Dirigido por Diego Céspedes, O Olhar Misterioso do Flamingo é rico e honesto retrato sobre a AIDS, seus impactos e a resiliência e determinação da comunidade transsexual.
A comunidade LGBTQIA+ é retratada no cinema e na literatura há décadas, ora com personagens que caem no alívio cômico dentro de um retrato muitas vezes preconceituoso, ora de forma heróica e fabulosa, como em Priscilla, a Rainha do Deserto (1994, Stephan Elliott), ou de maneira trágica, como em O Olhar Misterioso do Flamingo.
A produção Chilena não teme em abordar um contexto pesado que abalou o mundo: o início da crise da AIDS, afinal, o filme se passa em 1982, época em que poucos compreendiam as causas de uma doença tão terrível, o que gerava paranoia, repulsa e, em muitos casos, violência movida pelo desespero.
O Olhar Misterioso do Flamingo conta a história de Lídia, uma menina de 11 anos que cresce na periferia de uma cidade mineira, junto de sua família queer, liderada por Boa, uma figura materna forte, e Flamingo, a mãe adotiva da garota, entre outras mulheres. Quando uma misteriosa doença se espalha, os homens locais acusam a família de transmiti-la apenas com o olhar, e optam por controlá-las, tentando impedi-las de “infectar” ainda mais pessoas.

Cena de “O Olhar Misterioso do Flamingo”- Divulgação TIFF
A narrativa absurda permite momentos cômicos entremeados de drama. Com personagens carismáticos como Estrela e a própria Flamingo, o filme se apropria de uma estética seca e desértica, auxiliado por uma fotografia dominada por tons pastéis e sombras duras, sob um sol que parece nunca se pôr, sempre a queimar e vigiar essas personagens enquanto ao longo do filme, se rendem a seus instintos mais primitivos, como Lídia, ou encontram o amor e o apoio que buscaram por toda a vida, como Boa.
Denso e simbólico, O Olhar Misterioso do Flamingo nunca menciona a AIDS explicitamente, mas o público capta a ironia dramática e entende o contexto melhor do que os próprios personagens que são permeados por um realismo fantástico que existe neste universo mágico criado por Diego Céspedes, assim, o espectador é conduzido por uma jornada que, embora pesada, se sustenta na química entre suas personagens e em momentos de alívio bem dosados.
O Olhar Misterioso do Flamingo talvez se estenda um pouco mais do que o necessário, mas nunca perde o rumo, não pretendendo narrar um capítulo histórico, e sim um conto de fadas nascido de uma pequena cidade, que poderia muito bem começar com: “Era uma vez uma menina chamada Lídia e sua mãe Flamingo.”

Cena de “O Olhar Misterioso do Flamingo”- Divulgação TIFF
Cenas como a dança entre Lídia e Flamingo, o casamento de Boa e até as primeiras interações com os ríspidos mineradores, que se rendem rapidamente aos encantos dessas mulheres de brilho natural, se destacam por um retrato delicado e autêntico. A produção evita estereótipos fáceis e pode ser enxergado como um “irmão de espírito mais sério” de Priscilla, a Rainha do Deserto: uma história que aborda temas pesados, mas que, pelo tom narrativo, equilibra dor, humor, fantasia e humanidade. Ao fim, compreendemos essas personagens não como tipos ou caricaturas, mas como seres profundamente humanos, que, não importa o quanto quebrem, sempre se levantam, se arrumam e voltam a brilhar.
Com distribuição da Imovision, O Olhar Misterioso do Flamingo foi o vencedor da mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes 2025 e exibido no 27º Festival do Rio.
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