O Dia da Consciência Negra ganha força especial em 2025 com três estreias que dialogam com memória, identidade, denúncia e celebração: o single inédito do Farofa Carioca com participação de Seu Jorge, o álbum “Orin Dudu – Cânticos Negros”, que reúne cantigas de Candomblé em arranjos inéditos, e o lançamento no YouTube do especial “Elza Ao Vivo no Municipal”. Cada projeto, à sua maneira, reafirma a potência da arte negra no Brasil.
Farofa Carioca resgata raridade, lança vinil duplo e recebe Seu Jorge em show no Rio
O grupo Farofa Carioca volta a ocupar seu lugar no cenário musical ao lançar “Rap do Negão”, faixa gravada em 1998 para o álbum “Moro no Brasil” e que nunca havia chegado ao público. O single reúne as três vozes históricas da banda: Seu Jorge, Gabriel Moura e o atual vocalista Mario Broder. A canção chega às plataformas no mês da Consciência Negra, após nova mixagem e masterização, e resgata o debate sobre racismo, violência, exclusão e resistência.
A letra, escrita em um período em que o racismo recreativo era naturalizado, reflete situações ainda presentes no cotidiano do país, como abordagens violentas, desigualdade e estigmas que recaem sobre corpos negros. Trechos como “Se eu for correr na praia vão dizer pega ladrão” e “me chamam de negão, de pedaço de carvão” explicitam a crítica social. Ao mesmo tempo, a música reforça a potência da população negra quando tem acesso a estudo e oportunidades.

O single ganha contornos de jongo e samba-jazz com citações de “Negro Não Sabe o Que É Dor”, ponto tradicional de capoeira, e “Upa Neguinho”, de Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri. A participação de Dona Su, do Jongo da Serrinha, marca simbolicamente a presença feminina antes ausente na composição original.
O lançamento acompanha o novo vinil duplo de “Moro no Brasil” e antecede o show de celebração que o Farofa Carioca fará no dia 14 de dezembro, na Brava Arena Jockey, no Rio de Janeiro, com presença especial de Seu Jorge.
“Orin Dudu – Cânticos Negros” apresenta sete cantigas de Candomblé em novos arranjos
Também no dia 20 de novembro, chega às plataformas o álbum “Orin Dudu – Cânticos Negros”, resultado de uma pesquisa profunda conduzida pelos músicos Kiko Horta e Luís Filipe de Lima em sete Casas de Candomblé do Rio de Janeiro e municípios próximos. A partir de registros feitos in loco, os artistas criaram arranjos inéditos que misturam o terno de atabaques tradicional (rum, rumpi e lé) a instrumentos como sopros, piano, cavaquinho, guitarras e cordas.
As vozes solistas são de nomes de grande expressão do Candomblé carioca, incluindo Mam’etu Mabeji, Pai Zezito de Oxum, Ogã Cacau, Yá Wanda d’Omolu e o Babalorixá Adailton Moreira. Em algumas faixas, o projeto conta com o Grupo Vocal Equale, além de instrumentistas renomados como Carlos Malta, Silvério Pontes, Eduardo Neves, Wanderson Martins, Guto Wirtti e Cláudio Jorge.

O repertório percorre tradições do Gantois, Ketu, Ijexá, Bate-Folha e Alaketu, preservando toques e contextos religiosos sem abrir mão da ousadia musical. Gravado no estúdio Tenda da Raposa, em Santa Teresa, o álbum reafirma a importância da preservação da memória ancestral africana, de seus cânticos e rituais.
Ouça em https://orcd.co/orindudu
Especial “Elza ao Vivo no Municipal” estreia no YouTube com último show da cantora
Elza Soares cantou até o fim. Do alto de seus 91 anos, dois dias antes de morrer, realizou o sonho de registrar sua música no Theatro Municipal de São Paulo. A apresentação, gravada com plateia reduzida durante a pandemia, deu origem ao especial “Elza ao Vivo no Municipal”, exibido na TNT e HBO Max em 2023 e agora disponibilizado gratuitamente no YouTube.
O filme reúne 15 faixas que percorrem a vida e a visão de mundo da artista. A música de abertura, “Meu Guri”, ganha um clipe inédito com depoimentos de Elza sobre corpo, movimento e estética. No repertório aparecem “Se Acaso Você Chegasse”, “Maria da Vila Matilde”, “A Carne” e “Mulher do Fim do Mundo”, entre outras que marcaram sua trajetória de denúncia, coragem e liberdade.
Dirigido por Cassius Cordeiro, o especial combina performance, bastidores e depoimentos de amigos como Chico Buarque, Alcione, Rita Lee, Lázaro Ramos, Caetano Veloso e Regina Casé. A direção musical é de Rafael Ramos, com banda formada por Thomas Harres, Felipe Roseno, Ricardo Prado, Luque Barros, Mestre Dalua e backing vocals.
O registro reforça o legado de uma das maiores vozes do Brasil, que atravessou décadas denunciando o racismo estrutural e afirmando a força da mulher negra.
Uma data, três olhares
Os três lançamentos se conectam pela potência e pela urgência: Farofa Carioca denuncia o racismo e celebra sua trajetória; “Orin Dudu” mergulha na força espiritual e ancestral do Candomblé; e Elza Soares reaparece como símbolo eterno de resistência, arte e reinvenção.
No mês da Consciência Negra, a música brasileira reafirma que memória, denúncia e celebração seguem necessárias — e vivas.



