Dirigido por Isabel Coixet, Três Vezes Adeus transforma o fim de um relacionamento em uma reflexão sobre como o amor permanece mesmo depois que acaba, mas se perde em uma poesia visual que coloca o cinema em segundo plano
Uma boa história de amor sempre encontra espaço no cinema. Quando, porém, uma produção decide partir do momento em que esse amor termina, o terreno se torna naturalmente mais interessante. Três Vezes Adeus não está particularmente interessado em descobrir se seus protagonistas vão terminar juntos, mas em compreender o que sobra quando duas pessoas que ainda se amam percebem que já não conseguem permanecer uma ao lado da outra.
É uma perspectiva mais madura do que a fórmula tradicional das comédias românticas, na qual felicidade e relacionamento quase sempre caminham na mesma direção. Aqui, eles podem não ficar juntos, e ainda assim encontrar alguma forma de felicidade.
Logo na primeira cena, Isabel Coixet estabelece o atrito entre Marta e Antonio. A partir daí, cada um segue sua própria jornada, encontrando diferentes pessoas e transformando esses encontros em pequenos espaços de confissão. As duplas se alternam como peças de um grande diagrama de Venn, até que os círculos de Marta e Antonio inevitavelmente voltam a se sobrepor. O problema é que, apesar de ainda existir amor entre eles, o filme fala tanto sobre esse sentimento que, em determinados momentos, parece não saber mais como dramatizá-lo.

Alba Rohrwacher em cena de “Três Vezes Adeus”- Divulgação Autoral Filmes
É justamente aí que Três Vezes Adeus começa a revelar suas limitações. Seu início apresenta uma linguagem visual bastante interessante, utilizando o desfoque do cenário para criar uma atmosfera quase onírica. A imagem parece traduzir a própria percepção dos personagens, como se o mundo ao redor perdesse definição enquanto eles tentam compreender o que estão vivendo. Porém, esse recurso vai desaparecendo conforme a narrativa avança. No lugar dele, Coixet aposta cada vez mais em planos meticulosamente compostos, acompanhando os atores ou permanecendo estáticos diante deles, aproximando a encenação de uma estrutura teatral.
Essa escolha não seria necessariamente um problema se os diálogos conseguissem sustentar todo esse peso. Entretanto, Três Vezes Adeus é extremamente verborrágico e passa boa parte de sua duração explicando sentimentos que poderiam ser transmitidos pela própria mise-en-scène. O resultado é uma obra delicada, doce e, em diversos momentos, genuinamente bonita, mas que frequentemente confunde profundidade com a necessidade de verbalizar cada reflexão.
O arco de Marta é onde Três Vezes Adeus encontra sua maior força. A descoberta de um câncer funciona menos como um elemento dramático tradicional e mais como um catalisador para que ela finalmente perceba que ainda existe uma vida para ser vivida. Aos poucos, ela passa a experimentar o mundo de maneira diferente, e até mesmo a paleta de cores ao seu redor parece acompanhar essa transformação. É uma mudança simples, mas eficiente: quanto mais Marta aceita aquilo que deseja para si, mais vivo parece o universo ao seu redor.

Alba Rohrwacher em cena de “Três Vezes Adeus”- Divulgação Autoral Filmes
A simbologia envolvendo seus encontros com Antonio também funciona especialmente bem. O primeiro acontece no meio da rua, com os dois atrasados e envolvidos por uma escuridão que parece engolir o ambiente. O último, por outro lado, acontece sob a luz do sol. Desta vez, eles realmente se enxergam e se escutam. É uma imagem bonita para representar o que o filme tenta dizer durante toda a sua duração: algumas relações não precisam sobreviver para que o amor vivido dentro delas tenha significado.
O problema é que Antonio não recebe o mesmo cuidado. Enquanto Marta ganha uma trajetória clara de redescoberta, Antonio permanece mais próximo de uma peça necessária para completar o arco dela do que de um personagem com a mesma complexidade. E isso se torna ainda mais evidente quando o filme apresenta figuras secundárias interessantes, como Elisa e as jovens da escola que se cortam, mas não encontra espaço suficiente para desenvolver nenhuma delas de maneira realmente significativa.
Assim, aquilo que poderia ser um mosaico de diferentes formas de lidar com o amor, a perda e a própria existência acaba concentrado quase exclusivamente em Marta. Três Vezes Adeus se transforma em uma sucessão de diálogos e reflexões de uma mulher apaixonada, fragilizada e tentando reorganizar a própria vida. Há sinceridade nisso, e momentos genuinamente interessantes, como a relação de Marta com um enorme cardboard, mas também uma sensação constante de familiaridade. A obra parece querer alcançar uma grande catarse, mas permanece quase sempre em um estado de contemplação.

Alba Rohrwacher e Elio Germano em cena de “Três Vezes Adeus”- Divulgação Autoral Filmes
Até mesmo as gravações amadoras em Super 8, utilizadas para representar os momentos felizes do casal, reforçam essa escolha. A textura da película, combinada a uma trilha sonora potente, cria uma memória afetiva bonita e coerente com o tom onírico proposto pela diretora. São sequências fofas, delicadas e visualmente agradáveis. O problema é que Três Vezes Adeus se acomoda demais nesse conforto.
Faltam altos e baixos. Faltam conflitos que realmente desestabilizem os personagens. Faltam momentos em que o filme deixe de apenas conversar sobre seus sentimentos e permita que eles entrem em choque. Tudo parece cuidadosamente organizado para preservar a doçura da experiência, e justamente por isso, poucas coisas realmente doem.
A questão do câncer poderia ter sido o elemento capaz de romper essa estabilidade, mas também não é exatamente esse o interesse de Coixet. O filme está muito mais preocupado com a ideia de aceitar aquilo que foi vivido e seguir adiante sem transformar o passado em ressentimento. É uma mensagem bonita, mas sua execução não alcança a força de obras como Um Caminho Para Dois (1967, Stanley Donen), que também utiliza o relacionamento amoroso como espaço para discutir desgaste, memória e as diferentes maneiras pelas quais duas pessoas podem se amar.
Ainda assim, existem momentos e algumas falas em Três Vezes Adeus que realmente encontram o espectador. Acompanhamos Marta redescobrir a própria vida, reaprender a amar e, principalmente, compreender que seguir em frente não significa apagar aquilo que veio antes. Talvez essa seja a ideia mais bonita do filme: não precisamos transformar um amor que acabou em algo ruim apenas porque ele chegou ao fim.
O problema é que uma boa ideia não é necessariamente suficiente para sustentar um longa-metragem. Três Vezes Adeus possui sensibilidade, imagens bonitas e uma protagonista cuja jornada consegue tocar em questões universais, mas sua falta de tensão, seu excesso de diálogos e a desigualdade entre os arcos dramáticos fazem com que a experiência permaneça quase sempre no mesmo tom. É um filme que sabe exatamente o que quer dizer, mas nem sempre encontra uma forma cinematográfica à altura do que pretende dizer.
Distribuído pela Autoral Filmes, Três Vezes Adeus está em cartaz nos cinemas.
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