A relação entre Brasil e Coreia do Sul ganha uma agenda própria no RioMarket’26. Em 2 de outubro, o evento de mercado do Festival do Rio realiza o South Korea Day, com uma programação dedicada à indústria audiovisual sul-coreana e às possibilidades de aproximação com produtores brasileiros.
A agenda inclui debates sobre estrutura de mercado, financiamento, produção, coprodução internacional e propriedade intelectual. Também entram na conversa as relações entre K-pop, audiovisual e indústria fonográfica, além da exibição de The Ghost Game, longa sul-coreano produzido pela EO Content Group.
Mas há um movimento de mercado acontecendo ao mesmo tempo. A EO Content Group anunciou que irá assinar, durante o South Korea Day, um MOU com a brasileira Total Entertainment. Segundo informações divulgadas pela empresa e pela imprensa sul-coreana, a parceria prevê o desenvolvimento de projetos de remake global, investimento conjunto e coproduções para cinema, televisão e OTT.
A assinatura ainda está prevista para 2 de outubro. Ou seja: o acordo anunciado pela EO será formalizado durante o evento, e não deve ser tratado como uma parceria já concluída.
um dia dedicado ao mercado sul-coreano
O RioMarket acontece de 1º a 10 de outubro, no Armazém da Utopia, no Cais do Porto. Em sua 26ª edição, o evento reúne seminários, workshops e rodadas de negócios voltados ao mercado audiovisual. Segundo a organização, já são mais de 11 mil rodadas de negócios e mais de 4,2 mil seminários e workshops realizados ao longo das edições.
A programação sul-coreana começa às 10h com “Entendendo o Mercado Audiovisual da Coreia do Sul”, com Eun-young (Ellie) Oh, CEO e produtora da EO Content Group, e Andy Yoon, produtor da MoonWatcher.
O painel aborda a estrutura da indústria, estratégias de financiamento, produção e oportunidades de parceria entre os dois mercados.
Às 11h, David Woong-jin Park, da KOCCA, e Serena Park participam de “Como a indústria audiovisual da Coreia do Sul funciona”. A discussão segue por uma perspectiva mais prática, entrando em aspectos do mercado coreano e nas possibilidades de conexão para profissionais estrangeiros.
Às 12h, Ellie Oh apresenta “Coreia do Sul em Foco: Um caso que está transformando a indústria”, em um estudo de caso sobre modelos de negócios, coprodução e expansão internacional da indústria audiovisual coreana.
A sequência dos três encontros ajuda a entender a proposta do dia: apresentar o mercado, explicar como ele funciona e, depois, discutir um caso concreto de expansão.
coprodução entra no centro da conversa
Às 14h, o assunto chega diretamente à relação entre os dois países com “Brasil + Coreia do Sul: Encontro de Produtores”.
Com Andy Yoon, da MoonWatcher, o encontro é apresentado pelo RioMarket como uma atividade de networking e negócios. A proposta é aproximar produtores brasileiros e sul-coreanos, trocar experiências e discutir possibilidades de coprodução internacional.
É justamente nesse contexto que a movimentação da EO Content Group ganha importância.
A empresa informou nesta terça-feira, 29 de setembro, que vai assinar um MOU com a Total Entertainment durante o South Korea Day. De acordo com a divulgação, os dois lados pretendem trabalhar no desenvolvimento de projetos de remake global, investimento e coprodução envolvendo filmes, dramas e séries para OTT.
Para a EO, o Brasil é apresentado como um mercado para desenvolvimento conjunto de propriedade intelectual, e não somente como destino para a distribuição de conteúdos coreanos. A declaração atribuída à CEO Ellie Oh fala especificamente em conectar as capacidades criativas e produtivas dos dois países por meio de projetos concretos.
A Total Entertainment atua no mercado brasileiro desde 1998 e tem produção de cinema e televisão em seu histórico. Entre os títulos associados à empresa estão Se Eu Fosse Você e Assalto ao Banco Central.
O MOU previsto para o RioMarket coloca uma parceria empresarial dentro de uma programação que já tem a coprodução como um de seus temas principais.
Onde o K-pop entra nessa história
O último painel do dia aproxima outro setor importante do ecossistema coreano.
“KPOP: Como unir o mercado audiovisual à indústria fonográfica editorial” reúne David Woong-jin Park, da KOCCA, e Mariana Naegeli, fundadora da Machinna.
A discussão aborda videoclipes, documentários, realities, licenciamento musical, direitos autorais e estratégias que conectam gravadoras e produtoras. A descrição oficial também menciona a formação de franquias e o engajamento de fandoms em escala global.
É um ponto particularmente interessante porque coloca o K-pop dentro de uma conversa de mercado audiovisual.
Um lançamento musical pode gerar videoclipe, documentário, série, reality, produtos licenciados e outros formatos. A propriedade intelectual circula por diferentes áreas e encontra públicos que nem sempre chegam ao conteúdo pelo mesmo caminho.
Nesse modelo, o fandom também aparece como parte da equação. Não como um assunto separado da indústria, mas dentro da discussão sobre circulação de conteúdo, construção de franquias e relacionamento com audiência.
A atividade está atualmente listada para 17h às 18h, embora versões anteriores da programação tenham indicado 16h30.
The Ghost Game encerra a programação
Às 18h, o RioMarket fecha o South Korea Day com a exibição de The Ghost Game, dirigido por Son Dong-Wan e produzido pela EO Content Group. A programação atual indica sessão das 18h às 19h30, na Sala 1.
O filme de 2025 acompanha um grupo de estudantes que realiza um ritual para convocar espíritos e acaba enfrentando consequências inesperadas. A sessão coloca na tela uma produção ligada diretamente a uma das empresas que participa dos debates realizados durante o dia.
A escolha também fecha uma programação que passa boa parte do dia discutindo a indústria e termina apresentando um de seus produtos.
A presença sul-coreana no RioMarket não acontece em um mercado brasileiro que está começando agora a descobrir o K-content. O público brasileiro já acompanha K-pop, dramas, cinema, webtoons e outros formatos há anos.
O que aparece no South Korea Day é uma conversa de outra natureza.
Produtores brasileiros e sul-coreanos estarão reunidos para falar de projetos. A KOCCA participa de discussões sobre o funcionamento do mercado. Empresas apresentam seus modelos de produção e expansão internacional. E uma produtora coreana chega ao evento anunciando uma parceria com uma empresa brasileira.
Essa combinação dá ao dia uma dimensão que vai além da programação cultural.
A questão passa a ser como os dois mercados podem trabalhar juntos, quais formatos podem circular entre eles e que tipo de propriedade intelectual pode ser desenvolvida a partir dessa aproximação.
O próprio RioMarket mantém as rodadas de negócios como parte central de sua estrutura. Em 2026, elas acontecem entre 5 e 9 de outubro, com reuniões entre projetos selecionados e players do mercado.
No caso da Coreia do Sul, porém, parte dessa conversa acontece já no segundo dia do evento.
E o South Korea Day chega ao Rio com uma agenda que junta três assuntos que até pouco tempo atrás costumavam aparecer separados: a indústria audiovisual, o K-pop e os negócios internacionais.
Para quem acompanha a expansão da cultura coreana, talvez seja justamente aí que esteja a parte mais interessante da programação.
Não apenas no que a Coreia produz para o mundo, mas em como seus produtores estão procurando novos lugares para produzir, investir e construir projetos.
O Brasil está entrando nessa conversa.
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Este artigo é uma collab da Genius Lab, núcleo de inteligência em cultura pop, fandoms e economia criativa, e o Korea in Rio, projeto dedicado à divulgação da cultura coreana e à análise das transformações da indústria do entretenimento e do consumo cultural.
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