A violência estrutural que atravessa gerações e molda destinos ganha forma no palco em Querô – Sempre uma Reportagem Maldita, espetáculo que transforma denúncia social em experiência sensível e urgente. Criada a partir da vivência de jovens artistas da Maré, a montagem revisita o clássico de Plínio Marcos para refletir sobre os “Querôs” contemporâneos e as marcas de um sistema que ainda insiste em excluir.
Apresentada pelo Coletivo Corte, a peça nasce dentro da Escola Livre Entre Lugares Maré e parte de uma identificação direta entre elenco e narrativa. A história acompanha um jovem criado sob a lógica da ausência — de direitos, de cuidado, de oportunidades — em uma trajetória atravessada por violência, abandono e repressão institucional.
A adaptação dramatúrgica, assinada pelo coletivo em parceria com Renata Tavares, desloca a narrativa original para o contexto atual da cidade do Rio de Janeiro, mais especificamente para o Complexo da Maré. A escolha não é apenas geográfica, mas política: a encenação incorpora referências da vida noturna, da mobilidade urbana e das dinâmicas sociais da região para construir um retrato contemporâneo e reconhecível.
A montagem aposta em uma estrutura não linear, cruzando passado, presente e futuro em uma narrativa fragmentada. O uso da iluminação como elemento central da cena cria ambientes e sensações que dialogam diretamente com a experiência do protagonista.
Os atores transitam entre diferentes funções em cena — ora personagens, ora criadores do espaço cênico — reforçando o caráter coletivo da obra e a quebra de fronteiras entre representação e realidade. A estética em formato de esquetes funciona como fio condutor para essa construção dinâmica, aproximando o público de diferentes camadas da história.
Mais do que contar uma história, Querô – Sempre uma Reportagem Maldita se posiciona como um gesto político. A montagem evidencia como a ausência de políticas públicas eficazes — em áreas como saúde, educação e alimentação — impacta diretamente a vida de jovens periféricos.
Ao trazer essas vivências para o palco, o espetáculo propõe não apenas empatia, mas reflexão. A pergunta central ecoa ao longo da encenação: quem são os Querôs de hoje? E em que medida a sociedade segue reproduzindo as mesmas estruturas denunciadas há décadas?
Querô – Sempre uma Reportagem Maldita ganha temporada gratuita em dois espaços do Rio
A circulação do espetáculo reforça seu compromisso com o acesso e a formação de público, com apresentações gratuitas em dois importantes espaços culturais da cidade.
No Museu da Maré, a temporada acontece entre os dias 2 e 12 de abril, sempre de quinta a domingo, às 19h30. O endereço é Avenida Guilherme Maxwell, nº 26, no Morro do Timbau, dentro do Complexo da Maré.
Já no Teatro Municipal Gonzaguinha, no Centro, as apresentações ocorrem de 15 a 25 de abril, de quarta a sábado, às 19h. O teatro fica na Rua Benedito Hipólito, nº 125, no 3º andar.
Com duração de 80 minutos e classificação indicativa de 16 anos, o espetáculo reafirma o teatro como espaço de escuta, denúncia e transformação social.
Serviço – Querô – Sempre uma Reportagem Maldita
Museu da Maré
Datas: 02, 03, 04, 05, 09, 10, 11 e 12 de abril de 2026
Dias: quinta a domingo
Horário: 19h
Siga-nos e confira outras notícias @viventeandante e no nosso canal de whatsapp!



