Dirigido por Isao Takahata, Memórias de Ontem retrata com poesia a dicotomia campo e cidade, a importância do passado e o modo como lidamos com nossa identidade
Lançado em 1991, Memórias de Ontem se mantém até hoje um de seus filmes mais singelos e, ao mesmo tempo, mais maduros do Studio Ghibli. Distante da fantasia exuberante de Meu Amigo Totoro (1988, Hayao Miyazaki) ou Nausicaä do Vale do Vento (1985, Hayao Miyazaki), a obra aposta em um realismo poético para tratar de sentimentos universais como amor, saudade, desejo e o eterno questionamento sobre quem somos, quem deixamos de ser e quem podemos nos tornar.
O enredo acompanha Taeko, uma mulher de 27 anos que deixa Tóquio para passar alguns dias no interior e ajudar na colheita do açafrão. Esse retorno à terra natal desperta nela lembranças da infância, fazendo-a revisitar a garota sonhadora que experimentou o amargor de um abacaxi pela primeira vez, e viveu tantas outras aventuras. A viagem, tanto física quanto emocional, abre espaço para reflexões sobre os caminhos de sua vida adulta, e se aquele realmente era o seu objetivo de vida.
Isao Takahata construiu algo surpreendente, afinal, são raras as produções de animação que tratam o afeto na fase adulta com tanta sensibilidade e honestidade quanto Memórias de Ontem. A produção retrata uma mulher que não busca um “felizes para sempre” idealizado, mas sim a possibilidade de reencontrar em si mesma a espontaneidade perdida, e, a partir dela, ter a possibilidade de se abrir ao outro, por conta disso que o filme apresenta tantos monólogos entre personagens, são eles expurgando os demônios, e simplesmente se abrindo novamente para o mundo que havia se fechado para.

Cena de Memórias de Ontem- Divulgação Sinny
Um dos grandes encantos do filme está na sua construção visual. As lembranças da infância surgem em cenários brancos, como se pairassem em um espaço etéreo, enquanto o presente se mostra em cores plenas. Conforme Taeko se reconecta com o passado, as memórias ganham força e contraste, até que ambos os tempos se fundem em uma só imagem. É nessa união que Takahata nos entrega um dos finais mais doces e emocionantes do estúdio, que não apenas resolve a trajetória da protagonista, mas também toca o espectador em sua própria relação com a infância esquecida.
Inspirado no mangá de Hotaru Okamoto e Yuko Tone, Memórias de Ontem dialoga diretamente com o público adulto, abordando temas como menstruação, frustrações e a descoberta dos primeiros desejos, sem nunca deixar de lado um caráter onírico como quando Taeko literalmente flutua, ao percebe estar apaixonada, ou quando seus olhos se transformam em caricaturas ingênuas. Essa mescla de realidade e sonho revela o olhar delicado de Takahata para o universo feminino, registrando momentos canônicos da vida de muitas mulheres, mas de forma poética, nunca didática.
O contraste entre a vida urbana e o campo é outro eixo central. A cidade aparece como espaço da alienação, enquanto o interior se torna lugar de reconexão e renascimento. A metáfora da borboleta que emerge da crisálida simboliza bem esse processo: Taeko necessita se reconciliar com sua criança interior para assim florescer como adulta. Embora o filme pudesse expandir um pouco mais o retrato de sua vida na metrópole, o resultado não perde força, pois o foco está justamente na escolha pela simplicidade e no valor da terra e do agricultor como um todo.

Cena de Memórias de Ontem- Divulgação Sinny
Mais do que uma história sobre amor ou memórias, Memórias de Ontem é uma reflexão sobre como lidamos com o passado. Takahata não nos convida a perdoá-lo, pois não há culpa em nossas experiências infantis, mas a compreendê-lo como parte inseparável do que nos tornamos, criando assim uma ponte não somente entre a Taeko menina e a Taeko adulta, mas também entre nós e as nossas próprias infâncias, aquelas que, muitas vezes, deixamos esquecidas em meio à pressa da vida adulta, e que necessitamos abraçar de vez em quando, para seguirmos em frente.
Obra madura, delicada e profundamente humana, Memórias de Ontem se mantém uma das produções mais belas do Studio Ghibli por conta de transformar em poesia animada, as memórias que nos formam e que, inevitavelmente, continuam a nos acompanhar por toda a nossa vida, e ainda bem por isso.
Memórias de Ontem foi assistido no Sato Cinema, na semana de pré-estreia do Festival Ghibli. A primeira parte do festival ocorrerá entre os dias 18 de Setembro e 01 de Outubro, e passará 14 obras do estúdio incluindo O Serviço de Entregas da Kiki (1989, Hayao Miyazaki), O Castelo Animado (2004, Hayao Miyazaki), entre tantos outros clássicos.
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