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Shin Hyun-bin em cena de "Zona Zero"- Divulgação Paris Filmes
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘Zona Zero’ transforma o shopping em caótico playground de zumbis

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 5 de outubro de 2026
10 Min Leitura
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Shin Hyun-bin em cena de "Zona Zero"- Divulgação Paris Filmes
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Dirigido por Yeon Sang-ho, Zona Zero resgata o simbolismo de Despertar dos Mortos, mas troca a sátira ao consumismo pela catarse de um caos cada vez mais escatológico

Não existe praticamente nenhum filme de zumbis contemporâneo que não dialogue, em maior ou menor medida, com George A. Romero. Afinal, foi o mestre do horror quem ajudou a consolidar os mortos-vivos não apenas como criaturas assustadoras, mas como uma poderosa ferramenta para refletir sobre a própria sociedade.

Do humor mais absurdo às guerras de escala mundial, os zumbis continuam funcionando como um espelho dos nossos comportamentos. Por isso, quando Zona Zero coloca sua história dentro de um shopping e transforma a dinâmica de uma comunidade em parte fundamental da narrativa, é impossível não pensar em Despertar dos Mortos (1978).

Mas existe uma diferença fundamental entre os dois filmes. A crítica ao consumismo presente na obra de Romero, os mortos retornando ao shopping, repetindo mecanicamente hábitos que possuíam em vida, hipnotizados por vitrines, propagandas e mercadorias, também está presente em Zona Zero? Sim. É o principal objetivo do filme? Definitivamente, não.

E essa distinção é importante para compreender o trabalho de Yeon Sang-ho. Se analisarmos Zona Zero exclusivamente dentro da tradição simbólica do gênero, sua principal contribuição não está exatamente no consumismo, mas no comportamento coletivo. O diretor transforma os infectados em uma espécie de colônia, utilizando as formigas e sua organização comunitária como uma referência explícita. Eles não apenas atacam: observam, aprendem, reproduzem comportamentos e evoluem juntos.

Koo Kyo-hwan em cena de "Zona Zero"- Divulgação Paris Filmes

Koo Kyo-hwan em cena de “Zona Zero”- Divulgação Paris Filmes

É uma ideia visualmente fascinante, especialmente quando o filme utiliza os próprios elementos do shopping para reforçar essa transformação. Há uma sequência particularmente bela em que os reflexos das lojas multiplicam os infectados, fazendo com que o espaço pareça tomado por uma única criatura composta por centenas de corpos. Diferentemente dos mortos de Romero, porém, esses zumbis correm, pulam e, principalmente, aprendem uns com os outros. O shopping deixa de ser apenas um templo do consumo para se transformar em um laboratório de comportamento coletivo.

E é justamente aí que Zona Zero encontra seu próprio caminho. O filme poderia mergulhar profundamente nas implicações sociais dessa ideia: individualismo versus coletividade, solidão, comportamento de massa e a contradição de uma sociedade que exalta a independência ao mesmo tempo que depende desesperadamente do grupo. Existem elementos suficientes para passar horas discutindo essas questões em uma mesa de bar. Mas Yeon Sang-ho não parece particularmente interessado em permanecer nesse terreno.

Seu objetivo é muito mais simples, e em vários momentos, muito mais divertido: causar o máximo de caos possível.

Zona Zero é, acima de tudo, um espetáculo de ação e horror. Personagens tomam decisões obviamente estúpidas, entram em lugares onde claramente não deveriam entrar e fazem exatamente aquilo que o espectador está gritando para que não façam. E existe algo deliciosamente tradicional nessa estrutura. O famoso “não faça isso!” transforma-se em combustível para a próxima sequência de destruição.

Apesar de Se-Jeong assumir progressivamente o protagonismo, o filme funciona essencialmente como uma história de grupo. O problema é que o roteiro nem sempre consegue transformar esse grupo em uma verdadeira comunidade emocional. É difícil criar empatia pelo segurança do shopping, por sua irmã cadeirante, pelos três adolescentes ou mesmo por personagens que desaparecem repentinamente porque a narrativa precisa produzir uma nova vítima.

Jun Ji-hyun em cena de "Zona Zero"- Divulgação Paris Filmes

Jun Ji-hyun em cena de “Zona Zero”- Divulgação Paris Filmes

Han Gyu Seon talvez seja aquele que mais consegue estabelecer algum vínculo com o espectador, mas sua trajetória rapidamente é interrompida para que Se-Jeong possa ocupar o centro da história e completar seu próprio arco.

Isso enfraquece justamente uma das ideias mais interessantes do filme: se os infectados estão se tornando cada vez mais eficientes como grupo, os humanos parecem fazer o movimento contrário. Eles se fragmentam por egoísmo, medo, raiva e, em alguns casos, pura estupidez. Existe uma ironia curiosa nessa inversão, principalmente porque Seo Yeong-cheol pretendia justamente controlar o comportamento humano por meio de seu vírus “em colônia”.

Os infectados evoluem enquanto os humanos regridem.

A própria estrutura narrativa reforça essa sensação de videogame. Luzes, corredores, ambientes fechados, elevadores e escadas transformam o shopping em um enorme mapa de fases. Os personagens sobem, descem, retornam, procuram determinados objetos, encontram novos obstáculos e precisam cumprir mais um objetivo antes de finalmente alcançar o terraço e escapar.

Em outro filme, essa estrutura poderia rapidamente se tornar cansativa. Aqui, porém, o ritmo raramente permite que isso aconteça. Yeon Sang-ho dispara uma sequência de ação atrás da outra e entende perfeitamente que seu maior trunfo está na capacidade de transformar o shopping em um parque de diversões macabro. O espectador não necessariamente está torcendo pelos personagens, muitas vezes está simplesmente esperando para descobrir qual será o próximo desastre.

E quando o desastre acontece, o filme sabe entregar.

Nesse aspecto, Zona Zero apresenta uma linguagem bastante diferente de Hope: O Primeiro Impacto (2026, Na Hong-jin). Enquanto o blockbuster de Na Hong-jin aposta em planos mais longos e abertos, valorizando escala, espaço e dimensão, Yeon Sang-ho trabalha quase como se estivesse provocando um surto cinematográfico: cortes rápidos, movimentos frenéticos, zumbis correndo, sons agressivos, situações absurdas e uma montagem que raramente permite ao espectador respirar.

Cena de "Zona Zero"- Divulgação Paris Filmes

Cena de “Zona Zero”- Divulgação Paris Filmes

Existe até uma energia que remete a determinados momentos do cinema de ação sul-coreano, especialmente a Oldboy (2003, Park Chan-wook). Em uma das sequências mais divertidas, Choi Hyun-seok enfrenta diversos infectados em um plano contínuo utilizando nada menos que uma faca. Não é necessariamente a sequência mais realista do mundo, e definitivamente não precisa ser. É cinema de ação assumindo sua própria artificialidade e transformando a violência em coreografia.

Mas talvez a maior contribuição de Zona Zero para a mitologia recente dos mortos-vivos esteja justamente na evolução dos infectados.

Eles começam rastejando e, progressivamente, aprendem. Crescem, experimentam, observam e incorporam novos comportamentos. Não são simplesmente indivíduos contaminados: funcionam como partes de um organismo maior. Uma espécie de rebanho seguindo um pastor, embora, curiosamente, esse pastor seja menos uma entidade e mais a própria inteligência coletiva.

E aí o filme deixa uma pergunta interessante escondida no meio de toda a carnificina: e se a evolução não estiver acontecendo apenas nos monstros, mas também na maneira como eles se organizam?

É possível extrair diversos simbolismos dessa ideia. O próprio filme oferece material suficiente para isso. Mas Zona Zero não parece preocupado em transformar suas metáforas em grandes discursos. Ele prefere deixá-las funcionando nas entrelinhas enquanto acelera em direção à próxima perseguição, ao próximo ataque e à próxima explosão de violência.

No fim, Zona Zero é um excelente passatempo para quem gosta de filmes de zumbis, especialmente para aqueles que não precisam que todo morto-vivo carregue consigo uma tese política. As atuações funcionam, existem tentativas de drama que raramente conseguem aprofundar seus personagens e a construção emocional do grupo é prejudicada pela dificuldade de criar vínculos genuínos com boa parte deles.

Mas, quando o assunto é ação, Yeon Sang-ho sabe exatamente o que está fazendo.

Zona Zero olha para Romero, reconhece o shopping como um espaço carregado de simbolismo e, em vez de permanecer parado diante das vitrines, pega tudo aquilo, coloca uma horda de zumbis em movimento e acelera até o limite do caos.

E talvez seja justamente essa a graça: Romero queria que olhássemos para os mortos e enxergássemos a nós mesmos; Yeon Sang-ho quer que olhemos para eles, gritemos “não faça isso!” e, segundos depois, vibremos quando eles fazem exatamente aquilo, ocasionando a catarse do espetáculo, enquanto Romero a abominava. E ao final, ambos funcionam.

Distribuído pela Paris Filmes, Zona Zero chega aos cinemas em 15 de outubro de 2026.

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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

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