Pilar | Um papo sobre o ‘Confluir’ com Zeca Baleiro, feminismo e mais

A quarentena movimentou as redes sociais e a tecnologia ajudou muitos artistas a prosseguir com os seus trabalhos, apesar da distância dos palcos. O proscênio deu lugar as telas e olhos da plateia passaram a assistir aos espetáculos transmitidos pelas câmeras. Para os festivais de música, que sempre reúnem uma multidão de pessoas, a experiência foi inovadora. O principal objetivo destes eventos que é a disseminação da música e de bons artistas continua pulsando fortemente e foi em um destes festivais que conheci a cantora, compositora e artista visual, Pilar.

Logo que vi aquela moça sul-mato-grossense cantar, parei e continuei a escutar. Pilar regravou recentemente o clássico “Trem Azul” de Lô Borges e Ronaldo Bastos, mas foi sobre o seu primeiro EP “Confluir” que conversarmos por aqui. Confira:

Pilar em ensaio fotográfico
Foto: Duda Portella

Pegando o gancho em uma de suas músicas para iniciar a conversa, você tem conseguido levar a vida zen nestes últimos meses?

Olha, nem todo dia zen. Não tem como, né? A gente está passando por uma crise mundial. No começo eu fiz aquele manual de sobrevivência, mas não imaginava que seria quase um ano de quarentena, né? Acho que vivi várias fases e continuo vivendo. Sou geminiana, então também tem um pouco disso. Dentro de mim já tem várias personalidades, mas ainda assim acho que certas coisas são âncoras para eu ficar bem. Meditação eu realmente tento fazer todos os dias, apesar de estar com a cabeça a mil. Tem sido um aprendizado muito grande, acho que para todo mundo. É o momento da gente realmente internalizar e se conhecer mesmo num nível mais profundo. 

Como foi a criação do EP “Confluir”? As composições são todas suas, elas falam sobre você?

Falam totalmente, é até engraçado porque eu não compunha antes. Comecei no ano passado quando decidi que queria gravar um disco autoral. Falei: “Tá bom, vamos trabalhar esse lado”. Eu queria que realmente fossem coisas que viessem de mim, as mensagens, as letras. Comecei a criar as músicas junto com o meu produtor que me ajudou a fazer os arranjos.

Às vezes a música vem, sabe? Normalmente é à noite quando estou tentando dormir, aí começa alguma coisa a incomodar e já penso que tem algo vindo. Geralmente vem a melodia com a letra e depois arrumo a letra, mas ando procurando novas formas de compor. Acho que é encontrar essa Pilar compositora e realmente começar a explorar um pouco esse lado. Aí fala muito, acabam sendo, de certa forma, autobiográficas. Algumas nem tanto, mas outras sim. 

Você também é artista visual, inclusive tem uma música intitulada “Van Gogh”. O quanto as duas manifestações artísticas se assemelham e em que elas ajudam a criar a sua própria arte?

A arte é uma maneira de comunicação, querendo ou não está tudo conectado. Quando estamos trabalhando a criatividade, quanto mais você abre o canal para ela, independente se é na música ou na arte visual, você fica mais receptivo.

Tem até um livro que eu sou apaixonada que é da Elizabeth Gilbert, escritora de “Comer, Rezar e Amar”, que se chama “Grande Magia” e ela fala sobre isso. É basicamente sobre a relação dela com a criatividade, é como se fosse uma entidade que permeia por aí esperando as pessoas escutarem. Eu sinto que juntar tudo isso me deixa nesse processo mais ativo de escuta. 

Em suas letras você também traz a força da mulher e a importância de acreditar em si. Você é uma mulher feminista? Qual a importância disso para você?

Me considero feminista sim. A gente tem sorte porque a nossa geração já veio com coisas muito melhores do que há 40, 50 anos atrás. Na geração da minha mãe eu vejo uma discrepância da maneira que ela foi criada, da minha avó então… é muito maior. Estamos vivendo uma fase em que temos mais liberdade, mas quando a gente olha para trás vemos que é uma luta recente. Não é tão bom ainda, precisamos ir atrás de muita coisa. Se você for ver, em questão de salário e oportunidades nas empresas, nas vagas importantes há pouquíssimas mulheres.

O feminismo também tem que prestar muita atenção para ver se está englobando todas as mulheres porque acho que ele ainda é branco e de classe média. É uma união, acredito que é preciso trazer essa união das mulheres. E, de certa forma, os homens também são afetados com o machismo por não poder mostrar o lado da feminilidade. Acho que é uma questão de equilibrar o  yin e yang e juntar as forças para chegarmos num ponto igualitário. Eram coisas que precisavam ser faladas mesmo que as pessoas já tivessem dito e me deu essa vontade porque é algo que me pegou no dia-a-dia, eu vivenciei. 

A faixa “Namastreta” é divertida, mas também trata de assuntos sérios. Um dos versos diz que é um desafio viver em sociedade. Qual o maior desafio de viver na nossa sociedade para você?

É uma questão de ter respeito pelo próximo. Se impor sem invadir o espaço do outro e achar um equilíbrio na convivência. Eu sou do Mato Grosso do Sul e lá a maioria é bolsonarista. É difícil a gente não ficar às vezes com vontade de falar certas coisas ou ficar incendiado por dentro com o que escutamos. Acho que é realmente essa coisa do conseguir conversar com alguém que pensa o oposto de você e da sua ideologia e ainda assim se comunicar com a pessoa. Você pode não mudar a ideia dela, mas consegue plantar a sementinha. Acho que o maior desafio é esse, conseguir deixar de lado a parte que quer briga e se comunicar. Isso é realmente desafiador, não é fácil.

Suas músicas são cantadas em inglês e espanhol, além do português. Por que optou em compor desta maneira?

Sempre tive muito contato com o segundo idioma porque a minha mãe era professora de inglês e eu sempre tive aula com ela. A minha família é de descendência espanhola e eu também sempre tive a presença do espanhol por causa da família. Como eu te falei que as composições vem junto com as letras, têm emoções que vem em outros idiomas. Não sei explicar muito bem o porque, mas sinto que é isso.

Tem uma diferença melódica também em cada idioma. A minha voz é diferente quando canto em português de quando canto em inglês ou espanhol, mostra outros aspectos da voz. Eu gostava dessa diferença sonora e de conseguir trazer tudo isso e misturar. A música comunica não somente com a letra, mas a melodia comunica muito também. A melodia por si só já passa a mensagem muitas vezes. Ela é meio que uma brincadeira de falar: “Olha eu tô cantando em vários idiomas, mas acho que dá pra entender do que eu tô falando pela melodia”.

Isso vem porque eu fiz canto lírico por muito tempo e não entendia nada de Italiano ou Latim. Eu só sentia que tinha algumas músicas que eu cantava e começava a chorar na hora, não sabia explicar o porque. Eu tinha que parar, respirar e só depois que ia olhar a letra eu percebia que realmente era uma letra triste ou uma história comovente. A gente não sabe o que está falando mas a coisa pega ali na alma de uma maneira que é avassaladora. 

Seu contato com a música começou muito cedo e tem, inclusive, uma experiência com o canto lírico. Como é ter essa bagagem? Você também tem uma formação em administração, quando ocorreu o start para viver de música?

Confesso que sempre foi uma batalha interna, desde criança sempre tive essa amor pela música. Mas, ao mesmo tempo, eu tinha muito medo. Até hoje ainda existe o medo, mas a gente vai com medo mesmo. É um medo de sair da zona de conforto, medo de estar numa profissão que a sociedade não olha com bons olhos, mas hoje em dia isso já melhorou. É complicado. Foi um processo de aceitação mesmo e perceber que realmente era isso, de bancar que era o que eu gostava e não tinha outro caminho porque antes eu via muito como um hobbie.

Eu não percebia que podia ser uma profissão, mas era o que me trazia mais felicidade, mais realização, mais amor. Achava que a profissão era algo que me trouxesse segurança para eu poder fazer a música de lado, mas quando comecei a trabalhar caiu a ficha de que eu não ia conseguir ser feliz se não estivesse dedicando a minha vida 100% a música, acordando, respirando e vivendo música todos os dias.

Vi que eu iria sempre sentir algum pedaço meu faltando, alguma coisa estava me deixando infeliz e era exatamente isso, era porque eu não estava seguindo o meu sonho. Foi quando veio aquele “baque” ou você vai atrás e fala: “Pelo menos eu tentei” ou eu ia ficar a vida inteira me remoendo e falando: “Se eu tivesse tentando quando era mais nova, quem sabe…”

Recebeu algum incentivo neste início?

Eu liguei pra minha mãe dizendo que pedi demissão do emprego hahahaha. Não avisei muito não, foi meio que no susto. A minha mãe também é apaixonada por música e, apesar dela ter ficado um pouco assustada, ela falou: “Filha, tá bom. Se você tem certeza, então vai. Eu te apoio!” E aí o meu tio falou iria me apresentar algumas pessoas e ele apresentou o Magoo que hoje é o meu produtor. 

No EP você tem uma participação especial do Zeca Baleiro. Como foi cantar com uma voz tão importante da música brasileira?

No começo a gente fica meio assustada e fala: “Tá acontecendo isso mesmo?”. Eu tinha composto “Favela City”. A música já estava quase pronta e tinha oito compassos dela que era só instrumental. Eu já tinha conhecido o Zeca no estúdio, foi muito breve. Um dia o Magoo ouviu a música quando estava em fase de mixagem e o Zeca escutou. Ele gostou e falou: “Tem oito compassos livres, ela quer colocar alguma coisa ai?”.

O Magoo me ligou contando isso e eu falei: “O que? É óbvio que eu quero!”. Ele escreveu super rápido. Compositor pra caramba, né? Nunca vi. Ele escreveu o verso e acabou fazendo a parceria. Foi incrível estar em contato com um artista que tem uma caminhada extensa como a do Zeca. Eu o admiro muito como artista e como pessoa, foi um privilégio mesmo conseguir ter esse aprendizado com alguém que tem mais experiência.

Você disse algumas vezes que Tribalistas e Fantasma da Ópera são algumas de suas referências. Como e onde percebe essas referências nas suas obras? Existem outras?

Outra referência que dou muito é o Buenavista Social Club. Em “Feminility” eu quis trazer muito essa musicalidade cubana totalmente inspirada no Buenavista. Também tenho uma pegada do reggae que é muito forte para mim, eu acho que o Jazz e o Reggae tem uma certa conexão. Não sei o que é, mas rola. Elis também é uma referência como artista no geral, uma intérprete maravilhosa e eu me espelho nela. Ela traz essa interpretação mais entregue das músicas, do emocional. 

Música cubana, brasileira, tem toda uma mistura no seu processo de criação. Como você define a sua música a partir das suas referências e do seu gosto pessoal?

Eu sempre brinco que é uma MPB Fusion porque se encaixa na MPB, mas acaba tendo também o World Music e funde vários gêneros. A MPB como um gênero musical é muito extenso também. Se você for ver, tantas coisas se encaixam dentro da MPB e tem sonoridades diversas, né? Acho que é isso, uma MPB Fusion

Hoje você está em São Paulo, mas é natural de Campo Grande. Como percebe o cenário musical entre as duas cidades, uma vez que você está exatamente onde os olhares são mais voltados? E Qual música faz você lembrar da sua cidade?

Lá é engraçado. Acaba tendo uma cena regional, mas existe uma cena nova também muito legal que são até meus amigos, como a Marina Peralta. De tradicional tem o Almir Sater, não tem ninguém que represente mais do que o Almir. Sertanejo é o que mais escutam lá.

E realmente aqui em São Paulo acaba sendo o lugar que as pessoas chegam  para tentar fazer carreira, é onde também tem mais oportunidades de lugares para se apresentar e aí você consegue com que as coisas cheguem mais longe. Eu vejo que aqui virou um ponto de conexão, tanto que os meus amigos que são de lá, muitos deles se mudaram para São Paulo para seguir a carreira. 

Eu a conheci em um Festival Online, você tem notado esse retorno do público nas suas redes depois das lives?

Foi assustador no início, principalmente porque eu não tenho intimidade com o violão. Estou começando agora, mas antes eu não tocava nada de violão. Então é aquela coisa tipo: “Meu Deus”. Só eu e o violão e o medo de errar, menina você não tem noção. Eu esquecia cifra e parava no meio. No palco, querendo ou não, a gente tem recursos que ajudam a gente. A banda está lá, tem uma rede de segurança, tem iluminação… 

Quanto a iluminação você tem certo cuidado, né? Eu lembro de ter visto um cenário com tons de roxo. 

Eu adoro! Como tenho esse lado da artista visual, adoro montar cenário porque para mim é importante o visual estar presente. É algo que quero trazer cada vez mais forte nos shows, mas é muito louco porque na live você não consegue ver a reação do público e no show é muito gigante. Você tá vendo as pessoas, a reação delas e você tá ali trocando a energia constantemente. Aqui é difícil ler enquanto toca, ainda mais quando começo a entrar na música. Normalmente eu vou ler depois os comentários. É uma confiança muito gigante, você meio que se joga, mas confesso que deu muito medo no começo.

Você já participou do Festival Psicodélico e do Brazilian Day. O que representou essas experiências para você? 

Igual a história do Zeca, um susto. Também foi com o convite do Brazilian Day que consegui a minha estreia oficial do EP. Eu não tinha apresentado as músicas em público nenhuma vez e não tinha experiência cantando em palco grande o meu trabalho autoral. É uma intimidade gigante e foi tudo no susto. Recebi o convite faltando um mês para o evento e não deu para trazer a banda daqui, acabou sendo uma banda de lá. Já tinha gravado seis músicas e algumas que apresentei, eu não tinha nem gravado ainda. Junto e misturando era uma delas. Foi tipo: “Tá bom, vamos testar né? No Brazilian Day”. Eu tive dois ensaios só e estava tipo: “MEU DEUS DO CÉU”. Rezando para tudo dar certo no final.

Deu tudo certo, foi uma experiência incrível de fazer a coisa no improviso e na coragem. Foi muito bom conhecer Estocolmo, é muito linda a cidade, muito diferente o país e a cultura deles. Também teve a experiência cultural, eu pude ver a receptividade da música nas pessoas estrangeiras e dos brasileiros que moram lá fora. 

No Mundo Psicodélico também foi incrível, aconteceu no estádio do Canindé. Eu escuto música eletrônica e essa foi uma parceria com uma amigo DJ. Ele ia ser um dos headlines no campo de eletrônica e gravei a abertura do Festival, ajudei e eles me convidaram. Tinham vários palcos e um deles era só MPB. São parcerias que foram abrindo outras portas. Eu falo que não existe nada sem o coletivo, todas as portas que foram abertas por mim até hoje foram de parcerias. Sozinho a gente não faz nada.

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