Dirigido por Sébastien Vanicek, A Morte do Demônio: Em Chamas amplia o universo da franquia e tenta levá-la a novos caminhos, mas acaba tropeçando justamente no peso do próprio passado.
Poucas franquias de terror conseguiram manter um nível de qualidade tão consistente enquanto se reinventavam ao longo de mais de quatro décadas quanto A Morte do Demônio. Iniciada em 1981, a série chega agora ao seu sexto filme diante de uma geração muito diferente daquela que viu Bruce Campbell enfrentar deadites com uma motosserra acoplada ao braço enquanto soltava o icônico “Groovy”.
Da mesma forma que o público mudou, o cinema também evoluiu. Nos anos 1980, uma mistura de galhofa, gore e violência extrema era suficiente para sustentar uma produção. Hoje, entretanto, a narrativa passou a ocupar um papel muito mais importante. Os fãs mais puristas podem argumentar que a trilogia original já possuía uma construção dramática, mas o que existia eram temas recorrentes e situações marcantes, não um desenvolvimento narrativo tão evidente quanto o que os filmes recentes tentam construir.
Se A Morte do Demônio: Ascensão (2023, Lee Cronin), utilizava o horror para discutir maternidade, Em Chamas escolhe abordar relacionamentos abusivos e o esforço necessário para romper com seus traumas, mesmo após a morte do agressor. É uma proposta interessante, que remete a O Homem Invisível (2020, Leigh Whannell). A diferença é que aqui essa abordagem precisa coexistir com décadas de um universo já estabelecido, e é justamente aí que surgem os maiores problemas.

Souheila Yacoub em cena de “A Morte do Demônio: Em Chamas”- Divulgação Sony Pictures
As liberdades criativas envolvendo o Necronomicon, as referências recorrentes da franquia e até a inevitável presença de uma motosserra são detalhes facilmente aceitáveis. Afinal, esses elementos já se tornaram parte da identidade da saga. O problema não está em atualizar o universo, mas na maneira como essa expansão é construída.
O maior tropeço de A Morte do Demônio: Em Chamas surge ao introduzir uma arma apresentada como a única capaz de derrotar definitivamente os deadites. Trata-se de um elemento que nunca havia sido mencionado nos filmes anteriores e que acaba funcionando como um retcon incômodo, comprometendo a coerência do universo estabelecido. Enquanto Ascensão encontrava frescor em situações genuinamente perturbadoras, como uma mãe voltando-se contra os próprios filhos, Em Chamas permanece preso a uma análise simbólica sobre relacionamentos abusivos que nunca alcança a profundidade pretendida.
A história acompanha Alice, uma viúva recente que busca abrigo na casa dos sogros. O que deveria ser um período de acolhimento rapidamente se transforma em um pesadelo com a chegada dos deadites. Ao redor dela está praticamente toda a estrutura da tradicional família norte-americana: pai, mãe, filhos e até uma avó responsável pelo alívio cômico.
Visualmente, Vani?ek aposta em uma estética extremamente controlada. A fotografia é competente e esteticamente gloriosa, mas a insistência em tons acinzentados, beges e uma paleta dessaturada torna o filme excessivamente cromofóbico, retirando parte da personalidade que Lee Cronin havia encontrado ao explorar cores mais vivas em Ascensão.
Isso significa que A Morte do Demônio: Em Chamas é ruim? Longe disso. O problema é que nunca transmite a sensação de atingir seu verdadeiro potencial. O humor aparece com mais frequência do que no longa anterior, mas raramente funciona de maneira natural. As melhores tiradas ficam por conta de Maude Davey, como Polly, praticamente sua principal função dentro da narrativa.

Cena de “A Morte do Demônio: Em Chamas”- Divulgação Sony Pictures
Em compensação, o gore é elevado ao máximo. Há membros mutilados, corpos dilacerados, pessoas bebendo cera quente e litros de sangue espalhados pela tela. A violência gráfica continua sendo um dos maiores atrativos da franquia, embora a direção de arte, presa aos tons escuros e dessaturados, diminua parte do impacto visual dessas sequências.
O elenco entrega boas atuações, especialmente Luciane Buchanan, responsável por um dos deadites mais interessantes dos filmes recentes. Ainda assim, é sintomático que uma participação especial na segunda cena pós-créditos desperte mais entusiasmo do que qualquer ameaça construída ao longo do próprio longa.
Surge então uma pergunta inevitável: quem é o público de Em Chamas? Durante a pré-estreia em São Paulo, mais de dois terços da plateia sequer tinham idade para assistir ao primeiro filme quando ele chegou aos cinemas em 1981, e muitos nasceram somente anos depois. O espectador contemporâneo espera algo além da violência gráfica, mas o longa insiste em utilizá-la como seu principal chamariz: um encosto de pescoço atravessando uma garganta, talheres cravados nas costas e criativas brincadeiras envolvendo fogo.
São cenas eficientes. Algumas chegam a provocar aquele desconforto característico da franquia, fazendo o espectador desviar o olhar enquanto sabe exatamente para onde tudo está caminhando. Entretanto, essa capacidade de causar choque nunca foi exclusiva de Em Chamas; ela faz parte do DNA de A Morte do Demônio desde sua origem.

Cena de “A Morte do Demônio: Em Chamas”- Divulgação Sony Pictures
É justamente por isso que A Morte do Demônio: Em Chamas tem dificuldade para se destacar. Funciona como mais um capítulo competente de uma franquia longeva, preservando tudo aquilo que a tornou famosa, mas sem encontrar uma identidade própria. Sua tentativa de inovar acaba criando incoerências que poderão dificultar os próximos filmes, enquanto sua principal metáfora permanece superficial.
Lee Cronin conseguiu equilibrar o exagero característico da saga com uma abordagem contemporânea. Sébastien Vanicek, por outro lado, entrega um terror mais interessado no choque imediato do que na construção dramática. O resultado é um filme eficiente, repleto de violência gráfica, mas que, quando analisado isoladamente, acaba soando surpreendentemente vazio.
Distribuído pela Sony Pictures Brasil, A Morte do Demônio: Em Chamas estreia nos cinemas em 9 de julho.
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