As histórias de quem chega, parte, permanece e precisa reconstruir a própria vida ganham o palco em Querer ficar, mas ter que partir. O espetáculo estreia em 17 de setembro, no Sesc Tijuca, e parte da memória do Jacarezinho para discutir migração, trabalho, pertencimento e resistência.
Idealizada por Natália Brambila, a montagem investiga as transformações sociais e urbanas da favela da Zona Norte do Rio. A dramaturgia também recupera a importância do antigo Complexo Industrial do Jacaré na formação do território.
A partir da década de 1960, fábricas de diferentes segmentos atraíram trabalhadores de várias regiões do país. Ao redor das indústrias, cresceram moradias, relações comunitárias e uma rede de comércio ligada à economia local.
A industrialização, portanto, ajudou a formar uma comunidade marcada por diferentes origens, experiências e manifestações culturais. O espetáculo parte dessas histórias para refletir sobre como a migração também participa da construção de um território.
A trajetória da própria família de Natália Brambila está no centro da criação. Sua mãe, Elida, deixou Minas Gerais aos 14 anos e veio para o Rio em busca de trabalho.
Foi no Jacarezinho que ela conseguiu seu primeiro emprego, em uma das fábricas do Complexo Industrial do Jacaré. A experiência também criou vínculos que ultrapassaram o ambiente profissional.
A partir dessa memória familiar, Natália passou a investigar outras trajetórias de pessoas que migraram para o território em diferentes momentos. O objetivo foi compreender como essas histórias contribuíram para a identidade construída no Jacarezinho.
A pesquisa também acompanha as mudanças provocadas pelo enfraquecimento da atividade industrial.
O fechamento de fábricas, as crises econômicas e o desemprego modificaram profundamente a dinâmica do território. O espetáculo reconhece as marcas deixadas por esse processo, mas desloca o olhar para as formas encontradas pelos moradores para reconstruir a vida.
A cultura aparece, nesse contexto, como ferramenta de criação, resistência e afirmação comunitária.
A Unidos do Jacarezinho, fundada em 1966 por Dona Andressa Moreira da Silva, é uma das referências presentes na montagem.
O espetáculo também recupera trajetórias de artistas ligados ao território, como Lacraia, MC Serginho e MC Nem do Jacarezinho. A presença dessas figuras ajuda a mostrar como a produção cultural do Jacarezinho ultrapassou as fronteiras da comunidade.
Para o diretor Reinaldo Junior, a montagem pretende evitar uma representação do território limitada à ideia de carência.
“A favela não aparece apenas como cenário ou lugar de carência, mas como cosmos: um território vivo, complexo, criador de mundos, relações, tecnologias de sobrevivência e modos próprios de existir”, afirma.
A encenação também utiliza a imagem da água para pensar deslocamento e transformação. O rio aparece como fronteira, caminho, passagem e memória, estabelecendo uma relação com as trajetórias das pessoas que migram e reconstruem seus territórios.
“Querer Ficar, Mas Ter Que Partir é, portanto, uma peça sobre uma família, mas também sobre muitas famílias”, resume Reinaldo.
Realizado pela Cia Cria do Beco, o espetáculo reúne jovens artistas negros, universitários e moradores de diferentes favelas do Rio de Janeiro.
Muitos integrantes da equipe também possuem histórias familiares relacionadas à migração. Essa experiência atravessa o processo de criação e aproxima memória pessoal e pesquisa sobre o território.
No palco, Jeff Melo, Natália Brambila, Anderson Oli e Taty Aleixo formam o elenco. MC Serginho participa como convidado especial.
A direção é de Rei Black, enquanto Pedro Emanuel assina a dramaturgia. Gabriela Luiz participa da assistência de direção e também responde pela direção de movimento.
A trilha sonora e a direção musical ficam a cargo de Beà Ayòóla. A cenografia é de Cachalote Mattos, com figurino de Tiago Ribeiro e iluminação de João Gioia.
Depois da temporada no Sesc Tijuca, o espetáculo terá ainda quatro apresentações em novembro nas comunidades de Manguinhos e Jacarezinho.
A circulação reforça uma característica importante do projeto: a memória retratada no palco também retorna ao território que inspirou a criação.
Serviço
Espetáculo: Querer ficar, mas ter que partir
Local: Teatro II – Sesc Tijuca
Estreia: 17 de setembro de 2026
Temporada: até 11 de outubro
Sessões: quinta a sábado, às 19h; domingos, às 18h
Duração: 80 minutos
Classificação: 12 anos
Ingressos:
PCG: grátis
Habilitado Sesc: R$ 21
Meia-entrada: R$ 15
Conveniado: R$ 27
Inteira: R$ 30
Endereço: Rua Barão de Mesquita, 539, Tijuca, Rio de Janeiro – RJ
Vendas: Ingresso.com
Apresentações em novembro: quatro sessões nas comunidades de Manguinhos e Jacarezinho.
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