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Guillaume Marbeck, Zoey Deutch e Aubry Dullin em cena de Nouvelle Vague
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘Nouvelle Vague’ é carta de amor à cinefilia

Por
André Quental Sanchez
Última Atualização 11 de dezembro de 2025
6 Min Leitura
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Guillaume Marbeck, Zoey Deutch e Aubry Dullin em cena de Nouvelle Vague
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Dirigido por Richard Linklater, Nouvelle Vague é antes de tudo uma carta de amor ao cinema, e só depois uma narrativa, o que está longe de ser um defeito

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a Europa vivia em ruínas, marcada pela fome, pela miséria e por divisões sociais profundas, e dentro deste cenário catastrófico, o cinema se reinventou. Obras como Roma, Cidade Aberta (1945, Roberto Rossellini), e Acossado (1960, Jean-Luc Godard), abriram caminho para o nascimento de um novo olhar: o da Nouvelle Vague, movimento que redefiniu a linguagem cinematográfica e inspira até hoje gerações de cineastas.

Décadas depois, Linklater presta homenagem a esse espírito de reinvenção, afinal, o seu cinema sempre dialogou mais com o europeu do que com o norte-americano, assim, em seu primeiro filme falado em francês, o diretor vai além da narrativa tradicional para construir uma celebração da própria arte de filmar, utilizando o cinema da mesma forma que os cineastas do fim dos anos 1950 e início dos 1960: não apenas para contar histórias, mas como um gesto de amor e transgressão estética.

Guillaume Marbeck, Zoey Deutch e Aubry Dullin em cena de Nouvelle Vague

Guillaume Marbeck, Zoey Deutch e Aubry Dullin em cena de Nouvelle Vague

Como todo grande cineasta, Linklater chega aqui ao seu “filme-espelho”, aquele que reflete sua própria trajetória e ideias como cineasta. Assim como Hitchcock fez com Janela Indiscreta (1953), Scorsese com A Invenção de Hugo Cabret (2012) e Spielberg com Os Fabelmans (2022), o diretor agora se volta para dentro e transforma o ato de filmar não somente em seu tema principal, mas como um chamado às armas e inspiração sobre o que, em suas raízes, realmente significa fazer cinema.

A produção, intitulada carinhosamente Nouvelle Vague, revisita os bastidores das filmagens de Acossado, marco fundador do movimento. Mais do que reconstituir fatos, Linklater captura a atmosfera criativa daquele período e o nascimento de uma revolução. O filme funciona como um convite para que o espectador se torne uma “mosca na parede”, observando a história sendo feita, sentindo o fervor, o improviso, a coragem e as loucuras que transformaram a sétima arte.

O elenco, propositalmente iniciante, é liderado por Guillaume Marbeck como Jean-Luc Godard, acompanhado de Zoey Deutch, como Jean Seberg, Aubry Dullin, como Jean-Paul Belmondo, entre tantos outros que aparecem por breves aparições como Éric Rohmer, François Truffaut e Agnès Varda, figuras essenciais da Nouvelle Vague. Essas participações são tão curtas quanto as de um filme da Marvel, e igualmente gratuitas do ponto de vista narrativo, mas cumprem outro papel: o de simbolizar como esse movimento foi uma força coletiva, um gesto de muitos, não apenas de seus rostos mais famosos, algo enfatizado em um tocante letreiro final.

Zoey Deutch em cena de Nouvelle Vague

Zoey Deutch em cena de Nouvelle Vague

Filmado em película e no formato 4:3, Nouvelle Vague evoca a textura visual e o enquadramento característicos dos anos 1960. Linklater distancia-se de abordagens anteriores, como O Formidável (2017), de Michel Hazanavicius, que se utilizou de um pastiche para retrato Godard, não focando arco dramático, conflitos estruturais ou jornadas heroicas. O filme não busca construir um mito, mas sim transmitir a sensação do fazer o simples e o mundano, algo cinematográfico na medida que é filmado em sua forma mais bruta e livre.

Essa opção pode soar árida para o público acostumado a narrativas convencionais. O amor exagerado de Linklater pelo cinema se manifesta em citações, frases célebres, como o clássico de Godard, “Tudo o que você precisa para fazer um filme é uma mulher e uma arma”, e reflexões que encantam cinéfilos como os 5 filmes presentes em um, mas que podem afastar espectadores ocasionais, tornando Nouvelle Vague, assumidamente, um filme para quem ama o cinema moderno e o cinema como um todo, não para quem busca entretenimento fácil, afinal, apesar de seu nome, a produção de Linklater em nenhum momento pega na mão e explica o movimento em si, sendo entendido como conhecimento anterior do espectador.

Talvez Godard não apreciasse a maneira como é retratado, mas para o resto dos amantes do cinema, Nouvelle Vague é um presente. Um tributo sincero à liberdade criativa, à juventude eterna da arte e à magia irrepetível de ver a história do cinema, mais uma vez, nascer diante da câmera.

Com distribuição da Mares Filmes e da Alpha Filmes, Nouvelle Vague estreia nos cinemas no dia 18 de Dezembro.

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