Dirigido por Gianni Di Gregorio, Querendo ou Não é o famoso filme-conforto bem feito: traz risadas genuínas e um arco simples em uma produção que, acima de tudo, faz você se sentir bem
Existem algumas produções, principalmente entre os filmes europeus independentes, cujo maior mérito não está necessariamente na narrativa, mas na maneira como fazem você se sentir antes, durante e depois da sessão. Se você assiste a uma cena fofa e, seis meses depois, ainda se lembra dela e recupera exatamente aquele sentimento, então o filme cumpriu sua função. Querendo ou Não é exatamente isso.
Acima de tudo, a história é básica e tradicional. O público já está familiarizado com filmes sobre velhinhos solitários, felizes dentro de uma solitude confortável, mas que encontram um novo caminho para a vida por meio do contato com uma família distante. Sob a direção, roteiro e atuação de Gianni Di Gregorio, acompanhamos um professor aposentado tão satisfeito com sua rotina milimetricamente orquestrada que não toma iniciativa sequer para sair com a mulher de quem gosta. Até que sua filha, Sofia, e os netos invadem sua casa e, querendo ou não, ele precisa se adaptar, e acima de tudo, evoluir.
Em paralelo ao caos que toma conta da casa do professor, acompanhamos a jornada de Helmut, ex-marido de Sofia. Arrependido de ter traído a mulher, ele inicia uma peregrinação de mais de mil quilômetros como forma de provar seu amor. É justamente nesse arco que surgem alguns dos melhores momentos da produção, principalmente pela atuação de Tom Wlaschiha, que acrescenta carinho e empatia a um personagem que muitas outras obras provavelmente tratariam como mera peça secundária.

Gianni Di Gregorio em cena de “Querendo ou Não”- Divulgação Imovision
Mas Di Gregorio se importa, e muito. Sequências de Helmut observando as montanhas nevadas, admirando os santos dentro de uma igreja ou simplesmente caminhando ao lado do lobo Stern, funcionam como um suspiro diante da verborragia do arco do professor com sua família. Essa jornada poderia, inclusive, sustentar um filme inteiro por si só. Porém, essa não parece ser a intenção de Di Gregorio. O cineasta está mais interessado em construir um filme-conforto sobre crescer, mesmo quando a vida já deveria estar chegando ao seu último capítulo.
Será que podemos considerar Querendo ou Não um coming of age tardio? Sim, acredito que sim. A evolução de um velho professor que finalmente se abre novamente para o mundo traz aquele inevitável aquecimento no coração. Ele não cozinhava para si mesmo, não limpava a casa e vivia imerso dentro do próprio universo. De repente, precisa aprender a fazer tudo isso. Seus amigos dizem que ele envelheceu dez anos, mas talvez tenha acontecido justamente o contrário: ele encontrou um propósito.
As tramas paralelas que se afastam de Helmut ou do professor, entretanto, dificilmente possuem o mesmo apelo. Os encontros frustrados de Sofia com homens do passado funcionam mais como episódios isolados e cômicos, enquanto o interesse de Olga pelo jovem da padaria entrega somente outro daqueles momentos de “olha, que fofo” nos quais o filme é especialista.

Tom Wlaschiha em cena de “Querendo ou Não”- Divulgação Imovision
Não é preciso muito para simpatizarmos com esses personagens. A trilha sonora marcante, que me remeteu à música de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2002, Jean-Pierre Jeunet), contribui bastante para isso, assim como uma fotografia baseada em um naturalismo quase contemplativo. Querendo ou Não tenta, a todo momento, nos fazer acreditar que acontecimentos aparentemente pequenos podem realmente acontecer e transformar a vida de alguém. E por que não poderiam?
Perto do final, justamente quando tudo deveria caminhar para uma grande conclusão, a produção não apresenta uma catarse enorme nem um arco de redenção particularmente grandioso. Tudo simplesmente se resolve. E talvez essa seja a questão que mais tenha ecoado em mim: tudo é morno demais. Mesmo nos momentos mais intensos, a sensação é de que os acontecimentos permanecem pequenos e não provocam, fora daquele núcleo familiar, o impacto que poderiam ter. O resultado é confortável e cômico em determinados momentos, mas não necessariamente memorável ou capaz de permanecer conosco por muito tempo.
Ainda assim, é sempre divertido assistir a um filme cujo principal objetivo é fazer você sentir e se identificar com seus personagens. Talvez você saia da sessão e ligue para o pai ou o avô que está distante e solitário. Talvez encontre a coragem necessária para mudar de vida. Ou talvez apenas ria, se divirta e vá embora um pouco mais leve. De qualquer forma, Querendo ou Não cumpriu sua função.
Distribuído pela Imovision, Querendo ou Não estreia exclusivamente no Reserva Cultural em 17 de setembro de 2026.
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