Dirigido por Fábio Meira, Mambembe entrega uma reflexão não apenas sobre a arte circense e sua perseverança, mas também sobre o papel da arte como ferramenta de reinvenção.
Originalmente, Mambembe seria o primeiro longa-metragem de ficção de Fábio Meira: a história de um homem que viaja pelo Brasil, encontra três mulheres ao longo do caminho e, a partir dessas relações fraternas e amorosas, se reconecta com a própria vida. Com o passar dos anos, porém, o projeto acabou caindo no limbo, enquanto outros filmes ganharam prioridade. Muito tempo depois, em uma sociedade marcada por novos valores e costumes, Meira retorna a esse universo circense sob um olhar completamente diferente.
Assim como em Santiago (2007, João Moreira Salles), o tempo transforma o significado da obra. Agora estruturado como um docuficção, Mambembe utiliza lacunas do projeto original preenchidas por uma narração em off do próprio diretor. O resultado são sequências bem orquestradas, impulsionadas principalmente pelo carisma de suas personagens, capazes de arrancar risos e emoção da plateia em diálogos espirituosos, com destaque especial para India Morena.

Jessica Alves em cena de Mambembe- Divulgação Roseira Filmes
O filme também revisita os bastidores da produção original e propõe uma autocrítica do próprio diretor, especialmente na maneira como tratava Murilo Grossi, protagonista da versão inicial do longa. Frustrações, ressentimentos e conflitos criativos são ressignificados sob a perspectiva do presente, transformando o fracasso do projeto em parte essencial de sua narrativa.
O grande tema de Mambembe é a perseverança. Ao longo dos quinze anos entre o início da produção e sua conclusão, muita coisa mudou na vida das três mulheres retratadas. Cada uma delas trilhou caminhos distintos, marcados por perdas, recomeços e diferentes formas de sobrevivência artística. O longa traduz essas trajetórias equilibrando realismo e lirismo, sem perder de vista a fragilidade humana de suas protagonistas.
Narrativamente, Meira aposta em múltiplos recursos para costurar passado e presente. O tarô surge como elemento simbólico que conecta as histórias das personagens por meio de arquétipos, como o da Imperatriz, enquanto as animações em stop motion adicionam um aspecto lúdico e terreno à atmosfera circense. Esses elementos reforçam o caráter melancólico do filme, mas também sua crença na arte como espaço de permanência.
Ao retirar o glamour normalmente associado ao circo, Mambembe homenageia os sacrifícios feitos em nome da arte e evidencia as consequências de sonhos interrompidos. As três protagonistas sonhavam em atuar e levar alegria ao público através do projeto original, mas precisaram lidar tanto com o peso da idade quanto com o abandono do filme por tantos anos. Nesse contexto, a reinvenção deixa de ser escolha e passa a ser necessidade.

India Morena, Madona Show e Dandara Ohana em cena de Mambembe- Divulgação Roseira Filmes
Com 99 minutos de duração, o longa se sustenta melhor nos momentos centrados nas entrevistas e nos reencontros com o passado. Ainda assim, algumas sequências contemplativas acabam excessivamente alongadas, principalmente devido ao uso insistente da narração em off. O retorno de Madona Show para casa exemplifica esse problema: a cena se estende além do necessário entre a contemplação de uma casa de madeira rosa e a recusa da personagem em entrar nela, enquanto aguarda um chamado que talvez nunca venha.
No fim, Mambembe se revela um filme de nicho. É uma obra que deve encontrar maior ressonância entre artistas, cinéfilos e espectadores interessados em discussões antropológicas sobre memória, arte e existência. Para o grande público, porém, simboliza uma experiência distante e pouco acessível. Ainda assim, os símbolos de desgaste e efemeridade do circo funcionam como metáfora do próprio cinema brasileiro: uma arte constantemente atravessada por frustrações e incertezas, mas que, apesar de tudo, permanece de pé.
Distribuído pela Roseira Filmes, Mambembe estreia nos cinemas em 14 de maio.
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