Dirigido por Aurélio Michiles, Honestino combina documentário e ficção para retratar a importância política de Honestino Guimarães. No entanto, ao final sentimos que não o conhecemos.
Por mais que o cinema nacional lance novas produções semanalmente, a ditadura militar continua sendo um de seus temas mais revisitados. Desde a Independência, poucos períodos foram tão determinantes para a história política do Brasil, o que explica a constante revisitação desse momento histórico por obras que investigam seus impactos tanto sobre indivíduos quanto sobre a sociedade. Honestino é mais um desses casos.
Apostando na linguagem da docficção, o longa intercala entrevistas com ex-militantes da Universidade de Brasília, familiares e estudiosos do período com reconstituições históricas protagonizadas por Bruno Gagliasso, que interpreta Honestino Guimarães. Estudante de Geologia, presidente da Federação dos Estudantes da UnB e preso quatro vezes durante a ditadura, Honestino jamais abandonou sua luta contra o regime.
Os primeiros minutos funcionam muito bem ao contextualizar sua trajetória política por meio dos relatos de pessoas que conviveram com ele ou dedicaram anos ao estudo daquele período. Já as sequências ficcionais seguem uma estética teatral, apresentando Honestino em momentos de mobilização estudantil, discursos e confrontos com a repressão. Embora competentes tecnicamente, essas cenas raramente acrescentam novas camadas dramáticas, servindo muito mais como ilustrações do que já foi dito pelos entrevistados.

Bruno Gagliasso em cena de “Honestino”- Divulgação Pandora Filmes
É justamente aí que reside o maior problema do filme. Conhecemos a perseverança de Honestino, sua firmeza diante das prisões e suas convicções políticas. Entretanto, mesmo ouvindo sua primeira esposa, sua segunda esposa, sua filha e seu neto, pouco descobrimos sobre o homem além do militante. O documentário dedica amplo espaço às suas ideias, mas quase nenhum à sua intimidade. Sem essa dimensão pessoal, torna-se difícil criar verdadeira empatia pelo personagem que ocupa o centro da narrativa.
O que inicialmente se mostra um rico trabalho de pesquisa, sustentado por imagens de arquivo, gravações da época, documentos e reportagens, aos poucos se torna repetitivo. Por mais relevante que tenha sido a militância de Honestino Guimarães, ela, sozinha, não sustenta 90 minutos de narrativa. O filme insiste nas mesmas reflexões e retorna constantemente aos mesmos episódios, provocando uma sensação crescente de desgaste.
Bruno Gagliasso entrega uma atuação comprometida dentro das limitações impostas pelo roteiro. No entanto, as sequências ficcionais carecem de profundidade suficiente para despertar emoção. Em vez de ampliar nossa compreensão sobre Honestino, elas apenas ilustram visualmente aquilo que as entrevistas já haviam estabelecido, reforçando a sensação de circularidade que acompanha boa parte da obra.

Bruno Gagliasso em cena de “Honestino”- Divulgação Pandora Filmes
Como era sua relação com a mãe? Como viveu seu casamento? O que sentiu ao se tornar pai? Essas perguntas podem parecer secundárias diante da importância de sua atuação política, mas são justamente elas que humanizam uma figura histórica. Ao ignorar quase completamente essa dimensão, Honestino transforma seu protagonista em um símbolo antes mesmo de apresentá-lo como indivíduo.
Relembrar a ditadura militar continua sendo essencial, especialmente em um momento em que discursos revisionistas ganham espaço. Entretanto, também é preciso reconhecer que o cinema brasileiro vem retornando a esse período com frequência, muitas vezes sob perspectivas semelhantes. Quando a dimensão humana é deixada em segundo plano, o risco é transformar personagens complexos em representações quase exclusivamente ideológicas.
Ao final da sessão, as imagens que permanecem são as da invasão da UnB, dos estudantes refugiados no Congresso Nacional e da homenagem prestada a Honestino anos após sua morte. Sabemos pelo que ele lutava e compreendemos a importância de sua resistência. O que o filme, contudo, nunca consegue responder plenamente é quem era Honestino Guimarães para além de sua militância. E essa ausência, em um documentário dedicado exclusivamente à sua trajetória, é difícil de perdoar.
Distribuído pela Pandora Filmes, Honestino estreia nos cinemas em 13 de agosto.
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