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Olivia Wilde e Cooper Hoffman em cena de "I Want Your Sex"- Divulgação O2Play
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘I Want Your Sex’ expõe a repressão sexual de uma geração perdida

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 15 de outubro de 2026
8 Min Leitura
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Olivia Wilde e Cooper Hoffman em cena de "I Want Your Sex"- Divulgação O2Play
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Dirigido por Gregg Araki, I Want Your Sex é um tiro no peito de uma geração que se sente atingida por algo tão natural quanto o sexo

Aos 66 anos, Gregg Araki estrutura uma produção que compreende melhor a carência e a busca da geração Z por afeto do que muitas outras que optam por simplesmente ignorar essa questão, como se fosse algo surreal. Isso diz muito, e I Want Your Sex consegue discutir o tema com maestria dentro de um thriller erótico que flerta com o noir, mas que poderia ir muito além.

Ao contar a história do relacionamento entre Erika e Elliot, Araki explora uma relação essencialmente sexual entre uma chefe e seu jovem funcionário, cuja dinâmica pode ser interpretada como própria ou imprópria, dependendo do ponto de vista do espectador. Envolvida com o mundo da arte contemporânea, Erika considera o sexo uma parte fundamental de seu processo criativo, enquanto Elliot funciona como uma espécie de gatilho para sua imaginação. À medida que ambos aprofundam essa relação, porém, suas vidas começam a desandar.

É uma pena que Araki inicie I Want Your Sex com uma sequência que remete diretamente a Crepúsculo dos Deuses (1950), de Billy Wilder, mas abandone essa estética noir ao longo do filme. A produção passa a apostar em cores exageradas, sequências oníricas que representam a repressão de Elliot e figurinos de Erika que ressaltam seu olhar e praticamente contam uma história à parte. Ainda que essas escolhas visuais sejam interessantes, o filme começa com uma atmosfera de tensão e mistério que não consegue sustentar até o fim. Como resultado, a narrativa se arrasta, fazendo com que seus curtos 90 minutos pareçam muito mais longos.

Olivia Wilde em cena de "I Want Your Sex"- Divulgação O2Play

Olivia Wilde em cena de “I Want Your Sex”- Divulgação O2Play

Os diálogos entre Erika e Elliot, somados às interações do jovem com outras pessoas de seu convívio, ajudam a construir o principal interesse da obra. Minerva, sua namorada; Apple, sua colega de quarto e melhor amiga; e Zap, seu colega de trabalho, representam diferentes maneiras de lidar com o sexo e o desejo. É justamente essa diversidade de perspectivas que torna o filme tão interessante.

Minerva é fria e constantemente retratada como uma megera. A atuação de Charli XCX não desperta empatia, assim como o roteiro tampouco se esforça para humanizá-la. Até mesmo a paleta de cores cinzentas e pastéis que acompanha suas aparições parece reforçar essa frieza, sem oferecer qualquer calor à personagem. Namorada de Elliot, ela não quer transar com ele e tampouco demonstra interesse em expressar afeto. Mais adiante, descobrimos, porém, que sua libido está longe de ser inexistente: ela simplesmente não se manifesta na relação com o namorado.

Apple, por sua vez, é reprimida, mas, ao contrário de Elliot, permanece sonhando com as possibilidades em vez de abraçar aquilo de que realmente gosta e que deseja. Quando Erika convence Elliot a convidá-la para um ménage, o beijo entre Apple e Elliot revela uma química evidente e deixa claro o quanto a jovem gostava de seu colega de apartamento. Ainda assim, os dois nunca chegam a discutir abertamente o que aconteceu. Após uma noite caótica com Erika e Elliot, Apple escolhe fugir, deixando para trás uma relação que mal teve a oportunidade de se concretizar.

Olivia Wilde em cena de "I Want Your Sex"- Divulgação O2Play

Olivia Wilde em cena de “I Want Your Sex”- Divulgação O2Play

Por fim, temos Zap. Gay e livre, ele promove orgias em casa e vive seus desejos sem grandes restrições. Interpretado por Mason Gooding, entretanto, o personagem é marcado por um estoicismo excessivo e por uma maneira monotônica de expressar julgamentos e percepções. Sua postura acaba representando uma parcela dos jovens que, mesmo cercados por possibilidades, parecem observar a própria existência à distância.

Ao final, todos os personagens estão perdidos entre seus desejos e suas ambições, sem saber como conciliá-los ou abraçá-los plenamente. Erika é a figura mais bem resolvida nesse aspecto e, em parte, os momentos em que I Want Your Sex tenta acrescentar camadas à personagem estão entre os mais fracos da produção. Ela funciona justamente por ser envolta em uma aura de mistério e desejo, além de ocupar uma posição de dominadora que Olivia Wilde interpreta com evidente prazer, sem medo de abraçar o erotismo para dar vida a uma personagem tão rica.

Olivia Wilde e Cooper Hoffman em cena de "I Want Your Sex"- Divulgação O2Play

Olivia Wilde e Cooper Hoffman em cena de “I Want Your Sex”- Divulgação O2Play

Segundo Gregg Araki, a concepção original de I Want Your Sex apresentava um artista dominador e uma assistente mulher, mas os papéis foram invertidos após o movimento #MeToo. A mudança fortalece a proposta do filme, que ganha novas possibilidades de leitura ao subverter expectativas sobre poder, gênero e sexualidade. Ainda assim, a narrativa acaba mergulhando em uma odisseia erótica sem grandes momentos de catarse. Acompanhamos Elliot, um jovem reprimido que, da noite para o dia, experimenta um despertar sexual quase surreal. No entanto, ao refletir excessivamente sobre suas experiências e enxergar amor e poesia onde talvez existisse apenas sexo, ele acaba destruindo as relações que construiu ao longo da vida.

O aspecto mais curioso de I Want Your Sex é a maneira como Araki exagera todos os elementos do cenário para retornar constantemente à mesma questão: o sexo deve ser apreciado, mas também é necessário compreender por que e como o desejamos. O desejo é natural, e Araki entende isso. Ainda assim, o filme poderia oferecer catarses mais significativas e repetir menos suas principais ideias. Afinal, embora tenha apenas 90 minutos, a produção parece durar quase duas horas, não por falta de atrativos, mas pela insistência em revisitar mensagens que já foram suficientemente estabelecidas.

As reflexões sobre a filosofia hedonista e a arte contemporânea, que poderiam render discussões mais profundas, acabam apenas tangenciadas. O foco retorna continuamente às relações entre os personagens, enquanto os poucos momentos oníricos de I Want Your Sex nos permitem acessar a mente de Elliot, porém não são suficientes para provocar uma verdadeira mudança de ritmo.

O resultado é um dos filmes mais convencionais de Araki, que, apesar de suas limitações, funciona como um ultimato a uma juventude contemporânea que parece cada vez mais reprimida diante dos próprios desejos.

Distribuído pela O2 Play, I Want Your Sex chega aos cinemas em 22 de outubro.

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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

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