Dirigido por Johanna Moder, Mother’s Baby constrói sua tensão não a partir da dúvida, mas da certeza, e é justamente essa escolha que o define.
Na mitologia grega, Cassandra foi uma profetisa condenada a jamais ser acreditada, mesmo estando sempre correta. A tragédia não estava na profecia que se cumpria, mas na descrença de todos ao seu redor. Ao evocar esse arquétipo, especialmente dentro de uma sociedade patriarcal e apolínea que historicamente patologiza a fala feminina, encontramos a chave de leitura de Mother’s Baby: a mulher que sabe, mas é tratada como louca.
Desde antes da sala de parto, filmada como um ambiente frio, clínico e claustrofóbico, Mother’s Baby estabelece que algo está profundamente errado. Diferente de O Bebê de Rosemary (1969, Roman Polanski), que constrói paranoia pela ambiguidade, Johanna Moder opta por escancarar o absurdo desde o início. Não há culto oculto ou jogo de suposições. Há frieza, silêncio e uma sensação constante de deslocamento.
A tensão não nasce da dúvida sobre a sanidade de Julia. Nasce da violência da descrença de todos ao seu redor.

Marie Leuenberger e Claes Bang em cena de “Mother’s Baby”- Divulgação Festival do Rio
A mise-en-scène reforça essa ideia: a paleta de tons pastéis e frios não traz conforto; os planos fechados e imóveis comprimem o espaço; o design sonoro, que incorpora Franz Schubert e amplifica pequenos ruídos, transforma o cotidiano em ameaça. Tudo é estruturado para que o espectador compartilhe da sensação de isolamento. Observamos Julia perder gradualmente qualquer ponto de apoio enquanto marido, sogra e equipe médica reduzem suas inquietações a um diagnóstico conveniente de depressão pós-parto, a isolando cada vez mais no processo.
A frase da psiquiatra suíça Esther Fischer-Homberger ecoa como síntese do projeto: “Onde a histeria for diagnosticada, a misoginia está por perto.”
Julia torna-se, então, uma regente incapaz de reger a própria vida. Para quem observa de fora, seus comentários podem soar delirantes; para o espectador, que testemunha cada gesto suspeito e cada silêncio constrangedor, a angústia se amplia. Não porque haja dúvida sobre o que está acontecendo, isso o filme praticamente confirma, mas porque o mistério reside em como essa violência será sustentada.
É nesse ponto que Mother’s Baby se diferencia de produções recentes que abordam a maternidade por caminhos diversos. Não há o horror social brutal de A Garota da Agulha (2025, Magnus von Horn), nem a ironia desconfortável de Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria (2025, Mary Bronstein), tampouco o drama fantástico conciliador de Tully (2018, Jason Reitman). O filme de Moder é um thriller psicológico direto, quase clínico, sobre o apagamento do feminino em um momento que ele deveria ser cultivado e cuidado.

Hans Löw em cena de “Mother’s Baby”- Divulgação Festival do Rio
Ao optar pela confirmação em vez da ambiguidade, Johanna Moder limita o alcance dramático da obra. Se houvesse maior exploração da instabilidade psicológica de Julia, se a narrativa permitisse ao espectador hesitar, o impacto poderia ser mais perturbador. Polanski sustentava a paranoia até o último instante; Moder revela cedo demais.
Ainda assim, há potência nessa escolha. Ao retirar a dúvida, o filme desloca o foco da questão “ela está louca?” para “por que ninguém a escuta?”. A angústia deixa de ser sobrenatural e se torna estrutural. O horror não está em um complô invisível, mas na facilidade com que a experiência feminina pode ser desacreditada.
Mother’s Baby talvez não seja o retrato mais complexo da maternidade contemporânea, mas é um retrato cruelmente lúcido da misoginia institucionalizada. A ansiedade que ele constrói não depende de reviravoltas, depende do reconhecimento e da empatia. E esta dor permanece muito depois dos créditos.
Distribuído pela Autoral Filmes, Mother’s Baby estreia nos cinemas em 05 de março de 2026.
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