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Cena de Maldito Modigliani- Divulgação Autoral Filmes
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘Maldito Modigliani’ fica entre o retrato poético e o biográfico

Por
André Quental Sanchez
Última Atualização 9 de novembro de 2025
5 Min Leitura
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Cena de Maldito Modigliani- Divulgação Autoral Filmes
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Dirigido por Valeria Parisi, Maldito Modigliani busca iluminar um dos artistas mais enigmáticos e trágicos da história da arte moderna

Documentários são sempre interessantes como retratos de grandes personalidades, e dependendo do olhar que é direcionado para a produção ele pode seguir um caminho X ou um caminho Y, sempre seguindo a visão do artista por trás da produção. Se opta por uma estética mais mutável e dinâmica, permitindo fluidez, ou se baseando em entrevistas e fatos densos, o que no fim, por mais interessante que seja, faz o espectador se perder na linha de raciocínio, como é o caso de Maldito Modigliani.

Parisi aposta em uma escolha ousada para conduzir a narrativa: o eu-lírico é Jeanne Hébuterne, companheira e musa de Modigliani, que se suicidou dois dias após a morte do artista. Por meio da voz de Jeanne, o filme reconstrói a trajetória do pintor, entrelaçando o tom lírico com depoimentos de especialistas, falsificadores, cineastas e estudiosos, construindo um mosaico que combina encenações teatrais e poéticas com trechos documentais, em uma tentativa de refletir tanto o homem quanto o mito que era Modigliani.

Cena de Maldito Modigliani- Divulgação Autoral Filmes

Cena de Maldito Modigliani- Divulgação Autoral Filmes

Ao final, a estrutura narrativa se mostra fragmentada, saltando entre diferentes períodos da vida do artista, da infância em Livorno à efervescência parisiense, da miséria e do alcoolismo ao reconhecimento póstumo, e esta alternância constante de tempos e tons enfraquece o fio condutor da história, afastando o espectador menos familiarizado com o universo das artes plásticas.

O filme acaba sofrendo do mesmo dilema de outras produções recentes sobre grandes nomes da arte, como Picasso – Um Rebelde em Paris (2025, Simona Risa): o desejo de abordar uma vida inteira em um espaço de menos de duas horas, além dos impactos atuais do pintor, resulta em uma narrativa que, embora repleta de informações e reflexões, carece de foco emocional. Em Maldito Modigliani, o principal sacrifício é justamente o espaço de Jeanne Hébuterne, personagem que, embora anunciada como narradora e figura central, surge tardiamente e perde o protagonismo para o retrato enciclopédico do pintor.

Ainda assim, há muito mérito na tentativa de Parisi de reinterpretar a figura de Modigliani a partir de um olhar feminino e irônico, repleto de nuances e alusões às mulheres que circularam pela vida do artista, como Beatrice Hastings, momentos em que a produção encontra sua força poética, demonstrando os confrontos da lenda Modigliani, com o homem que buscava redenção por meio da arte e encontrava apenas mais sombras.

Visualmente, o documentário é envolvente. A fotografia dialoga com as cores e formas dos próprios quadros de Modigliani, criando paralelos entre sua estética e a atmosfera boêmia da Paris do início do século XX. Entretanto, a beleza formal nem sempre é acompanhada de uma mesma intensidade emocional, privilegiando a amplitude dos fatos e deixando de lado a profundidade das emoções que definiram o artista: sua luta contra a pobreza, a doença, o vício e a depressão, elementos que justificam o adjetivo “maldito” do título.

Cena de Maldito Modigliani- Divulgação Autoral Filmes

Cena de Maldito Modigliani- Divulgação Autoral Filmes

No fim, Maldito Modigliani se estabelece como um retrato mais histórico do que íntimo. Parisi constrói um panorama abrangente e informativo sobre o pintor e sua importância na arte moderna, mas evita se aprofundar nos motivos que o tornaram uma figura trágica, resultando em um documentário visualmente belo e intelectualmente estimulante, mas que carece de um fio emocional mais consistente para amarrar a complexa trajetória de seu protagonista.

Apesar de tudo, a produção reafirma o fascínio que Modigliani exerce até hoje. Ao misturar lirismo, história e crítica, Valeria Parisi oferece uma leitura contemporânea sobre um artista cuja dor e genialidade continuam ecoando um século depois de sua morte por conta de um homem que pintava almas com olhos vazios, e que o mundo aprendeu a admirar apenas quando já não podia mais enxergá-lo.

Distribuído pela Autoral Filmes, Maldito Modigliani chega aos cinemas em 13 de novembro.

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Tags:Amadeo ModiglianiAutoral FIlmesCinemadocumentárioMaldito Modigliani
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