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Cena de "Papaya"- Divulgação Cajuína Audiovisual
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘Papaya’ transforma jornada infantil em fábula sobre a natureza

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 12 de setembro de 2026
8 Min Leitura
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Cena de "Papaya"- Divulgação Cajuína Audiovisual
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Dirigido por Priscilla Kellen, Papaya é animação visualmente encantadora e potente em sua mensagem, mas encontra dificuldade para transformar sua delicadeza em ritmo cinematográfico

Era uma vez uma pequena semente de papaya que queria voar. Em sua jornada pela floresta, ela chega à cidade e descobre, da maneira mais dolorosa possível, como o ser humano se relaciona com a natureza. Na tentativa de retornar para casa, a jovem semente atravessa diferentes paisagens, perigos e encontros até finalmente se aproximar da realização de seu sonho.

Como um livro infantil, Papaya dificilmente poderia ser mais eficiente. Há uma protagonista fofa e carismática, etapas de evolução bastante demarcadas, cenários belíssimos e desenhos 2D coloridos que transformam a natureza em um espaço de descoberta. Mais importante, existe uma mensagem ambiental compreensível tanto para crianças quanto para adultos. O problema é que, quando essa história deixa as páginas imaginárias de um livro e passa a ocupar a duração de um longa-metragem, algumas de suas escolhas começam a revelar suas limitações.

Desde o primeiro plano, Priscilla Kellen demonstra compreender a força que a natureza pode exercer sobre uma narrativa. Na floresta, Papaya encontra um encanto quase mágico na simplicidade: árvores, pássaros, folhas e uma pequena semente que só deseja alcançar o céu. Existe conforto nesses momentos, uma sensação de pertencimento que não precisa ser verbalizada. Quando a protagonista chega à cidade, entretanto, essa percepção se transforma. As cores perdem parte de sua luminosidade, os espaços se tornam mais agressivos e a sensação de descoberta dá lugar à agonia.

Cena de "Papaya"- Divulgação Cajuína Audiovisual

Cena de “Papaya”- Divulgação Cajuína Audiovisual

É uma oposição visual bastante eficiente porque não precisa explicar demais o que o filme quer dizer. A natureza é acolhimento; a cidade é ameaça. O contraste funciona justamente porque Kellen confia na imagem para transmitir aquilo que a narrativa poderia transformar em discurso.

E talvez seja justamente aí que esteja a melhor qualidade de Papaya: quando o filme simplesmente observa.

O problema surge quando essa observação precisa sustentar uma sequência mais longa. Algumas passagens começam a se estender além do necessário, criando situações que são interessantes enquanto imagens isoladas, mas que pouco acrescentam ao desenvolvimento da narrativa. A aventura da pequena semente passa, então, a depender de uma sucessão de encontros e acontecimentos que parecem existir mais pela força visual do que pela necessidade dramática.

É uma diferença pequena no papel, mas enorme na experiência de assistir ao filme. Papaya frequentemente constrói momentos que são bonitos de contemplar, mas nem sempre são igualmente interessantes de acompanhar.

Isso se torna ainda mais curioso quando observamos a trajetória de Priscilla Kellen. A cineasta foi Coordenadora Artística e Assistente de Direção de O Menino e o Mundo (2013, Alê Abreu), e também dirigiu a série Vivi Viravento, da Discovery Kids. São trabalhos que ajudam a compreender algumas das escolhas presentes aqui. O longa de Abreu utiliza uma estética extremamente lúdica para tratar de questões sociais, políticas e econômicas bastante densas, enquanto Vivi Viravento abraça as cores, a descoberta e uma sensação de universalidade ao levar sua personagem por diferentes lugares do mundo.

Cena de "Papaya"- Divulgação Cajuína Audiovisual

Cena de “Papaya”- Divulgação Cajuína Audiovisual

Papaya parece ocupar justamente a intersecção dessas duas experiências. Há o lúdico de Vivi Viravento e a preocupação em utilizar a linguagem infantil para abordar um assunto maior, como em O Menino e o Mundo. A diferença é que, desta vez, a mensagem é mais direta: estamos diante de uma história sobre preservação ambiental, exploração dos recursos naturais e as consequências da maneira como o ser humano ocupa o mundo.

Essa franqueza é uma qualidade. Mas também cria uma questão importante: como transformar uma mensagem simples em uma experiência cinematográfica que consiga sustentá-la durante um longa-metragem?

Existe um ludismo muito particular nesse tropicalismo pós-apocalíptico que Kellen utiliza para construir seu universo. A natureza destruída e a cidade hostil parecem pertencer a uma espécie de conto de fadas depois do fim do mundo, em que a fantasia infantil convive com uma preocupação bastante adulta. A ideia é visualmente interessante e, em determinados momentos, até surpreendente.

Mas algumas dessas sequências fantásticas parecem não encontrar um rumo narrativo para chamar de seu. São grandes momentos visuais que poderiam funcionar perfeitamente em um livro ilustrado, onde o leitor pode permanecer alguns segundos diante de uma imagem antes de virar a página. No cinema, entretanto, a duração muda tudo.

E essa talvez seja uma das maiores contradições de Papaya: o filme pede contemplação quando talvez precisasse de movimento.

Cena de "Papaya"- Divulgação Cajuína Audiovisual

Cena de “Papaya”- Divulgação Cajuína Audiovisual

Não se trata de exigir uma montagem frenética ou uma sucessão constante de estímulos. O problema está na ausência de uma progressão suficientemente forte entre algumas dessas imagens. Quando a contemplação não produz descoberta, transformação ou conflito, ela corre o risco de se transformar simplesmente em espera.

Com apenas 74 minutos, Papaya ainda produz a curiosa sensação de ser maior do que realmente é. Nem mesmo a trilha sonora de Talita Del Collado, frequentemente épica e grandiosa, consegue compensar completamente essa falta de movimento. Em certos momentos, a música parece anunciar uma aventura muito maior do que aquela que efetivamente se desenrola na tela.

Por isso, a dificuldade de Papaya não está exatamente em sua mensagem, mas na maneira como o cinema precisa organizar essa mensagem dentro do tempo. A história é simples, a protagonista é carismática e a estética possui personalidade.

Ainda assim, algumas das melhores ideias do filme parecem maiores do que a própria narrativa que as abriga.

Como experiência visual e como conto infantil, Papaya possui uma força inegável. Como longa-metragem, porém, encontra dificuldades para manter o encantamento durante toda a sua jornada. É um filme que parece saber exatamente o que quer dizer, mas nem sempre sabe quanto tempo precisa para dizer.

Distribuído pela Cajuína Audiovisual, Papaya foi o primeiro longa-metragem de animação brasileiro a integrar a mostra competitiva Generation KPlus do Festival de Berlim de 2026. Após passar por mais de dez festivais nacionais e internacionais, o filme chega aos cinemas brasileiros em 24 de setembro.

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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

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