Dirigido por Malin Dahl, Que Você Viva é um lento e reflexivo filme de zumbi, que utiliza este mundo para retratar uma história de amor e humanidade
Se a tradição do sub-gênero de horror envolvendo zumbis, nasceu com White Zombie (1932, Victor Halperin), foi em A Noite dos Mortos-Vivos (1968, George A. Romero) que se consolidou a gramática que conhecemos hoje: hordas, carnificina, medo coletivo, e alegorias políticas. Desde então, as ramificações são muitas, indo da ação catártica de Extermínio (2003, Danny Boyle) à comédia de Todo Mundo Quase Morto (2004, Edgar Wright), até as intermináveis variações televisivas de The Walking Dead (2010, Robert Kirkman), ao mesmo tempo que existem algumas produções que optam pela lentidão e contemplação, como é o caso de Que Você Viva.
Malin Dahl se afasta dos estímulos constantes. Que Você Viva pede que desliguemos a expectativa de espetáculo para abraçar outra cadência, mais próxima de Jeanne Dielman (1975, Chantal Akerman) do que de qualquer apocalipse barulhento, assim, o que encontramos não é a sobrevivência contra os mortos, mas a persistência da memória, do afeto e do luto em um mundo que parece já não ter nada a oferecer.
Acompanhamos um homem idoso e solitário em sua rotina mínima: cortar lenha, alimentar um periquito, preparar a comida. A paleta em tons pastéis e cinzas constrói um ambiente opaco, quase desprovido de vida. O silêncio, paradoxalmente ensurdecedor, transforma cada pequeno ruído em evento, enquanto a presença de Clair de Lune (Claude Debussy, 1905) surge como fantasma de um tempo melhor, símbolo de uma vida que nunca mais retornará.

Cena de Que Você Viva- Divulgação CineFantasy
Que Você Viva revela tardiamente sua natureza de obra “zumbi”: apenas no momento em que o espectador já se habituou ao ritmo lento é que percebe o verdadeiro estado das coisas, sendo introduzido principalmente por um segundo arco narrativo, aonde conhecemos um jovem encarregado de queimar os corpos vazios e mortos. Há uma sugestão de vínculo entre os dois personagens, talvez uma relação parental, mas que nunca é explicitada. O que importa é o que ambos compartilham: a convivência com uma criatura encarcerada, mantida à margem do quadro, sempre mais presença e tom do que imagem, evocando dor, apego e muito amor.
Apesar de ser facilmente deduzido pela audiência, a confirmação que esta criatura é a esposa de seu protagonista, nos leva a um lugar emocional que é uma das maiores potências da produção. Sua figura, quase sempre oculta por sombras ou cabelos, só se deixa ver plenamente perto do desfecho. É a ela que a música de Debussy ainda traz um resto de humanidade, em um corpo que logo mais não restará nada. A partir daí, a narrativa se move para um território de despedida e aceitação, evocando o mesmo espírito intimista de Cargo (2017, Ben Howling e Yolanda Ramke), mas sem a urgência da ação: Dahl está mais interessado no peso da renúncia do que no risco da transformação.

Cena de Que Você Viva- Divulgação CineFantasy
Se há uma fragilidade, ela se encontra no último ato. O filme, que até então confiava na sutileza, acaba por explicar demais o que já estava dado. Depois de um falso final catártico, retorna mais de uma vez, alongando a despedida até o limite. O gesto é compreensível, o desejo de entregar poesia explícita ao espectador, mas diminui o impacto do que seria um final mais aberto e devastador, em pró de um que apesar de decente, não entrega tudo o que poderia.
Ainda assim, Que Você Viva é uma bela e sensível leitura do cinema de zumbis. Ao esvaziar o gênero de sua violência ruidosa, e dos estímulos constantes, Malin Dahl revela o que sempre esteve no coração dessas histórias: não o horror dos mortos que retornam, mas a dor de quem permanece vivo, amando e sobrevivendo em meio às ruínas do passado.
Que Você Viva foi assistido 16º festival CineFantasy, realizado de 02 a 14 de setembro no CCSP (Centro Cultural São Paulo), a programação completa pode ser consultada no site oficial.
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