Dirigido por Januel Mercado e Joel Crawford, A Ilha Esquecida se mostra como um forte concorrente ao Oscar por diversos motivos, mas, acima de tudo, pela franqueza e pela coragem de não se contentar com o menos
Na faculdade, tive um professor que defendia que dois grandes filmes de animação ditariam o futuro da técnica: O Rei Leão (2019, Jon Favreau) e Homem-Aranha no Aranhaverso (2018, Peter Ramsey, Bob Persichetti e Rodney Rothman). De certa forma, acredito que ele estava certo. Enquanto a produção de Favreau ampliou as possibilidades do hiper-realismo dentro do campo da animação, Aranhaverso estruturou uma linguagem visual tão ricamente exagerada, com o universo funcionando em prol da narrativa, que se tornou um sopro de frescor diante do método tradicional da Pixar, durante muito tempo enxergado como a norma.
Ao quebrar essa norma, diversas animações passaram a apostar em estéticas mais exageradas e particulares como forma de individualizar seus respectivos universos. Tivemos A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas (2021, Mike Rianda), Gato de Botas 2: O Último Pedido (2022, Januel Mercado e Joel Crawford), Guerreiras do K-Pop (2025, Maggie Kang e Chris Appelhans) e, agora, A Ilha Esquecida. Se existe uma joia da coroa dessa tendência de customizar a animação em função da narrativa, ela pode estar aqui.
Se existe uma palavra para descrever esta nova produção da DreamWorks, seria “exagero”. A questão é que, de nenhuma forma, essa palavra deve ser encarada de maneira pejorativa. Muito pelo contrário: o exagero é uma de suas maiores forças.

Cena de “A Ilha Esquecida”- Divulgação Universal Pictures
São exageros de detalhes, de cores, de movimentos e de diferentes técnicas de animação convivendo dentro de uma mesma sequência. Há uma forte influência da estética anime, que cai como uma luva dentro desse universo, enquanto a narrativa abraça a mitologia polinésia e explora até mesmo os limites de quanto uma criança consegue assistir a Se Beber, Não Case! (2009, Todd Phillips) e ainda permanecer entretida.
Ao contar a história de Raíssa e Jo, Januel Mercado e Joel Crawford pretendem tanto homenagear a própria amizade quanto honrar suas raízes polinésias. O espectador é, então, mergulhado em um universo fantástico e extremamente rico, cheio de cores e personagens únicos, que vão de bebês demônios à tritões. E, embora a busca das meninas pelas memórias de uma noite inesquecível pudesse facilmente se perder em meio a tantas possibilidades, o filme encontra seu rumo ao estabelecer dois eixos narrativos fundamentais: memória e família.
Em uma das sequências mais importantes, Lola, avó de Jo, consola a menina, que se sente solitária, e defende que nem toda família é de sangue. Essa talvez seja a principal mensagem de A Ilha Esquecida. É justamente a partir dela que o filme consegue impedir que seu próprio excesso se transforme em ruído. A produção é grandiosa, mas também íntima e pessoal em relação aos objetivos que estabelece. Seus exageros estéticos existem em prol da história, e não o contrário.
A memória, por sua vez, ganha forma por meio de personagens como um demônio agorafóbico responsável por guardá-la e um monstro alado que se revela muito mais profundo do que aparenta, como praticamente tudo neste universo. Mercado e Crawford não estão interessados em contar uma história necessariamente original. Pelo contrário: a narrativa segue diversos beats bastante conhecidos. O diferencial está na maneira como esses elementos são reorganizados dentro de um mundo tão particular, fazendo com que uma estrutura familiar adquira uma identidade própria.
A coragem de A Ilha Esquecida é a de não se contentar com o pouco. A animação é elevada, os personagens são elevados e carismáticos, a comédia é eficiente, o drama consegue cativar. Não existe medo ou travas, sendo um filme solto que consegue entregar das situações mais contidas, às mais absurdas, como um Cãobizomem, e mesmo assim manter uma potência que aquele é o melhor caminho.

Cena de “A Ilha Esquecida”- Divulgação Universal Pictures
Mesmo quando se arrasta ao longo do segundo ato, em que somos introduzidos a diversos personagens aleatórios que inicialmente servem somente para popular o mundo e não levar a narrativa para frente, quando A Ilha Esquecida termina de contextualizar, as peças estão no tabuleiro para sequências realmente emocionantes, e a produção não entrega nada menos do que isso.
É impossível sair indiferente de A Ilha Esquecida. Ou você vai rir de seus absurdos, ou se maravilhar com o espetáculo visual, cantar junto com a trilha sonora cheia de hits, ou se emocionar com a história franca e honesta sobre a importância das famílias que encontramos pelo caminho e sobre como elas podem nos dar forças para continuar.
Distribuído pela Universal Pictures, A Ilha Esquecida chega aos cinemas em 24 de setembro, mas terá sessões especiais durante a Semana do Cinema, que acontece até 16 de setembro.
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