Dirigido por Jérémy Comte, Paraíso – Entre Duas Margens utiliza gatilho narrativo interessante para conectar países e realidades distintas.
Narrativas que se dividem entre histórias paralelas em diferentes partes do mundo não são novidade no cinema. Observar culturas distintas por meio de diferentes lentes, paletas de cores, idiomas e comportamentos costuma ser um dos grandes atrativos desse tipo de proposta. Nesse aspecto, Paraíso – Entre Duas Margens acerta ao contrastar Montreal e Gana com sensibilidade estética.
Em Montreal, acompanhamos Tony, um jovem que vive com a mãe, Chantal, em uma casa fria e não acolhedora. A fotografia em Québec aposta em tons frios e pastéis, refletindo o ambiente emocionalmente carregado pela ausência paterna. Após cair em um golpe online, Chantal entra em depressão enquanto Tony viaja até Gana em busca do responsável.
Já em Gana, a atmosfera se transforma completamente. A fotografia adota tons quentes e vibrantes, enquanto a narrativa se torna mais tensa e dinâmica. É nesse núcleo que o filme ganha maior densidade, ao acompanhar a trajetória de Kojo, um jovem idealista, introduzido de forma direta em uma sequência que faz referência a Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (2004, Michael Gondry). Seduzido pelo dinheiro fácil, Kojo mergulha no universo dos golpes virtuais, afastando-se gradualmente de seus princípios.

Cena de “Paraíso- Entre Duas Margens”- Divulgação Pandora Filmes
Quando Kojo desenvolve sentimentos por Chantal, o conflito ganha contornos mais complexos. No entanto, até atingir esse ponto, a narrativa se alonga além do necessário em situações já compreendidas pelo espectador. Um exemplo claro é a sequência em que Tony anda de skate enquanto foge da polícia: embora funcional para ilustrar sua delinquência e o vazio deixado pela figura paterna, a cena se estende demais para um desfecho pouco impactante.
Outro elemento recorrente é a fábula contada pelo pai de Kojo, apresentada como uma espécie de premonição. Apesar da beleza visual, especialmente na imagem de um homem em chamas caindo em águas escuras, o recurso acaba se tornando mais estético do que narrativo, e ao final, redundante. Nesse ponto, Paraíso – Entre Duas Margens hesita em definir seu verdadeiro eixo: trata-se de uma história de amor impossível? Um arco de redenção? Um estudo sobre a ausência paterna? Ao final, nenhuma dessas linhas se consolida plenamente.
O que poderia ser uma análise potente sobre identidade, ausência e reconexão acaba diluído em sequências que pouco contribuem para o desenvolvimento dramático. Um aprofundamento no relacionamento entre Kojo e Chantal, ou uma exploração mais consistente da jornada de Tony em Gana, justamente quando o filme ganha ritmo, teria enriquecido significativamente a experiência.

Cena de “Paraíso- Entre Duas Margens”- Divulgação Pandora Filmes
Tecnicamente, a obra é impecável, com destaque para a fotografia, que constrói contrastes visuais marcantes entre os dois mundos apresentados. Ainda assim, Paraíso – Entre Duas Margens peca ao não sustentar uma narrativa à altura de sua proposta estética. Há mais potencial do que realização: uma abundância de ideias que, mal exploradas, resultam em uma experiência morna e, por vezes, entediante, a ponto de o espectador imaginar caminhos mais interessantes do que aqueles oferecidos pelo próprio filme.
Distribuído pela Pandora Filmes, Paraíso – Entre Duas Margens integra a programação do 3º Festival Filmes Incríveis, realizado entre 30 de julho e 12 de agosto, no Cine Belas Artes, em São Paulo. A edição de 2026 reúne produções inéditas de diversos países, incluindo títulos aclamados em festivais como Cannes, Berlim e Roterdã.
A programação completa está disponível no site oficial do evento, com ingressos já à venda.
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