Dirigido por Fernando Alonso e Nelson Botter Jr, e apesar de seu potencial, Apanhador de Almas entrega apenas um feitiço quebrado
Existem boas ideias de filmes que são executadas com maestria, e existem aquelas que, apesar de claras na mente dos criadores, não se traduzem em catarse ou importância quando passam para o roteiro e, posteriormente, para a produção audiovisual. Apanhador de Almas se enquadra nesse segundo caso: um projeto que tinha um nítido potencial, mas que se perde no tom, no ritmo e até no casting, resultando em mais uma obra de clichês acumulados, que falha em capturar a essência daquilo que fez o sub-gênero de terror de bruxaria, algo tão marcante para inicio de conversa.
A trama se inicia com um delírio de Mia, que apresenta as cinco protagonistas: Olivia, a influenciadora; Isabela, a advogada; Mia, “a bruxa”; Emília, a jovem mística; e Rea, a bruxa experiente. Apesar do roteiro insinuar camadas mais complexas para cada uma, como as visões de Mia, o passado de Isabela ou o trauma parental de Olivia, nada disso realmente contribui para a narrativa, com elas sendo delimitadas somente por estas personalidades uni dimensionais, em que dificilmente o público conseguirá criar empatia, assim, levando a um elenco de personagens que apenas tangencia a complexidade, sem nunca alcançá-la.
Apesar de Apanhador de Almas se iniciar com a visão de Mia, o pêndulo de protagonismo rapidamente muda para Klara Castanho, o maior nome do elenco, porém, a jornada de Emília nunca parece realmente começar. A personagem pouco evolui, e até uma declaração de amor forçada para um fantasma não convence.
Enquanto isso, Mia é também a primeira a morrer, coincidência ou não, a única personagem negra de toda a produção, repetindo um trope cansativo e problemático dentro do cinema de terror.

Cena de Apanhador de Almas-Divulgação Primeiro Plano
A estruturação dos personagens não é a única questão de Apanhador Almas, afinal, a produção funciona de acordo com a vontade dos roteiristas, ignorando as próprias regras do universo criado, assim, fazendo com que o filme perca a credibilidade. Exemplos não faltam: a troca repentina de atriz para Isabela, após a personagem entrar em contato com a névoa que permeia a casa toda, enquanto outras personagens passam pela mesma situação, e não sofrem a mesma consequência; livros abrindo sempre na página certa; uma ampulheta que só corre quando a câmera foca nela, entre outras soluções convenientes demais e que quebram qualquer imersão.
Apesar de tentar construir uma atmosfera de bruxaria, rituais e universos paralelos. O “Apanhador de Almas” em si, que dá o nome para a produção, aparece em apenas dois momentos e não se sustenta quando misturado a um conceito multiversal que o filme se utiliza no terceiro ato, porém, não traz satisfação catártica para ninguém, somente um final confuso que não agrega em nada à produção.
Tecnicamente, Apanhador de Almas é plástico e artificial, tanto na cinematografia, quanto na arte e na iluminação, não transmitindo a aura de terror em nenhum momento, muito menos para os seus personagens. Se os protagonistas não transmitem perigo, aqueles que vivenciam todos os acontecimentos bizarros como a névoa que cobre a casa, a ampulheta, ou o monstro que deseja a morte delas, por que o público sentiria medo?

Cena de Apanhador de Almas-Divulgação Primeiro Plano
Apesar de potencial para atrair a atenção de um público mais adolescente e fãs de produção como Agatha Desde Sempre (2024, Jac Schaeffer), Apanhador de Almas tenta soar grandioso demais para seu próprio bem, se perdendo em sua ambição, ao invés de assumir a própria simplicidade e brincar com esta estrutura. O resultado é um filme vazio, que não encontra o tom certo, desperdiçando boas ideias que poderiam ter se transformado em algo maior, e bem mais marcante.
Distribuído pela Retrato Filmes, Apanhador de Almas estreia nos cinemas no dia 18 de setembro.
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