Dirigido por Thomas Kail, Moana recicla o filme original de forma competente, porém preguiçosa, reforçando a dúvida sobre quais são, afinal, os verdadeiros objetivos dos remakes da Disney.
Apesar de Alice no País das Maravilhas (2010, Tim Burton), ter sido um dos primeiros grandes live-actions desta nova fase da Disney, foi Cinderela (2015, Kenneth Branagh), e sua excelente recepção de público e crítica que consolidaram um movimento sustentado pela nostalgia dos clássicos e por uma evidente crise criativa. A proposta passou a ser adaptar histórias consagradas para uma “nova geração”, mesmo quando essa necessidade nunca existiu, garantindo, em troca, mais alguns bilhões para o império do Mickey Mouse.
Enquanto produções da Era de Ouro e da Renascença do estúdio, como A Pequena Sereia (1989, Ron Clements e John Musker), dificilmente precisavam de uma nova versão, suas adaptações ao menos tentavam justificar a própria existência com mudanças que variavam entre interessantes e desastrosas, como o infame rap de Sabidão. Ainda assim, a nostalgia falava mais alto, afinal, tratava-se de filmes lançados décadas atrás para um público diferente.
É justamente aí que Moana entra em uma situação ainda mais delicada. O live-action chega menos de dez anos após a animação original. Com o primeiro longa arrecadando mais de US$ 600 milhões e sua sequência ultrapassando US$ 1 bilhão nas bilheterias, torna-se difícil enxergar outra justificativa além de uma decisão puramente comercial.

Cena de “Moana”- Divulgação Walt Disney Studios
Mesmo tendo uma continuação animada que poderia servir de inspiração para novos elementos narrativos, o filme prefere não expandir sua história. Diferentemente de Lilo & Stitch (2025, Dean Fleischer Camp), que buscava renovar alguns aspectos da narrativa, ou até de Branca de Neve (2025, Mark Webb), que ao menos assumia riscos criativos, Moana simplesmente replica o original. Piadas acontecem nos mesmos momentos, cenas são reproduzidas quase quadro a quadro e a maior parte da magia é substituída por um constante sentimento de déjà-vu. Não por acaso, os melhores momentos são justamente aqueles que recorrem à animação.
As sequências de “De Nada” e “Brilhe” representam o auge da produção. A primeira utiliza recursos animados para criar uma identidade visual que remete diretamente a “Nunca Teve um Amigo Assim”, de Aladdin (1992, Ron Clements e John Musker), transmitindo uma personalidade que raramente aparece no restante do longa. Pela primeira vez, o filme parece possuir uma identidade própria.
Já “Brilhe” transforma Tamatoa em um verdadeiro espetáculo de luzes, reflexos e cores, explorando o brilho de sua carapaça em uma sequência visualmente exuberante. É justamente nesses momentos que fica evidente o potencial desperdiçado do projeto.

Catherine Laga’aia em cena de “Moana”- Divulgação Walt Disney Studios
Caso o longa tivesse apostado mais na estilização visual e em novas ideias, em vez de simplesmente reproduzir a animação, poderia ter encontrado uma identidade própria. No fim, acaba sendo uma versão mais moderna, porém menor em praticamente todos os aspectos, justamente por abrir mão do ludismo e do encanto que definiam o original.
A coincidência de Moana (2016) também ter sido dirigido por Ron Clements e John Musker torna ainda mais evidente a proximidade estética com Aladdin. Ainda assim, a história da jovem navegadora que busca devolver o coração de Te Fiti continua poderosa o suficiente para funcionar praticamente sozinha. Sua força narrativa sobrevive mesmo quando inserida em um remake que repete todos os beats do original sem apresentar qualquer contribuição criativa. Isso impede que o filme seja ruim, mas o transforma em uma obra excessivamente segura, preguiçosa e claramente interessada em um lucro fácil.
No elenco, Catherine Laga’aia surpreende em seu primeiro grande papel. A atriz transmite carisma, segurança e encontra naturalidade em uma personagem que exige exatamente essas qualidades. Já Dwayne Johnson retorna como Maui sem o mesmo impacto da animação. Sua interpretação permanece divertida, mas constantemente soa como uma imitação da versão original, sensação reforçada pelo visual artificial e pela peruca pouco convincente utilizada durante todo o filme.

Dwayne Johnson em cena de ‘Moana’- Divulgação Walt Disney Studios
No fim, Moana sintetiza perfeitamente a atual crise criativa da indústria. Assim como Como Treinar o Seu Dragão (2025, Dean Deblois), opta por reproduzir quase integralmente o material original. A diferença é que, enquanto DeBlois parecia compreender profundamente a essência de sua animação, Thomas Kail entrega uma produção que transmite a sensação de ser apenas uma cópia extremamente cara de um filme que já se aproximava da perfeição. O oceano pode impressionar visualmente, mas jamais alcança o encanto, a expressividade e a beleza da animação.
O sentimento que permanece é o de vazio. O público-alvo deste novo Moana não são as crianças que cresceram com o filme de 2016, mas aquelas que nasceram desde então e ainda não possuem vínculo com a animação, além, é claro, dos fãs mais dedicados da obra original. Para todos os demais, resta apenas uma pergunta: “realmente precisava?”. A resposta continua sendo curta e direta: “não”.
Distribuído pela Walt Disney Studios, Moana estreia nos cinemas brasileiros em 9 de julho de 2026.
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