Friday, November 27, 2020

Não é dinheiro, Doutor

O ônibus é o 422.

Walmir é uma pessoa em situação de rua.
Jorge é um cidadão de bem.
Lopes é um senhor aposentado, de bem também.
Verônica é uma menina de bem e cheia de sonhos.

Jorge está em um ponto de ônibus.

WALMIR : Olá, senhor, boa tarde.
JORGE: Desculpe, querido, não tenho nada.
WALMIR:  Não, doutor. Não é comida não. Queria uma cachacinha mesmo, se o senhor puder pagar pra mim.
JORGE: Infelizmente não tenho nada mesmo.

Walmir sai resmungando, Lopes se aproxima.

LOPES: Tava te pedindo dinheiro pra cachaça, né?
JORGE: Sim…a cidade tá assim agora. Só perturbação.
LOPES: Pior que isso aí é tudo vagabundo. Duvido que ia comprar cachaça. Provavelmente ia pegar seu dinheiro e gastar todo em comida. Pode apostar.
JORGE: Foi o que imaginei. É golpe pra ir e comer um pastel, tomar um suco, essas coisas…
LOPES: Sim. Outro dia vi um monte ali embaixo do viaduto. Tudo comendo salgado, coxinha, joelho… Tinha um até de prato feito.
JORGE: Noiado de marmita.
LOPES: É foda. Eu não dou mais. No máximo, vou lá no bar eu mesmo e compro a cachaça para pessoa.

Verônica se aproxima.

VERÔNICA: Vocês estão falando do morador de rua? Desculpa, acabei ouvindo.
LOPES: Sim, essa região não é mais a mesma.
VERÔNICA: Verdade. E querem o que? Depois esse pessoal da rua fica aí todo alimentado, andando pela cidade.
JORGE: Tirando nossa segurança.
LOPES: Agora eu ando tendo que atravessar a rua. Se eu vejo um vindo na minha direção, com cara de barriga cheia, vou pro outro lado.

Ônibus 422 chega em alta velocidade e dá uma freada quase mortal para os passageiros. Uma passageira bate a cabeça e desmaia, seu braço fica caído pra fora.

LOPES: Bom, meu ônibus chegou. Boa tarde, gente.

Lopes entra no ônibus.

VERÔNICA: Estranho, né? Sujeito puxando assunto assim.

422 parte, a porta fecha com a bolsa de alguém pra fora. Com o tranco brusco da arrancada, moça desmaiada acorda novamente e volta a mexer no celular.

JORGE: Sim, sempre fico atento. A pessoa vem como se fosse aplicar algum golpe, ou como se fosse furtar sua carteira. Mas no fim o que quer mesmo é fazer amizade.
VERÔNICA: Isso. Depois a gente tá cheio de amigo aí.
JORGE: Verdade. Tem que ficar de olho aberto.

Um Uber chega.

VERÔNICA: Bom, vou lá. Bom dia.
Verônica entra no carro.
JORGE: Até! Bom dia.
VERÔNICA (no carro, para o motorista): Olá, tudo bem? Sai rapidinho, por favor, acho que esse cara aí tava quase me pedindo uma informação.

Uber arranca.

FIM

Inspirado em:

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2 Comments

  • Saulo Daniel
    Saulo Daniel

    Fantástico, gênio. 👏🏽

    Responder
  • lu
    lu

    Excelente!

    Responder

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