Dirigido por Mark Fischbach, Iron Lung é carta de amor cinematográfica que, na tentativa de capturar a essência do videogame, se perde em narrativa visceral, porém confusa.
Quando se realiza uma adaptação audiovisual de qualquer obra, é fundamental compreender qual é o objetivo da produção. Algumas adaptações optam por utilizar o universo do material original como base para construir algo novo, preservando apenas seus elementos centrais. Outras preferem revisitar a obra com mudanças pontuais em sua estrutura narrativa ou estética. Há ainda aquelas que escolhem seguir um caminho mais fiel, ampliando conceitos enquanto mantêm a dinâmica que tornou o material original popular. É dentro dessa última abordagem que Iron Lung se posiciona.
Baseado no jogo independente homônimo lançado em 2022, o filme surge como um projeto profundamente pessoal para Mark Fischbach, mais conhecido como Markiplier. Youtuber com milhões de seguidores e uma longa trajetória ligada ao universo dos videogames, Fischbach dirige e também protagoniza o longa, transformando a adaptação em uma verdadeira ode ao jogo que ajudou a consolidar sua presença no cenário digital.
Desde seus primeiros minutos, Iron Lung deixa clara sua natureza independente. Há um certo amadorismo perceptível na construção dos cenários e na fotografia, que em alguns momentos parece limitada. Curiosamente, essa estética irregular acrescenta para a atmosfera do filme. Ambientado quase inteiramente dentro de um pequeno submarino que navega por um oceano de sangue em um planeta desconhecido, o longa aposta em enquadramentos apertados, iluminação precária e ruídos constantes para criar uma sensação de claustrofobia e desconforto.

Markiplier em cena de “Iron Lung”- Divulgação
O principal obstáculo de Iron Lung, entretanto, está em sua construção narrativa. O filme claramente foi pensado por um fã e para fãs, algo que por si só não deveria ser encarado como um problema. Pelo contrário: o respeito ao material original é um elemento frequentemente ausente em muitas adaptações contemporâneas. Ainda assim, essa fidelidade cobra seu preço.
Embora o clima de mistério e ameaça seja estabelecido de maneira eficiente, desde o submarino perdido em um mar de sangue até as ambiguidades psicológicas do protagonista Simon, a história que se desenvolve ao redor desses elementos se torna confusa para espectadores que não possuem familiaridade prévia com o jogo. O universo apresentado carece de contextualização, e nem mesmo as explicações iniciais oferecem base suficiente para que novos públicos compreendam plenamente o que está em jogo.
Com pouco mais de duas horas de duração, o longa mantém grande parte da dinâmica presente no jogo original. Contudo, o que funciona bem em uma experiência interativa nem sempre se traduz com a mesma eficiência para o cinema. No material original, o protagonista sequer possuía nome definido, sendo apenas descrito como um ex-presidiário enviado em uma missão suicida. No filme, Fischbach busca expandir essa figura ao transformá-lo em Simon, um personagem que gradualmente encontra um propósito empático.
A intenção de construir um arco dramático mais humano é compreensível, mas a execução se mostra limitada. A história pregressa do personagem é apenas sugerida em diálogos e momentos isolados, sem receber o aprofundamento necessário para gerar maior impacto emocional. Como resultado, Simon funciona mais como um guia para o espectador dentro daquele universo do que como um protagonista plenamente desenvolvido.

Markiplier em cena de “Iron Lung”- Divulgação
A estrutura narrativa do filme também reforça sua forte ligação com o videogame. A progressão da história frequentemente lembra a lógica de fases e objetivos sucessivos, com pequenas tarefas e descobertas que conduzem a um objetivo maior. Somam-se a isso elementos clássicos do horror psicológico, como ruídos inexplicáveis, escuridão constante e a sensação de que algo se esconde além do alcance da visão.
Essa construção lenta cria um processo de slow burn que mantém o suspense ao longo da maior parte da duração do filme. No entanto, quando finalmente chega ao clímax, Iron Lung apresenta uma sequência final tão bizarra quanto abrupta. Embora visualmente marcante, o momento carece de uma construção dramática mais sólida, tornando-se excessivamente hermética para uma narrativa que não se aprofunda o suficiente em seus próprios conceitos.
Ainda assim, mesmo com suas falhas estruturais, Iron Lung permanece um exemplo interessante de como o entusiasmo genuíno de um fã pode moldar uma adaptação. Há um respeito evidente pelo material original em cada decisão criativa, e esse compromisso é recompensado com o reconhecimento do público que já possui familiaridade com o jogo.
Distribuído pela Paris Filmes, Iron Lung estreia nos cinemas brasileiros no dia 12 de março.
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