Tuesday, December 1, 2020

O Leilão do Lote 49 | Conheça Thomas Pynchon e a paranoia pós moderna

Thomas Pynchon e sua paranoia são um marco da literatura pós moderna. “O Leilão do Lote 49“, seu segundo romance , sobre o qual me aprofundarei aqui, é a melhor maneira de adentrar esse mundo “pynchoniano”. Aliás, a primeira vez que ouvi o nome de Pynchon foi quando vi o filme de Paul Thomas Anderson com Joaquim Phoenix. Sempre gostei muito do diretor e do ator, então, quando fiquei sabendo de “Vício Inerente” eu tinha certeza que não tinha como ser ruim. Um detetive “pós-hippie” maconheiro no início dos anos 70 numa trama meio “noir na praia”. Não tinha como dar errado. E não deu.

EM verdade, fiquei maravilhado com o filme e a paranoia generalizada que passa. É como uma trip eterna de ácido deslocada da década anterior que continua sendo alimentada por muita fumaça e em algum momento não se sabe mais onde tudo vai dar. Mas não é esse o ponto: o filme é baseado em “Inerent Vice”, romance de 2009 do escritor Thomas Pynchon.

Escritor “recluso”

Depois de muito tempo revi o filme e decidi pesquisar o autor desse livro tão doido, ver de onde saiu Doc Sportello. Foi aí que começou a doideira. Acontece que em poucos minutos de pesquisa se acha praticamente toda a biografia disponível do autor, pois ele não fala com jornalistas, não dá entrevistas, não é muito fã de se expor e não permite ser fotografado.

Pynchon nasceu em 1937. Nos anos 50, começou a fazer faculdade de engenharia em Cornell, mas logo saiu para servir a marinha. As únicas fotos que temos acesso do autor são justamente desse período na marinha. Em 1957, retorna à Cornell, dessa vez para cursar Inglês. É basicamente isso, talvez tenha um ou dois fatos curiosos a mais. Contudo, o ponto é que Thomas Pynchon não fala de si, não permite exposição, nem tenta se explicar. Fora isso, o que temos são seus livros, que apesar de não serem muitos, são enormes.

Pós moderno

Sua literatura é constantemente associada à pós modernidade. O que significa pós moderno é uma discussão enorme, mas muitas vezes é um termo utilizado por pessoas para desqualificar uma obra ou autor, principalmente no meio acadêmico.  Normalmente quem vai por aí é bem limitado e na grande maioria das vezes não entende e não quer entender. E também, normalmente os autores, acadêmicos ou não, que são assim qualificados, têm fama de serem difíceis de ler.

Eu normalmente gosto desses chamados pós modernos, principalmente quando os chamam assim com uma intenção pejorativa. Apesar de não ter uma classificação restrita e seus autores serem muito diversos, algumas características podem ser identificadas em muitas dessas obras consideradas literatura pós moderna. São elas: o humor ácido, ironia, absurdismo, temas sensíveis, metalinguagem, distorções temporais, intertextualidade, fragmentação, confusão e por aí vai. Não existe uma receita fechada, mas normalmente os romances tendem a conter algumas dessas características e apresentar uma certa “dificuldade” que muitas vezes é intencional.

Por onde começar?

Nos livros dele, quase todas as características do romance pós moderno estão presentes. De forma brilhante a ironia e o humor extremamente ácido permeiam sua escrita. Outra característica que é peculiar do autor é o teor “enciclopédico”. Assim, ele divaga sobre assuntos diversos, aborda física, matemática, história, psicologia, linguística e até ocultismo. Esse fato evidencia o conhecimento monstruoso de Pynchon. Ele é capaz de escrever sobre diversas áreas do conhecimento com bastante propriedade. Seus livros normalmente são calhamaços gigantescos, tanto que os considerados pequenos tem por volta de 500 páginas, alguns outros chegam a ter 1200.

Decidi começar a ler Pynchon pelo romance “A Venda do Lote 49”, de 1965. Fiz isso , principalmente, por dois motivos. O primeiro é que ao pesquisar entre opinião de leitores, a maior parte deles considera que é uma boa forma de se iniciar, pois o romance contém a maior parte das características do autor sintetizadas em um livro. O segundo motivo é risível, mas é o tamanho. Porque enquanto seus livros tem perto de 1000 páginas, esse não chega a 200. Me pareceu uma leitura mais fácil de começar e não abandonar. Mas se engana quem pensa que tamanho é documento. Apesar de pequeno, definitivamente não é uma obra menor e também não é lá um romance tão “fácil” de se digerir, porém acho que acertei na escolha.

“Socorro” disse Édipa, “Não estou entendendo nada.”

Não sei se me fiz entender, mas Pynchon é muito doido! A personagem principal do livro é Édipa, ela é casada com um “Disc-jóquei” que trabalha na rádio – espécie de DJ nos Anos 60/70. Entretanto, num belo dia ela se vê como inventariante de um ex-namorado chamado Inverarity, que traduzido literalmente é inveracidade, o qual possuía uma enorme fortuna. A partir disso, envolve-se numa trama conspiratória com duas empresas de correio: Thurn-und-Taxis, empresa real do século XVI , e Tristero, criação de Pynchon. Mas isso não é lá muito importante, ou é, depende.

O fato é que Pynchon parte daí para uma trama muito louca que envolve empresas de correios, uma banda chamada “The Paranoids”, um psiquiatra Freudiano ex-nazista que receita LSD  e muito mais, mas, principalmente, uma tonelada de paranoia.

Pynchon segue uma linha confusa, muitas vezes você parará de ler e pensará : Que porra é essa?! Daí você voltará uns parágrafos ou páginas e entenderá , muitas dessas vezes vai começar a rir. Acontece que o autor brinca com nossa leitura e atenção. como assim? Ele simplesmente faz cortes totalmente abruptos e muda completamente a ambientação, os personagens em cena e te leva para um rumo totalmente diferente do que ele estava. Você vai se perder em algum momento. Pode até ser desatenção, como muitas vezes é meu caso. Todavia, esses caminhos doidos são totalmente propositais e traçados pelo autor. De uma caminhada Édipa se vê em uma peça de teatro, ou em situações de tensão sexual, ou tudo isso e mais alguma coisa junto.

Almoço Nu, Jazz, História e conspiração

Entre um gole de Jack Daniel’s e uma tequila, tudo muda e você fica totalmente desorientado. Mas o genial é que nada disso é forçado ou sem motivo. Pynchon consegue voltar ao ponto e dar continuidade perfeitamente ao seu raciocínio, deixando o leitor ainda mais confuso quando retoma uma informação do início do texto que pareciam totalmente irrelevantes naquele momento.

Essa forma de escrita é bem parecida com o fluxo de consciência de William Burroughs e dos beats. Em muitos momentos lembra-se de “On the Road“, bíblia beat de Kerouac. Aliás, os beats são claramente uma enorme influência para ele. Uma das poucas informações que achei sobre ele é que foi lendo “On the Road” e outros beats que Thomas teria decidido escrever.

Junto dos beats vem muitas outras referências e influências que aparecem e se integram ao texto. São muitas e variadas citações e referências em nomes de personagens objetos descritos, locais. São detalhes minuciosos que tornam praticamente impossível identificar todos. Pynchon deixa mais evidente os autores, a cultura do Jazz, cultura pop, Beatles, desenhos animados, música clássica, vanguardas artísticas, fora as referências históricas que ele mescla de forma genial com a ficção. Inclusive, essa é uma característica da sua literatura , que viria a se tornar muito frequente, misturar história e ficção.

Paranoia delirante

Toda essa loucura e confusão é regada a muita paranoia. O clima de desconfiança dos anos 60 é totalmente refletido no romance. Conspirações envolvendo grandes corporações e governos, seitas, grupos secretos, espiões infiltrados, viagem de ácido…

A paranoia não tem fim. Essa é uma das marcas do autor, e ele não tenta disfarçar em momento algum. Aliás, faz até uma personagem encarnada na banda “Os Paranoicos”. Como tudo no romance, essa paranoia é também satirizada e tratada de forma irônica. Porém é como diz o ditado, toda brincadeira tem um fundo de verdade. Pynchon mistura ironicamente fatos, conspirações e paranoias dos anos 60, e muitas delas viriam a se comprovar posteriormente.

Édipa no fluxo de consciência

O leitor passa a focar em cada detalhe, procurando indícios de veracidade das conspirações e paranoias, procurando entender quem faz sentido ou quem é mero delírio. Procura o que é real ou falso, o que é irônico ou não e passa a entender e agir de forma semelhante ao de Édipa quebrando a cabeça com símbolos e rastros que nem sabe se existem.

Édipa não se preocupa em estar no controle, ela segue um fluxo de acontecimentos e se deixa levar entre um gole e outro. Porém não é nunca coadjuvante. De forma alguma se vê paralisada, mas aceita o fluxo que parece a levar à algum lugar, mesmo que a princípio ela não saiba muito bem onde será.

No meio dessa loucura Pynchon encontra meios muito interessantes de fazer críticas sociais e debochar da sociedade. Inclusive, traz personagens do mundo e da hipocrisia que é a realidade que se vivia nos anos 60 e que continuamos vivendo hoje.

Influência e Influenciador

Atualmente, há uma geração que cresceu assistindo “Pulp Fiction“, “Memento“, lendo quadrinhos fragmentados em múltiplos universos. Juntamente com séries de viagem no tempo e essa enxurrada pop e miscelânea fragmentada de “alta cultura”, cultura pop e ciência. Em 2020, mesmo sendo ainda relevante e divertido, esse estilo de Pynchon apresentado no “Leilão do Lote 49” pode não parecer lá uma grande novidade. Acontece que ele estava fazendo isso muito antes, no início da década de 60.

A influência do autor é perceptível. Tanto na “alta cultura” da literatura do século XX abordada pela crítica especializada – David Foster Wallace, autor de Graça Infinita é um exemplo – mas também na cultura pop. Por exemplo, a participação do autor no desenho animado “Os Simpsons”, passando até pelo meio do caminho, entre o pop e o cult, como no filme de Paul Thomas Anderson.

A morte do autor

Thomas Pynchon ilustra um pouco, e de forma bem irônica o conceito de Barthes. Por ele não expressar opiniões fora de seus livros, não conceder entrevistas, não falar sobre seus livros, nada. Acabamos tendo de interpretar seus romances quase exclusivamente pelo texto em si. É engraçado isso, pois não há muito como saber exatamente o que ele pretende, já que o próprio texto é paranoico, conspiratório e extremamente irônico. Assim não sabemos bem para onde ele realmente atira.

Essa característica abre precedentes para interpretações das mais diversas possíveis, e não necessariamente certas ou erradas. Afinal, existiria mesmo um certo ou errado absoluto? Seria Tristero real, paranoia, brincadeira, alegoria? Ou, ainda, seria tão importante assim saber a verdade absoluta?

Publicação

No Brasil, praticamente todos os romances de Thomas Pynchon já foram publicados, a grande maioria pela Cia. Das Letras. Porém, infelizmente, alguns desses encontram-se esgotados e custando pequenas fortunas. “O Leilão do Lote 49” é um desses. Porém a boa notícia é que com alguma procura consegue-se encontrar cópias digitais do livro.  Ficamos à espera de uma reedição da Cia. das Letras, não só desse, mas de outros livros do autor que com certeza merecem estar nas prateleiras das livrarias e de nossas casas.

O Leilão do Lote 49” foi um romance que me conquistou como há muito tempo nenhum conseguia. Apesar da fama de confuso, não é bem assim. Afinal, sua “confusão” faz total sentido e o esforço de leitura com certeza será recompensado. Além disso, é uma preparação para outros romances, não só de Thomas Pynchon, mas de autores que seguem essa linha. Entre eles, David Foster Wallace, ou até mesmo alguns mais tradicionais que, apesar de aparentemente muito diferentes, seguem linhas parecidas, como o genial José Saramago.

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