Dirigido por Hong Sang-soo, What Does That Nature Say To You reafirma a maestria do diretor, revelando como relações humanas são ao mesmo tempo, simples e complexas.
Entre os diretores sul-coreanos, Hong Sang-Soo ocupa um lugar de destaque e afeto junto ao público, justamente por seu retrato humano e minimalismo estético: planos longos e cadenciados que conduzem o espectador numa jornada contemplativa, como voyeurs de uma narrativa que se afasta do cinema clássico e se aproxima de uma simulação da vida real. Em certos momentos, o diretor nos lembra discretamente que estamos diante de uma obra de ficção, seja por meio de um zoom inesperado ou de uma imagem com aparência amadora, recurso que em What Does That Nature Say To You se encaixa com perfeição.
Estreado internacionalmente na última edição da Berlinale, o filme acompanha o poeta Donghwa durante um fim de semana na casa dos pais de sua namorada de três anos. Entre refeições fartas, conversas, risos e muita bebida alcoólica, ele se apresenta à família e busca ser aceito naquele círculo íntimo. Mas o subtexto cuidadosamente tecido por Hong Sang-Soo transforma a aparente leveza em uma investigação mais profunda sobre relações, expectativas e pertença.

Cena de What Does That Nature say to you- Divulgação BERLINALE/JEONWANSA FILM CO
A premissa de um jovem convidado a conhecer a família da namorada, já foi explorada em gêneros distintos: o terror de Corra (2017, Jordan Peele), o thriller BuzzHeart (2025, Dennis Iliadis) e, agora, este drama naturalista com toques sutis de comédia. Sendo este último caso, uma narrativa que abraça não somente uma estética típica do cinema sul-coreano contemporâneo, mas também a essência da própria filmografia de Hong Sang-Soo.
O diretor mantém seu foco no artista incompreendido, figura recorrente em sua obra. Dividido em capítulos, o filme aborda temas como diferença de classe, persistência criativa e a força do trabalho artístico, sempre em um ritmo deliberadamente lento, quase estático, que reflete o movimento cinematográfico naturalista ao qual Hong se alinha. Pequenas repetições, ironias discretas e eventos quase imperceptíveis compõem um simulacro da vida, que só é rompido por gestos conscientes de distanciamento, lembrando-nos de que estamos diante de uma construção cinematográfica, meticulosamente planejada e orquestrada, seja em suas atuações, seja em sua escolha técnica ousada, ou seja nos planos longos que podem ou cansar, ou entreter a audiência.

Kang Soyi, Ha Seongguk, Cho Yunhee, Park Miso, Kwon Haehyo in ‘What Does that Nature Say to You’- Divulgação Jeonwonsa Film Co.
Para o público já familiarizado com o estilo do diretor sul-coreano, What Does That Nature Say To You oferece mais um mergulho em um universo de situações reconhecíveis: o desconforto ao conhecer a família da pessoa amada, o medo de não ser suficiente, a tentativa de impressionar sem perder autenticidade. Ao final, uma rara explosão dramática, trazendo uma merecida catarse para a produção, encerra a história com um sabor agridoce, ecoando a forma como encaramos a própria vida, uma mistura de humor, constrangimento e melancolia, filtrada pela sensibilidade única de Hong Sang-soo.
What Does That Nature Say To You foi o filme surpresa da 2º edição do Festival Filmes Incríveis que será realizado no Reag Belas Artes, em SP. Entre os dias 31 de Julho e 14 de Agosto, o festival passou 15 filmes de diferentes países como França, Geórgia, Turquia, Vietnã, entre outros.
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