Dirigido por Gabriela Amaral, ‘O Quarto do Pânico’ revisita o filme de Fincher e testa os limites entre adaptação e reinvenção
Ao se realizar uma releitura, é essencial compreender o que deve ser preservado e o que pode ser transformado no material original. É nesse equilíbrio que muitas produções encontram sucesso, independentemente do país ou do twist proposto, como ocorreu com Perfeitos Desconhecidos (2016, Paolo Genovese). Para discutir O Quarto do Pânico, portanto, é inevitável revisitar o filme que o inspirou.
Lançado em 2002, O Quarto do Pânico (David Fincher), aposta em uma direção mais contida, concentrada quase inteiramente no interior de uma mansão. O longa constrói um sofisticado jogo de xadrez sustentado por tensão constante, atuações potentes, com destaque para Jodie Foster e Forrest Whitaker, e uma cinematografia marcada por tons pastéis e um claro-escuro eficiente. O roteiro de David Koepp conduz subtextos e simbolismos de forma orgânica, equilibrando entrega e recompensa em uma narrativa dinâmica, íntima e humana.
Sete anos após seu último longa, Gabriela Amaral opta por realizar uma releitura direta do filme de Fincher. Segundo o discurso apresentado na coletiva realizada em 3 de fevereiro de 2025, a proposta seria oferecer um olhar feminino e brasileiro, com foco na luta de classes. No entanto, muitas dessas questões já estavam presentes no filme original de maneira mais fluida. O resultado transmite a sensação de uma tentativa de superação do original sem plena compreensão de como sua linguagem operava.

Isis Valverde e Marianna Santos em cena de “Quarto do Pânico”- Divulgação
Algumas mudanças são bem-vindas, como a atualização tecnológica do controle do quarto do pânico e o arco de Ísis Valverde ligado ao luto. Ainda assim, a fragilidade na construção dos personagens faz com que essas ideias existam apenas como potencial. A suposta brasilidade também soa superficial, resultando mais em uma reprodução enfraquecida do original do que em uma adaptação cultural consistente. Símbolos discutidos com clareza na coletiva, como a casa enquanto útero e os três homens como figuras de violência, aparecem de forma tímida, desperdiçando um conceito potente e extremamente nacional na medida que somos um dos países com maior índice de feminicídios do mundo.
Visualmente, a opção por uma estética limpa e artificial substitui a fotografia claustrofóbica e “suja” de Fincher. A casa clara, em tons de branco, dificulta composições de luz mais complexas, enquanto o uso de LEDs vermelhos e verdes não constrói o senso de perigo necessário. Ao replicar cenas quase idênticas ao original, como o incêndio no quarto e as cicatrizes do personagem agora vivido por Marco Pigossi, a comparação se torna inevitável e desfavorável.

André Ramiro, Marco Pigossi e Caco Ciocler em cena de “Quarto do Pânico”- Divulgação
Em vez de adaptar a obra para um contexto brasileiro mais consistente, acrescentando camadas e tensionando a realidade apresentada, o filme parece confiar que o público aceitará situações mal estruturadas e repletas de furos de roteiro. É uma pena, pois o elenco é talentoso e Gabriela Amaral demonstra criatividade em momentos pontuais de subversão visual. Ainda assim, o saldo final é de uma releitura inferior, estética, narrativa e dramaticamente, que fracassa ao tentar superar aquilo que não compreendeu por completo.
Exibido no Festival do Rio em 2025, O Quarto do Pânico estreia no streaming pelo Telecine no dia 13 de fevereiro e chega à TV pelo Telecine Premium em 14/02, com reapresentação no Telecine Pipoca no dia seguinte.
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