Mc Sid | Projeto Cartas (Alerta de gatilhos)

“Projeto Cartas” é uma quadrilogia lançada pelo Mc Sid, que conta a história fictícia (porém facilmente comparável com a realidade, infelizmente) do jovem Carlos Augusto Migliácio (Migli). A princípio, envolve 4 acontecimentos, relatados por Migli em 4 cartas, que vão mostrar toda uma vida que seguiu até o fundo do poço. O conteúdo é sensível e já começa com o aviso e cuidado com gatilhos, além do número 188 para quem precisar.

Carta Nº 1, O início.

O início mostra um garoto com bloqueio em ter amigos, o bullying, a violência e a indiferença que machucam demais. Considero a carta da solidão, esse sentimento que todos passam um pouco mas que a maioria tem medo. Aliás, se repararmos hoje estamos rodeados por tecnologias para comunicação, estamos sempre com barulho, tv, celular, computador e isso às vezes significa apenas que não queremos desligar para não ficarmos sozinhos.

No caso de Migli ele era um garoto rejeitado da sala, ignorado e conseguia realmente até criar um certo carinho pelo bullying que sofria pois era a parte onde as pessoas pelo menos olhavam pra ele e mostravam que ele existia. Indiferença e solidão são coisas que em tempo de pandemia muitas pessoas estão sentindo. Precisamos nos atentar a detalhes pequenos, principalmente crises, como a crise de pânico descrita de forma brilhante (e sufocante) na música.

O final da música é forte e mostra Migli se cortando pela primeira vez. Ou seja, um recado forte do MC Sid, para que as pessoas falem mais sobre bullying nas escolas. Se os pais educassem os filhos a não julgarem as diferenças, e se a sociedade falasse sobre auto mutilação, talvez as coisas fossem melhores.

Carta Nº2,  a carta da violência doméstica.

A única pessoa que entendia Migli um pouco era a mãe. Porém, ela sofria na mão do marido e o filho via tudo, mas ficava impotente. Dessa forma, se julgava um menino medroso, mas já tinha pensamentos ruins e vontades sobre aquele homem que chamava de pai e que maltratava sua mãe. Infelizmente os dados de aumentaram ainda mais pandemia, entretanto houve uma queda nos registros. Isso aconteceu porque hoje com a quarentena temos muito mais mulheres presas em casa sem ter como denunciar, muitas famílias são destruídas e os traumas duram uma vida toda. Ou seja, assim como na música, a pergunta que fica é como seria a vida de Migli se o pai nunca tivesse machucado a mãe, e se o mundo não fosse tão machista. Por fim, Mc Sid provoca uma reflexão forte com precisão cirúrgica.

Carta Nº3, a carta do vício.

Nessa altura Migli já estava bem machucado, sem esperança e claramente frágil. Com isso, começou a aprender a mascarar seus problemas, seja com os cortes, com bebidas e cigarros e acabava vendo outras pessoas na mesma situação. Na festa viu alguém que se assemelhava, uma garota que servia praticamente como um espelho da sua vida, mas que claramente o atraía. Com isso, ela ofereceu drogas. No primeiro momento ele lembrou de todos que falaram que drogas eram ruins, mas também veio em sua mente que essas mesmas pessoas o julgavam e ignoravam, enquanto Bia o tratou bem, e foi carinhosa. Como pode, né?

“Será que eu vi o mundo de cabeça pra baixo? Sempre fiz tudo que era certo e sempre deu errado, e se eu fizer o contrário?”

Com a experiência ele sentiu vida, alívio. Aparentemente, a cocaína deixava Migli cada vez com mais força para viver, mas ele não percebia o buraco o puxando para baixo. A pergunta da vez é quando a escola vai realmente tratar de drogas de uma forma realista e não sensacionalista. Como em cada parte final dessas cartas, cada um desses acontecimentos poderia ter sido evitado com respostas claras às perguntas propostas e poderia mudar o futuro de Migli na História, mas de muitas pessoas na vida real aqui fora.

Carta Nº 4, a carta final, o último suspiro.

Claramente essa é a carta mais forte, feita a partir do olhar do psicólogo de Migli, conversando com seu psicólogo (pois todo psicólogo precisa ter um psicólogo). Fala sobre o caso e demonstra todo carinho e como conhecia o coração de seu paciente. Há reflexões de como as pessoas não estão muitas vezes abertas para o diferente, ou mais reclusas ou que simplesmente não se encaixam na sociedade. Cada um de nós tem lutas particulares, e isso deve ser sempre levado em conta para ter mais empatia pelas pessoas. Cada um de nós pode fazer parte disso, seja ajudando, falando sobre, de forma respeitosa ou até percebendo ações que  precisamos rever como sociedade. O que não dá é pra fazer pouco caso enquanto tantos de nós estão sendo perdidos.

Fiz esse texto como uma forma de divulgação desse projeto fantástico que o MC Sid fez, já era fã antes e isso só me mostra como um artista pode influenciar REALMENTE com a sua arte. O Projeto Cartas deveria estar nas escolas, ser projeto de estudos e conversa com muitas pessoas que sentem não ter voz e nem  representatividade, ainda mais no mundo cada vez mais midiático e liquido de hoje. Deixo aqui meus dois dedos de prosa sobre, e peço de verdade que vejam esse trabalho com carinho. Enfim, que assim possam perceber melhor as pessoas em volta. Às vezes temos pessoas próximas com problemas e na nossa correria acabamos por não perceber, que além de ajudar a perceber, é um projeto artístico com alma, daqueles difíceis de encontrar por ai.

Já ouviu? Qual sua percepção do trabalho?  Deixe nos comentários sua opinião.

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