Dirigido por Oliver Hermanus, A História do Som parte de uma premissa sensorial poderosa, mas escolhe um caminho contido demais para o próprio potencial dramático.

Na faculdade, tive uma professora que dizia sonhar em enxergar cores na música. Caso algum aluno tivesse essa habilidade, que se levantasse e saísse da sala. Foi ali que tomei consciência que sons podem carregar imagens, texturas, memórias, e é justamente essa ideia que inaugura A História do Som. Logo na primeira cena, o filme propõe uma reflexão sobre a experiência auditiva como algo quase sinestésico, estabelecendo o som não apenas como elemento técnico, mas como força emocional e narrativa.

Desde o início, A História do Som deixa claro que não é uma produção interessada em um drama expansivo. A abordagem é contemplativa, marcada por silêncios, olhares e pela reverência às canções folk que moldam o universo de David e Lionel. Quando o segundo ato se instala, o relacionamento entre os dois é explorado com delicadeza e naturalidade, talvez até excessiva demais e melancólica demais em certos momentos.

O fato de se tratar de um romance homoafetivo no início do século XX não se converte em conflito central. Não há repressão externa significativa, nem dilemas internos que ameacem a estabilidade do casal. A relação é apresentada com serenidade quase idealizada, como se estivesse suspensa em um espaço onde o mundo real não interfere. É uma escolha nobre, especialmente por evitar o clichê do sofrimento como única narrativa possível para personagens queer. Ainda assim, essa harmonia constante esvazia a tensão dramática.

Paul Mescal e Josh O Connor em cena de "A História do Som"- Divulgação Imagem Filmes

Paul Mescal e Josh O’Connor em cena de “A História do Som”- Divulgação Imagem Filmes

A ausência de fricção transforma este relacionamento de ambos em uma sucessão de momentos belos, porém pouco dinâmicos. As músicas folk, tratadas como patrimônio emocional, assumem protagonismo, e funcionam de modo eficiente. Há algo genuinamente tocante na forma como David e Lionel compartilham essas canções, como se cada verso fosse uma extensão do afeto entre eles. No entanto, a contemplação prolongada cobra seu preço, fazendo com que A História do Som pareça satisfeito demais com a própria atmosfera, para ousar inovar.

Visualmente, Hermanus constrói quadros de grande sensibilidade. Os desfoques e a fotografia suave criam a impressão de que os personagens habitam um universo à parte, quase onírico. Essa estética reforça a ideia de memória, de amor idealizado, mas também contribui para a sensação de isolamento dramático. Quando a narrativa finalmente introduz a separação, o impacto é perceptível justamente porque rompe a inércia que vinha se acumulando, e torna o filme bem mais dinâmico.

No último ato, o filme recupera parte do vigor inicial. A discussão entre Lionel e Clarissa sobre Orfeu e Eurídice não é apenas referência mitológica, mas comentário direto sobre amor, perda e impossibilidade de retorno. O encontro com a viúva de David adiciona uma camada de maturidade emocional que o miolo da narrativa parecia evitar. Há, enfim, conflito, ainda que tardio.

Mais do que uma história de amor, A História do Som é uma carta à tradição folk e à preservação cultural. David e Lionel funcionam como mediadores entre passado e presente, entre memória e registro. Essa dimensão histórica e musical é, talvez, o aspecto mais consistente do filme. Quando se concentra nisso, a obra encontra propósito que se perde quando somente foca no casal.

Paul Mescal em cena de "A História do Som"- Divulgação Imagem Filmes

Paul Mescal em cena de “A História do Som”- Divulgação Imagem Filmes

Ainda que não reinvente a narrativa romântica nem proponha rupturas formais decisivas, o filme se sustenta nas performances. Paul Mescal e Josh O’Connor entregam atuações contidas e profundamente sensíveis, capazes de transmitir desejo, cumplicidade e dor com mínimos gestos. É através deles que o espectador realmente sente o que o roteiro hesita em dramatizar.

A História do Som é elegante, delicado e visualmente envolvente. Falta-lhe, contudo, a coragem de tensionar o próprio universo que constrói. Entre o amor idealizado e a reverência musical, Hermanus prefere a harmonia ao risco, e ao fazê-lo, limita o alcance emocional de uma história que poderia soar muito mais alto.

Distribuído pela Imagem Filmes, A História do Som estreia nos cinemas no dia 26 de Fevereiro.

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Tags:a historia do somCinemacriticacritica a historia do somJosh O Connor
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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.
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