A possível chegada de Richarlison ao Vasco ganhou um novo capítulo e, desta vez, a discussão deixou de ser apenas esportiva. O futuro do atacante no Tottenham passou a envolver uma disputa jurídica que pode determinar se ele conseguirá deixar o clube inglês sem uma transferência convencional.
O jogador quer sair. O Tottenham sabe disso e, segundo as informações divulgadas na Inglaterra e no Brasil, tentou negociar sua saída durante a janela. O problema é que as conversas não chegaram a um acordo.
O cenário ficou ainda mais complicado depois que Richarlison não foi incluído na lista do Tottenham para disputar a Premier League. O técnico Roberto De Zerbi confirmou que o atacante havia manifestado o desejo de deixar o clube durante a pré-temporada.
Agora, o estafe do brasileiro pretende buscar a rescisão do contrato. A intenção seria abrir caminho para uma assinatura com o Vasco ainda em 2026.
A questão central, porém, é outra: Richarlison pode simplesmente romper o contrato e ficar livre?
A resposta é mais complexa do que a expressão “Lei Webster” costuma sugerir.
O que é a Lei Webster?
A chamada “Lei Webster” não é uma lei propriamente dita. O nome ficou associado ao caso do jogador escocês Andy Webster, que deixou o Heart of Midlothian em 2006 e passou a atuar pelo Wigan Athletic.
O caso ajudou a consolidar a interpretação de mecanismos previstos nas regras da FIFA para a rescisão unilateral de contratos por jogadores profissionais.
A lógica está relacionada principalmente ao artigo 17 do Regulamento sobre o Estatuto e a Transferência de Jogadores da FIFA, conhecido como RSTP.
Em determinadas circunstâncias, um jogador pode romper unilateralmente seu contrato depois do chamado período protegido. Isso não significa, entretanto, que o atleta possa simplesmente sair sem qualquer consequência financeira.
Esse é um dos pontos mais importantes para entender o caso de Richarlison.
Uma rescisão sem justa causa pode gerar uma indenização ao clube que perdeu o jogador. O fato de não existir mais uma determinada sanção esportiva após o período protegido não elimina automaticamente a obrigação de compensar o antigo clube.
Richarlison chegou ao Tottenham em 2022, contratado junto ao Everton.
Como já se passaram mais de três anos desde a assinatura do contrato, o brasileiro está, em princípio, fora do período protegido previsto pelas regras da FIFA.
Isso é relevante porque uma eventual ruptura unilateral agora não teria necessariamente as mesmas consequências esportivas que teria durante o período protegido.
Mas há uma diferença fundamental entre não sofrer uma suspensão esportiva e sair de graça.
O Tottenham ainda pode reivindicar uma compensação financeira caso entenda que houve uma ruptura contratual sem justa causa.
É justamente por isso que a situação interessa tanto ao Vasco.
Se Richarlison conseguir demonstrar uma justa causa para rescindir, o cenário muda radicalmente. Caso contrário, uma batalha financeira entre jogador e Tottenham pode surgir.
A ausência de Richarlison na equipe titular, por si só, não significa que o Tottenham esteja cometendo uma violação contratual.
Um treinador pode deixar um jogador no banco ou fora de uma partida por razões esportivas. Isso faz parte da dinâmica normal do futebol profissional.
O caso ganha outra dimensão quando o atleta deixa de fazer parte do planejamento esportivo do clube.
Richarlison ficou fora da lista do Tottenham para a Premier League. Segundo as informações divulgadas pelo ge, o estafe do atacante também considera especialmente relevante o fato de ele ter sido direcionado aos treinamentos com a equipe sub-21.
Essa situação pode ser utilizada pelos advogados do jogador para sustentar que não se trata simplesmente de uma decisão técnica.
A discussão jurídica passa a ser: o clube está apenas deixando de escalar Richarlison ou está, na prática, afastando um jogador profissional de sua atividade normal?
Essa diferença pode ser importante.
Richarlison pode alegar justa causa?
O RSTP prevê situações em que um jogador pode rescindir o contrato por justa causa.
Existe também uma regra específica de chamada “justa causa esportiva”, prevista no artigo 15.
Ela permite, em determinadas condições, que um profissional estabelecido encerre o vínculo quando disputa menos de 10% das partidas oficiais de sua equipe durante uma temporada.
A regra, entretanto, não pode ser aplicada automaticamente ao caso de Richarlison neste momento.
A temporada acabou de começar. Portanto, ainda não existe uma amostra suficiente para afirmar que o atacante ficará abaixo do limite de 10%.
Além disso, a aplicação do dispositivo envolve critérios e prazos específicos. A jurisprudência da FIFA trata a questão de maneira casuística.
Por isso, dizer que Richarlison já tem garantida uma rescisão pelo artigo 15 seria precipitado.
O argumento mais imediato do jogador parece estar relacionado ao tratamento recebido pelo Tottenham, à exclusão da lista da Premier League e à eventual retirada de sua condição de integrante efetivo do elenco profissional.
Isso terá de ser analisado pelas instâncias competentes.
O clube inglês não está necessariamente sem defesa.
Existe um elemento particularmente importante na história: Richarlison manifestou vontade de sair.
De Zerbi afirmou publicamente que conversou com o atacante no início da pré-temporada e que a intenção do brasileiro era deixar o Tottenham. O treinador também disse que o jogador havia expressado esse desejo diversas vezes.
Isso pode ser utilizado pelo Tottenham para sustentar que o clube não decidiu simplesmente afastar Richarlison.
A versão dos Spurs pode ser resumida da seguinte maneira: o jogador queria sair, o clube tentou encontrar uma solução no mercado e as negociações não avançaram.
Essa narrativa é importante porque enfraquece uma eventual alegação de que o Tottenham simplesmente decidiu impedir o atacante de trabalhar.
O Everton apareceu como uma das principais alternativas para Richarlison.
O Tottenham teria aceitado uma proposta que poderia render aproximadamente £35 milhões ao clube. O problema surgiu nas negociações entre Richarlison e o Everton.
O atacante não chegou a um acordo sobre as condições pessoais e a transferência acabou não acontecendo.
A situação é particularmente delicada porque Richarlison tem uma ligação conhecida com o Everton, clube pelo qual se destacou antes de ser contratado pelo Tottenham.
Depois do fracasso da negociação, o jogador continuou buscando uma saída.
O episódio também permite ao Tottenham argumentar que estava disposto a negociar o brasileiro.
Outro capítulo importante envolve o Trabzonspor.
O clube turco apresentou propostas pelo atacante, mas o Tottenham teria recusado as ofertas. Segundo o ge, foram rejeitadas propostas de £15 milhões e posteriormente de £20 milhões. Richarlison teria dado sinal positivo para a possibilidade de jogar na Turquia, mas dependia da liberação dos Spurs.
Esse ponto pode ter peso na disputa.
Se o jogador argumentar que deseja deixar o Tottenham e que o clube está impedindo sua saída mesmo diante de propostas concretas, isso poderá fazer parte de sua argumentação.
Por outro lado, o Tottenham pode responder que tem o direito de decidir quando e por quanto vende um jogador sob contrato.
O clube também pode sustentar que as propostas recebidas ficaram abaixo do valor que considera adequado.
Portanto, a simples existência de uma oferta não obriga o Tottenham a aceitar a transferência.
Por que a exclusão da Premier League é tão importante?
A ausência na lista da Premier League não significa automaticamente que Richarlison esteja impedido de jogar futebol.
O Tottenham ainda possui outras competições e estruturas profissionais. Porém, a exclusão reforça a percepção de que o brasileiro deixou de fazer parte dos planos principais do treinador.
De Zerbi, inclusive, não escondeu que o atacante queria sair.
A situação fica mais sensível se for comprovado que Richarlison passou a treinar de maneira separada do grupo principal ou foi direcionado permanentemente para a equipe sub-21.
Nesse caso, os advogados do jogador podem tentar demonstrar que o clube está criando condições para forçar sua saída.
O Tottenham, naturalmente, poderá apresentar sua própria versão dos fatos.
Outro nome aparece quando se fala sobre a possibilidade de Richarlison romper o contrato: Lassana Diarra.
O ex-jogador francês travou uma longa batalha judicial contra as regras da FIFA depois de uma disputa contratual com o Lokomotiv Moscou.
O caso chegou ao Tribunal de Justiça da União Europeia e resultou, em 2024, em uma decisão que colocou sob questionamento partes importantes do sistema de transferências da FIFA.
Entre os pontos afetados estavam mecanismos relacionados à responsabilidade do novo clube e ao Certificado Internacional de Transferência.
A decisão não significa que qualquer jogador possa romper um contrato e assinar imediatamente com outra equipe sem consequências.
O que mudou foi o ambiente jurídico em torno das regras de transferência.
A própria FIFA passou a trabalhar em alterações de seus regulamentos após o julgamento. Em junho de 2026, a entidade aprovou uma nova versão do RSTP, mas as alterações estão previstas para entrar em vigor somente em 1º de janeiro de 2027.
Portanto, é preciso cuidado para não aplicar ao caso de Richarlison regras que ainda não estão em vigor.
Essa talvez seja a principal confusão em torno do caso.
Quando se fala que um jogador pode utilizar a chamada “Lei Webster”, muitas vezes a expressão é interpretada como se existisse uma regra permitindo simplesmente sair de um clube sem pagar nada.
Não é isso.
O artigo 17 do regulamento da FIFA estabelece mecanismos para determinar a compensação decorrente de uma ruptura contratual.
Fatores como a remuneração restante, tempo de contrato e outras circunstâncias podem entrar no cálculo.
A diferença fundamental está nas sanções esportivas.
Depois do período protegido, uma ruptura sem justa causa pode não resultar nas mesmas punições esportivas aplicáveis durante esse período. Ainda assim, o clube prejudicado pode buscar compensação financeira.
Por isso, Richarlison estar fora do período protegido é uma vantagem jurídica, mas não representa automaticamente uma carta branca.
O Vasco entra diretamente nessa equação
O Vasco já demonstrou interesse concreto em Richarlison.
O atacante teria aceitado a possibilidade de defender o clube carioca, mas o primeiro caminho imaginado, o empréstimo pelo Tottenham, acabou ficando inviável.
Isso aconteceu porque o Tottenham já atingiu o limite de jogadores emprestados para clubes de outras associações nacionais, segundo as regras da FIFA. O clube tem seis atletas emprestados para outras federações, número máximo permitido.
Com isso, o Vasco passou a analisar uma contratação definitiva.
O problema é o preço.
Segundo as informações divulgadas pelo ge, o Tottenham deseja mais de £20 milhões para liberar Richarlison em definitivo.
É um valor muito elevado para o futebol brasileiro e torna uma negociação convencional bastante difícil.
Por isso, a possibilidade de uma rescisão entre Richarlison e Tottenham interessa tanto ao Vasco.
Sim, mas há uma diferença importante.
Se Richarlison romper seu contrato e ficar livre, o Vasco poderá negociar diretamente com o jogador.
O diretor de futebol Admar Lopes afirmou que o clube continua trabalhando em diferentes possibilidades para viabilizar a contratação. Segundo ele, caso o jogador consiga rescindir o contrato, o Vasco não teria participação jurídica na ruptura.
Essa separação é importante.
O clube carioca não pode simplesmente incentivar uma ruptura contratual e assumir que não haverá consequências. Qualquer participação indevida em uma quebra de contrato pode gerar discussão jurídica.
Por isso, o caminho mais seguro para o Vasco seria uma contratação diretamente negociada com o Tottenham.
Hoje, existem basicamente três caminhos.
O primeiro é o Vasco comprar Richarlison do Tottenham. É a solução mais simples juridicamente, mas também a mais cara.
O segundo é o atacante conseguir uma rescisão com o Tottenham e posteriormente assinar com o Vasco. Nesse cenário, o grande conflito será entre jogador e clube inglês.
O terceiro envolve uma negociação entre todas as partes para encontrar um valor de saída aceitável.
Internamente, o Vasco considera que a compra pode ser uma alternativa mais segura caso a rescisão unilateral se mostre juridicamente arriscada.
Ao mesmo tempo, a vontade de Richarlison pesa nas conversas.
O clube carioca também trabalha com a possibilidade de oferecer um contrato longo, de quatro anos, com uma cláusula de saída que permita ao atacante deixar São Januário caso receba uma proposta importante no futuro.
Essa fórmula poderia ser interessante para os dois lados.
Richarlison teria a possibilidade de retornar ao futebol brasileiro e, ao mesmo tempo, preservar uma porta para voltar ao mercado internacional.
O que acontece se Richarlison rescindir e a FIFA der razão ao Tottenham?
Esse é o principal risco.
Se Richarlison romper o contrato sem uma justa causa reconhecida, o Tottenham poderá buscar uma compensação.
A discussão pode chegar à FIFA e, dependendo das circunstâncias, envolver posteriormente outras instâncias esportivas ou judiciais.
O fato de o brasileiro estar fora do período protegido reduz determinados riscos esportivos, mas não elimina a disputa financeira.

É justamente por isso que o caso não pode ser resumido à frase “Richarlison pode usar a Lei Webster e sair de graça”.
Ele pode tentar romper o vínculo. Outra coisa é conseguir fazê-lo sem qualquer obrigação financeira.
Existe ainda um detalhe temporal que pode ser decisivo.
Richarlison não acumulou partidas suficientes na atual temporada para que seja possível afirmar que terminará abaixo dos 10% exigidos pela chamada justa causa esportiva.
Por enquanto, portanto, o artigo 15 não oferece uma saída automática.
O caso pode ganhar força se o jogador permanecer fora das partidas oficiais durante um período significativo.
Mas mesmo nesse cenário será necessário avaliar as circunstâncias concretas.
O artigo 15 não transforma matematicamente qualquer jogador pouco utilizado em agente livre.
Não necessariamente.
O clube possui um contrato com Richarlison e, enquanto esse vínculo estiver válido, tem direitos sobre o atleta.
Por outro lado, um contrato esportivo não permite que um clube faça qualquer coisa com um jogador.
Se ficar demonstrado que o Tottenham violou obrigações fundamentais do vínculo ou impediu deliberadamente o jogador de exercer sua atividade profissional, a situação pode mudar.
É justamente nessa área cinzenta que a disputa deve acontecer.
De um lado, Richarlison pode argumentar que foi afastado do futebol profissional.
Do outro, o Tottenham pode afirmar que simplesmente reorganizou seu elenco depois que o próprio jogador manifestou desejo de sair.
O estafe de Richarlison pretende apresentar um pedido de rescisão e busca uma solução que permita ao atacante atuar pelo Vasco ainda em 2026.
O Tottenham, por sua vez, não demonstra disposição para liberá-lo gratuitamente.
O clube inglês ainda possui a possibilidade de extensão contratual por mais 12 meses, segundo as informações divulgadas pela imprensa britânica.
Isso significa que a situação pode se transformar em uma disputa formal caso não exista acordo.
E quanto mais próxima estiver a janela brasileira do fechamento, maior será a pressão sobre todos os envolvidos.
O caso reúne interesses muito diferentes.
Richarlison quer escolher seu próximo destino e vê o Vasco como uma possibilidade concreta.
O Vasco quer um atacante de impacto sem assumir uma operação financeira incompatível com sua realidade.
O Tottenham quer evitar perder um jogador contratado por uma quantia elevada sem receber uma compensação.
E a FIFA terá de analisar qualquer eventual ruptura à luz de suas regras e da jurisprudência mais recente.
Por isso, a chamada “Lei Webster” pode fazer parte da estratégia jurídica de Richarlison, mas não representa uma garantia de transferência gratuita.
A situação é ainda mais delicada porque o jogador está fora do período protegido, mas ainda não reúne, de maneira evidente, os requisitos temporais da justa causa esportiva baseada nos 10%.
A exclusão da lista da Premier League e o eventual afastamento das atividades do elenco profissional podem se tornar os elementos mais importantes da argumentação do atacante.
Ao mesmo tempo, as tentativas do Tottenham de negociar sua saída e o fato de Richarlison ter declarado que queria deixar o clube formam a principal defesa dos ingleses.
O Vasco acompanha tudo de perto.
A tendência é que os próximos dias sejam decisivos para saber se Richarlison chegará a São Januário por uma transferência milionária, por uma negociação intermediada entre os clubes ou depois de uma batalha jurídica contra o Tottenham.
Por enquanto, uma coisa está clara: Richarlison pode tentar romper o contrato. O que ainda não está claro é quanto essa decisão pode custar.
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