Dirigido por Bill Condon, O Beijo da Mulher Aranha reconfigura a história política e de ditadura como uma homenagem aos grandes musicais da era de ouro de Hollywood
Para nós, brasileiros, encarar uma nova versão de O Beijo da Mulher Aranha já nos coloca em uma posição de dúvida e receio, afinal, a produção dirigida por Hector Babenco venceu o teste do tempo e até hoje é uma obra-prima independente do cinema internacional. Baseado no livro homônimo de Manuel Puig, Babenco construiu uma orquestra meticulosamente planejada como um cântico político, com atuações brilhantes de William Hurt e Raul Julia, se utilizando de um realismo fantástico para contar uma história de luta, perseverança e fraternidade em um mundo autoritário e ditatorial.
Lançado em 1985, na reta final da ditadura militar, a produção foi indicada a quatro Oscars, incluindo melhor filme e direção para Babenco, tendo ganho um pela atuação de Hurt. Assim. Por conta da força da produção, em 1993 foi produzido um musical off-Broadway que adaptava a mesma história, com Chita Rivera no papel que anteriormente era de Sônia Braga, e uma nova visão para esta história.

Jennifer Lopez em cena de “O Beijo da Mulher Aranha”- Divulgação Roadside Attractions
Existem algumas ligações entre o musical de O Beijo da Mulher Aranha e o musical Chicago. A primeira delas é seu letrista, Fred Ebb, que escreveu músicas para ambas as produções. A segunda é Bill Condon, responsável pelo roteiro da adaptação cinematográfica de Chicago (2002, Rob Marshall), e pela direção e roteiro do novo O Beijo da Mulher Aranha, desta vez com Jennifer Lopez no papel da grande musa das telas, e um formato bem mais lúdico, colorido e leve do que a versão que anteriormente tínhamos contato, não atuando como um remake da produção de Babenco, mas sim como um novo olhar para o material original.
A produção acompanha novamente a amizade de Valentin Aguirre, Diego Luna, e Luiz Molina, Tonatiuh, desde uma fria e monocromática prisão que não esconde a nítida inspiração no teatro, principalmente nos planos mais externos da prisão, até um mundo Technicolor que rega todo o filme contado por Molina, que sim, é brega, cafona e ridículo, exatamente da mesma forma que os musicais da Era de Ouro de Hollywood como Cantando na Chuva (1952, Gene Kelly, Stanley Donen) e Cinderela em Paris (1957, Stanley Donen), e é exatamente como um homem gay, apaixonado por produções do tipo, contaria esta história.
Enquanto Babenco colocava a fantasia em uma Alemanha Nazista que construía um paralelo direto com a situação de Valentin e Molina, Bill Condon estrutura o seu O Beijo da Mulher Aranha como um musical glorioso e que bebe do espetáculo: fotografia Technicolor com cores destacadas, figurinos luxuosos, e uma estética que remete diretamente à estes musicais de outrora, demonstrando a paixão de Molina, e inserindo ambos os personagens na história, ocasionando uma maior união entre os dois núcleos e suas reviravoltas, algo somente flertado na adaptação de 1985, e que apesar de ser hollywoodiano demais para uma história tão latina, ainda apresenta um charme.
O paralelo entre os dois núcleos é nítida, um frio e cinza, enquanto o outro cheio de luzes, cores, e magia, incluindo uma loira Jennifer Lopez que se destaca por meio de seus dourados cabelos, e enfatiza uma maior comparação com os cabelos negros como uma obsidiana da Mulher Aranha, também interpretada pela atriz, que atravessa a dimensão da história ficcional e interage com Molina.

Jennifer Lopez em cena de “O Beijo da Mulher Aranha”- Divulgação Roadside Attractions
Para aqueles que desvincularem do material anterior e encarar O Beijo da Mulher Aranha como uma versão “mais divertida”, leve, e menos política do que aquele que previamente tínhamos contato, sairá muito agraciado, desde que tenha um gosto prévio por musicais de todos os tipos, caso não, o filme não mudará o olhar perante filmes do gênero, algo discutido inclusive por meio de diálogos metalinguísticos entre Valentin e Molina, algo recorrente no produção que se auto referencia a todo momento.
A interação entre ambos os protagonistas é bem mais clara e fora da censura do que aquele realizado em 1985, assim, permitindo uma maior sensualidade e aproximação, da mesma forma que traz novos diálogos entre ambos, ampliando o fator de ser um novo olhar menos politico e mais fantástico de uma mesma história que ainda é necessária ser contada até os dias de hoje.
Distribuído pela Paris Filmes, O Beijo da Mulher Aranha estreia nos cinemas no dia 08 de Janeiro de 2026.
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