Acaba de entrar em cartaz nos cinemas, a versão restaurada de “Onda nova”. O filme dirigido por José Antonio Garcia e Ícaro Martins foi totalmente censurado e vetado de exibição nos cinemas durante a ditadura civil-militar. Foi liberado para estreia 10 meses depois, mas em apenas 2 cinemas! Mesmo em um momento, que apontava um retorno à democracia, o, ousado, longa-metragem não foi poupado de severas críticas.

A história de “Onda nova”
Em 1941, durante a ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas, uma lei foi decretada para proibir a prática do futebol feminino no Brasil. Essa lei perdurou até 1979, quando a prática foi novamente legalizada, com a regulamentação ocorrendo em 1983, ano de produção desse filme. Mas, antes da proibição, o país já vivia uma estrutura machista que era contra a prática. Tendo acontecido por muitos anos de forma amadora em exibições e na periferia, a primeira partida oficial do futebol feminino brasileiro aconteceu em 1940, somente 1 ano antes da famigerada proibição.


Em “Onda nova”, um grupo de jovens mulheres integra o elenco do Gayvotas Futebol Clube. Enquanto dão seus primeiros passos no, então recém tornado legalizado, futebol feminino, enfrentam diversos obstáculos, e, também, vivem suas vidas sem amarras. Ao longo de uma trilha musical com muitos sucessos da época, cada personagem vive a vida à sua maneira, sem preocupar-se com rótulos ou valores impostos.

Independência
Embora Carla Camurati e Cristina Mutarelli roubem grande parte das cenas, não há a definição de uma ou duas protagonistas no filme. Podemos dizer que o time das Gayvotas é a protagonista, embora, algumas personagens não tenham tanto peso na trama. Mas, talvez, o grande protagonismo seja a representação da força da independência feminina.
Em um país que vivia já duas décadas de uma ditadura e quatro de proibição ao futebol feminino, o contexto pedia por uma explosão. Uma explosão de rebeldia, transgressão e desobediência. O futebol feminino é o grande símbolo desse movimento de ressurgimento da liberdade. Uma liberdade que representava o surgimento, no horizonte, de um retorno à democracia. Ainda que, o autoritarismo ainda desse seus últimos suspiros, por meio da censura a este filme, por exemplo.

A onda nova do Futebol feminino
Embora o filme esteja sendo divulgado pelo tema do futebol feminino, este não é apresentado sob o ponto de vista de sua importância social como prática esportiva. Na verdade, o futebol é apresentado como uma forma de transgressão. Assim como toda a rotina representada na tela pelas jogadoras do Gayvotas. Isso, claro, não diminui o impacto de mostrar o pioneirismo do atual futebol feminino no Brasil.
Só não espere grandes cenas envolvendo o esporte, pois elas são poucas e muito curtas. A importância dos jogos na história é tal qual a rigidez da rotina de atleta que as jogadoras conduzem. Tanto que o placar das partidas nem é apresentado, e nem seus desfechos. Há apenas comentários breves se o time perdeu ou ganhou. O único momento interessante, nesse sentido, é um belo gol de falta marcado pela atacante Batata (Regina Carvalho).
Elenco e narrativa
O filme conta com um elenco que mescla nomes que se tornariam consagrados como de Carla Camurati a outros estreantes, que não seguiram carreira, boleiras, como Regina Carvalho, e estrelas consagradas como Regina Casé e Tânia Alves. Há também a presença de jogadores de futebol como Pita, Casagrande e Wladimir, que atuavam no Corinthians, cujas dependências serviram de cenário para grande parte do filme, do locutor Osmar Santos e do cantor Caetano Veloso, interpretando a si mesmo.
Por outro lado, a narrativa está longe de ser um ponto forte do filme. Muitas subtramas são apresentadas e deixadas de lado muito rapidamente, enquanto outras são estendidas de modo desnecessário e desconexo com o tom do filme. Algumas personagens também acabam sendo mal aproveitadas, como a novata do time, Valentina, que tem crush em Casagrande e a enigmática Geléia, que praticamente não fala a fita toda.
O que é feminino ou masculino?
O grande foco do filme é levantar reflexões a partir de situações que são ao mesmo tempo isoladas e interligadas durante o filme. Afinal, o que é feminino e o que é masculino? Há realmente uma divisão natural ou há uma construção imposta na sociedade de certas divisões?
O filme traz isso, não apenas na história, mas no próprio elenco. Na família da personagem Lili (Cristina Mutarelli), a goleira do time, a mãe é interpretada pelo ator Patrício Bisso, enquanto o personagem do pai trabalha fazendo tricô em casa. O filme brinca com essas noções estabelecidas do que seriam comportamentos e atitudes femininas ou masculinas, abordando abertamente questões relacionadas à homossexualidade e bissexualidade.

Onde assistir
O filme é recheado de muito erotismo, música boa e rebeldia. Se na época, o filme pareceu muito chocante, é curioso pensar em como ele ainda pode ser impactante mais de 40 anos depois. No famoso filme “De volta para o futuro”, o personagem de Michael J. Fox diz a célebre frase: “Vocês não estão preparados para isso, mas seus filhos vão adorar”. Será que, no atual panorama, a sociedade brasileira está pronta para “Onda nova”? Ou estaríamos regredindo para um antigo conservadorismo e censura generalizada?

Fazendo jus ao seu compromisso com a preservação do cinema brasileiro, o programa Sessão Vitrine Petrobras traz mais um filme do cinema brasileiro restaurado para o deleite do público dos cinemas. Consulte a rede de cinemas de sua cidade para encontrar sessões disponíveis.