A América Latina entra em 2026 com um tema comum: mais passageiros, mais pressão sobre infraestrutura e uma corrida por eficiência. O Peru decidiu acelerar. No novo terminal do Aeroporto Internacional Jorge Chávez, em Lima, o país lançou um sistema de imigração totalmente automatizado, implementado pela Superintendência Nacional de Migrações (Migraciones) em parceria com a SITA, após licitação internacional conduzida pela ICAO.
O pacote tecnológico inclui 19 portões eletrônicos (ABC Gates), 21 quiosques de autoatendimento, consoles de gestão, supervisão e monitoramento, além de um aplicativo para declarações pré-viagem. A proposta mira um ganho direto para o passageiro: o preenchimento antecipado de informações deve reduzir o tempo de espera em até 50% no aeroporto. O governo peruano também aposta em um efeito operacional: ao automatizar tarefas rotineiras, o sistema libera agentes para casos mais complexos, melhora a aplicação consistente das políticas migratórias e amplia a detecção de riscos.
Para Armando Benjamín García Chunga, superintendente nacional de Migrações do Peru, a mudança marca “um marco na transformação digital do Estado peruano” e permite uma experiência “mais ágil, segura e eficiente”, com foco no cidadão e alinhamento aos padrões internacionais. Do lado da SITA, Pedro Alves, vice-presidente sênior de Fronteiras, define o movimento como uma “reformulação completa” do controle fronteiriço, não apenas uma atualização tecnológica, com impacto direto em segurança e fluidez.

O projeto começou a ser desenhado a partir do contrato assinado em agosto de 2024, com integração envolvendo Migraciones, SITA, Lima Airport Partners (LAP), ICAO e outras partes. A estratégia já nasce com visão de futuro: o sistema foi pensado como base para inovações como Credenciais Digitais de Viagem (DTCs). A implementação começou para passageiros peruanos e deve se expandir para todos os usuários do aeroporto.
Mais voos, mais oferta, mais debate sobre custo e acesso
Enquanto o Peru investe em fronteiras digitais, o Brasil fecha 2025 com crescimento de oferta e discussão sobre como manter o avanço “para todos”. A LATAM destaca 2025 como um dos anos mais relevantes para a expansão e consolidação da malha doméstica, com foco em quatro aeroportos: Brasília (BSB) e Guarulhos (GRU), como hubs centrais, além de Curitiba (CWB) e a retomada de Porto Alegre (POA) após o impacto das enchentes de 2024.
Em Brasília, a companhia registra 56,6 mil voos e 10,1 milhões de assentos em 36 rotas domésticas em 2025. No comparativo com 2024, isso representa quase 6 mil voos a mais e cerca de 1 milhão de assentos adicionais. Entre as novas rotas, a LATAM cita Brasília–Foz do Iguaçu, lançada em outubro, e Brasília–Campinas/Viracopos, inaugurada em agosto. Brasília também sustentou operação internacional com mais de 1.120 voos e 201 mil assentos para Lima e Santiago, reforçando conexões sul-americanas.
Em Guarulhos, principal hub da empresa, a LATAM aponta 116,5 mil voos domésticos e 22,4 milhões de assentos em 53 rotas em 2025 (acima de 2024, quando foram 49 rotas). A lista de reforços inclui novas ligações domésticas como Rio Branco–Guarulhos, Boa Vista–Guarulhos, Bonito–Guarulhos, Dourados–Guarulhos e Fernando de Noronha–Guarulhos. No internacional, a companhia destaca rotas como Bariloche–Guarulhos (sazonal), Córdoba–Guarulhos e a estreia de Guarulhos–Rosário na virada do ano.

A retomada de Porto Alegre aparece como um dos símbolos de 2025. Em toda a operação doméstica envolvendo o aeroporto, a LATAM contabiliza 17,7 mil voos e 3,27 milhões de assentos em 7 rotas, mais que dobrando os números de 2024. No internacional, POA acumulou 909 voos e 164,7 mil assentos para Lima, Santiago e Buenos Aires/Aeroparque, com destaque para o novo destino inaugurado em setembro.
Já Curitiba fechou 2025 com 14,3 mil voos e 2,64 milhões de assentos em 6 rotas domésticas, crescendo 12% em voos e 14% em assentos frente a 2024. A capital paranaense também ganhou rota Curitiba–Galeão em outubro e manteve presença internacional com ligações para Lima e Santiago, tratadas como portas de conexão para as Américas via hubs da LATAM no Peru e no Chile.
O crescimento, porém, traz um debate central: custo e inclusão. Em Brasília, o presidente da Abear, Juliano Noman, afirmou que a aviação comercial deve bater recorde de passageiros transportados em 2025.
Até outubro, 106,8 milhões de passageiros embarcaram em voos domésticos e internacionais, alta de 9,5% sobre 2024 e de 9% sobre 2019. A estimativa aponta o país próximo de 130 milhões de passageiros no ano. Para Noman, o desafio agora vira “crescimento inclusivo”.
Ele associa a democratização do transporte aéreo à redução de custos e cita pontos de pressão: efeitos da reforma tributária sobre o setor, aumento do IOF para remessas ao exterior de 0,38% para 3,5%, e o escalonamento do IRPF no leasing de aeronaves, que pode chegar a 15% em 2027. Noman também reforça que a aviação opera com 60% dos custos atrelados ao dólar e defende instrumentos para reduzir a exposição cambial. A frase que resume a tese veio direta: “precisamos colocar a classe C para voar.”
No mesmo diagnóstico, ele critica o nível de judicialização. Segundo a Abear, o Brasil concentra 95% das ações judiciais contra companhias aéreas no mundo e registra taxa de litigância 20 vezes maior entre passageiros brasileiros do que estrangeiros, com custo anual de R$ 1,4 bilhão. A entidade aposta que a decisão do ministro Dias Toffoli, do STF, ao suspender processos por atrasos e cancelamentos motivados por eventos meteorológicos, pode ajudar a conter a litigância predatória, com um argumento operacional: o cancelamento busca preservar vidas.

Fora do eixo Brasil–Peru, a lógica da conectividade como política pública também aparece com força em Angola. A TAAG Linhas Aéreas de Angola aponta Cabinda como o destino doméstico com mais frequências em 2025: média de quatro voos diários (28 frequências semanais). Entre janeiro e novembro, a companhia transportou 227.857 passageiros na rota, com taxa de realização de voos próxima de 98% e cancelamentos na ordem de 2%.
A TAAG atribui atrasos e cancelamentos a fatores técnicos, operacionais, meteorológicos e ao nível de operacionalidade do aeroporto de destino, além de impactos externos como rupturas globais na cadeia de fornecimento. No planejamento, a empresa opera majoritariamente com Boeing 737 (120 lugares) e complementa com Dash-8 Q400 (74 lugares), buscando flexibilidade e eficiência.
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No pano de fundo, os quatro recortes contam uma história única: a região quer crescer, mas precisa fazer isso com processos mais inteligentes, custos mais equilibrados e infraestrutura compatível. Do e-gate em Lima ao debate sobre impostos e judicialização no Brasil, passando pela retomada de Porto Alegre e a rota estratégica de Cabinda, a aviação latino-americana entra em 2026 pressionada por números — e empurrada por inovação.



