Dirigido por Mariana Rondón, Zafari estrutura uma densa alegoria sobre a América Latina contemporânea, evitando subtextos e, ainda assim, passando despercebido por parte do público.
Quando se constrói uma narrativa audiovisual majoritariamente apoiada em uma alegoria que representa uma região de extensão territorial quase duas vezes maior que a Europa, mas que não recebe nem um décimo do glamour, do cuidado ou do respeito que deveria merecer, torna-se essencial uma leitura atenta de seus simbolismos. Ainda assim, mesmo com tudo escancarado, a audiência nem sempre consegue se reconhecer nesse retrato de solidão e desespero, como acontece com o público de Zafari.
A produção de Mariana Rondón se estabelece por meio de espelhamentos dentro de uma sociedade distópica, na qual seus moradores se isolam em prédios praticamente abandonados e convivem com a fome, enquanto um gigantesco hipopótamo recebe tudo do bom e do melhor. Essa inversão grotesca reorganiza a estrutura de classes à medida que o filme expõe as farpas sociais e o desespero que toma conta desses corpos magros e frágeis.

Daniela Ramirez em cena de “Zafari”- Divulgação Vitrine Filmes
Como retrato da América Latina, Zafari é mais direta do que Macondo, que se constrói com maior êxito por meio da poesia e de simbolismos transcendentais. Rondón, por outro lado, opta por um olhar frontal, sem intermediários, expondo a sujeira, o desespero, a visceralidade e o abismo social que marca países constantemente atravessados por crises políticas e econômicas, como Venezuela e Argentina. Esse retrato se aprofunda ao reunir atores peruanos, argentinos, venezuelanos, mexicanos, entre outros, todos inseridos em um mesmo limbo fictício que, ao mesmo tempo que representa todos esses países, e nenhum deles.
Zafari, o hipopótamo do zoológico e ponto de partida narrativo para o caos que se desenrola, é anunciado como símbolo de renovação e progresso, uma promessa de reposicionamento do país diante das grandes potências. No entanto, a alegoria que o cerca é tão direta quanto incômoda: um animal selvagem recebe luxo absoluto enquanto os moradores ao redor lutam diariamente contra a fome e o abandono de um governo ausente.
É possível relacionar Zafari a figuras como Nicolás Maduro, um poder que se alimenta da própria população e “engorda” à custa da miséria coletiva. Ainda assim, a leitura vai além da personificação política. Ao não delimitar um espaço geográfico específico e ancorar seus conflitos em questões mundanas, xenofobia, fome, medo e desespero, o filme amplia seu alcance. Essas sensações são reforçadas por detalhes como a constante falta de luz, o calor opressor, a fotografia claustrofóbica e um design de arte assumidamente sujo, que se mostra ideal para a proposta.

Samantha Castillo em cena de “Zafari”- Divulgação Vitrine Filmes
Apesar da clareza de sua alegoria, que deixa pouco espaço para interpretações além de uma reflexão quase obrigatória sobre o papel do espectador enquanto latino-americano, parte do público reage com irritação. Essa recepção se dá justamente pelo caráter hermético que o filme assume, já que, muitas vezes, é mais confortável deixar certas discussões no subtexto do que escancarar na forma de um verdadeiro grito de socorro contra sistemas governamentais e econômicos que exigem mudanças urgentes, e o povo que deve exigi-las.
A piscina não é apenas uma piscina; os motoqueiros que rondam a cidade com o apoio do governo não são apenas motoqueiros; Bruno não falar nada ao longo do filme todo apresenta uma análise bem mais profunda do que aparece; o hipopótamo está longe de ser apenas um hipopótamo. É nesse terreno imagético que Zafari se fortalece, ao insistir, ao longo de seus 90 minutos, que nada é exatamente o que parece. Cabe à audiência decifrar esses signos dentro de um cinema contemporâneo que não entrega respostas, mas provoca constatações.
Não é uma experiência fácil. O filme deixa um nó no estômago e, em determinados momentos, especialmente em seu segundo ato, provoca até uma sensação de incompreensão e cansaço, à medida que intensifica o retrato da pobreza, da fragilidade e da loucura desses moradores. Ainda assim, trata-se de um desconforto necessário: Zafari não funciona como um despertar social, mas talvez como um pequeno cutucão direcionado àqueles que seguem inertes diante de forças que, dia após dia, os destroem.
Distribuído pela Vitrine Filmes, Zafari estreia nos cinemas no dia 05 de fevereiro.
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