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O que é lusofonia? Estudo inédito mostra Brasil isolado; Cabo Verde, Moçambique e Timor lideram interesse

Por
Alvaro Tallarico
Última Atualização 29 de janeiro de 2026
7 Min Leitura
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Placido Vaz faz show em São Pedro da Cova (foto: Alvaro Tallarico)
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Um amplo mapeamento inédito revelado em janeiro de 2026 lança luz sobre como os cidadãos dos países de língua portuguesa percebem valores culturais, sociais e institucionais que os conectam — e, em muitos casos, os distanciam. O Barómetro da Lusofonia 2026, estudo bienal liderado pelo Ipespe (Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas), mostra que 85% da população destes países declara ter “muito” ou “algum interesse” em conhecer manifestações e produtos culturais de outras nações lusófonas.

O resultado, divulgado em 28 de janeiro, traduz um desejo de aproximação cultural que atravessa continentes — da África ao Brasil, passando pela Europa e Ásia —, mas também evidencia assimetrias importantes, especialmente no consumo de conteúdo cultural entre os países analisados.

Na média do conjunto dos países de língua portuguesa, 85% das pessoas dizem querer conhecer expressões culturais de outras nações lusófonas. Entre os países com maior interesse declarado estão:

  • Cabo Verde – 96%
  • Moçambique – 93%
  • Timor-Leste – 93%
  • Angola – 88%
  • Guiné-Bissau – 86%
  • São Tomé e Príncipe – 85%
  • Portugal – 83%

No Brasil, embora o interesse seja expressivo, ele é comparativamente menor: 60% dos entrevistados se dizem interessados em conhecer culturas lusófonas além da própria.

Consumo cultural na lusofonia: Brasil aparece isolado

Quando o foco é o consumo efetivo de produtos culturais — como filmes, séries, livros e músicas — produzidos em outros países lusófonos, a média geral fica em 78%. Mas os números brasileiros se destacam por estarem muito abaixo dessa média: apenas 34% dos brasileiros disseram consumir esse tipo de conteúdo, enquanto 66% afirmaram não ter esse hábito.

O estudo aponta que isso reflete uma participação assimétrica do Brasil no circuito cultural lusófono, atuando mais como emissor do que como receptor de produtos culturais.

Sobre as origens dos conteúdos culturais consumidos pelos participantes, os principais países citados foram:

  • Brasil – 68%
  • Portugal – 56%
  • Angola – 39%

Angola aparece como terceiro país mais citado, sobretudo em nações africanas de língua portuguesa: Guiné-Bissau (86%), Moçambique (67%) e São Tomé e Príncipe (55%).

No quesito programas de televisão internacional, os brasileiros seguem como os mais assistidos:

  • Programas brasileiros – 58%
  • Produção portuguesa – 56%
  • Programação angolana – 24%
  • 22% dos entrevistados afirmaram não assistir a programas de outros países lusófonos.

O Barómetro da Lusofonia identifica um interesse cultural recíproco entre os países lusófonos, mas ressalta que a visibilidade e o contato ainda são desiguais entre as nações, especialmente no caso brasileiro — onde o consumo de cultura lusófona externa está bem abaixo da média geral.

Os dados sugerem a necessidade de estratégias mais abrangentes de intercâmbio cultural, capazes de fortalecer as conexões não só entre centros culturais tradicionais, como Portugal e Brasil, mas também entre países que hoje têm menos visibilidade no panorama global.

Amostragem e metodologia

A pesquisa incluiu 5.688 entrevistas simultâneas em oito países distribuídos por quatro continentes:

  • África: Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe
  • América do Sul: Brasil
  • Ásia: Timor-Leste
  • Europa: Portugal

O levantamento oferece um panorama abrangente do universo lusófono, representando percepções sobre cultura, sociedade e instituições.

O Barómetro também aborda outras áreas relevantes para a compreensão das sociedades lusófonas. Entre as preocupações mais citadas pelos entrevistados estão:

  • Qualidade dos serviços públicos
  • Inserção econômica e condições de trabalho
  • Violência e segurança
  • Inflação
  • Acesso a água, energia e saneamento básico
barometro da lusofonia o que é

Segundo António Lavareda, diretor geral do Barómetro e presidente do Conselho Científico do Ipespe, o estudo evidencia que, apesar de desafios locais e regionais, há valores e expectativas que ligam as populações lusófonas de forma mais profunda do que se imaginava.

Os resultados do Barómetro deram origem a um livro disponível em versões física e digital, além de um ciclo de seminários que será realizado no Brasil e em outros países participantes. A base de dados completa foi disponibilizada a instituições acadêmicas por meio da Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP), permitindo que pesquisadores e estudantes construam dissertações, artigos e projetos a partir dos dados.

O projeto conta com apoio de diversas instituições, como a CPLP, PNUD, Ministério da Cultura do Brasil, universidades brasileiras e internacionais, além de fundações como a Fundação Itaú.

O estudo também destaca projeções que indicam que o português pode ultrapassar 500 milhões de falantes até 2100, consolidando-se como uma das línguas mais importantes do mundo. A pesquisa reforça que a lusofonia é um ativo estratégico não apenas cultural, mas também econômico, diplomático e social, com crescente relevância em temas como meio ambiente, diversidade cultural e inovação.

Serviço – Barómetro da Lusofonia 2026

O que é: Estudo bienal sobre cultura, sociedade e instituições dos países de língua portuguesa
Quando: Resultados divulgados em 28 de janeiro de 2026
Onde: Disponível em versões física e digital, com base de dados acessível pelo site barometrodalusofonia.com
Abrange: Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Brasil, Timor-Leste e Portugal

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Jornalista especializado em Jornalismo Cultural pela UERJ.
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