Wednesday, September 22, 2021

Sol Alegria | Crítica

Prostitutas travestis migrando para Dubai, nudez lasciva, um desfile marcial, um atentado contra um político/pastor evangélico, roubo de avião, cruising no mato com direito a asfixia erótica, prenuncio de um apocalipse com vampiros mutantes e finalmente freiras armadas. Sol Alegria te atropela com tudo isso em menos de 20 minutos. Das duas uma: ou esse longa mostra algum sonho utópico pseudo anarquista à la pornochanchada ou algum pesadelo socialista que assombra a caserna e Palácio do Planalto; de qualquer forma, o trabalho de Tavinho e Mariah Teixeira é explicito, apaixonado, vulgar, colorido, hilário e informal.

Não se deixe levar por esse parágrafo libertino, Sol Alegria é um filme que desafia uma definição de gênero, gravitando da comédia para o drama, do sci-fi para o realismo, do teatro de vanguarda para o pornô. Enquanto temática, a história mostra uma família heterodoxa (que de hétero não tem nada) lutando para restaurar a nação brasileira. Assim, Sol Alegria celebra uma diversidade realista, algo distante de uma história nacionalista ou saudosista. Essa diversidade é diferente da que é “comercializada” e da que é assassinada todo dia. A liberdade, paz e amor livre é pregada nessa obra; algo que o Brazil combate fortemente.

Carnaval, bacanal

Ainda assim, não se pode definir um filme de forma concreta e prescritiva, Sol Alegria mostra isso de forma cristalina. Essa obra parece ser uma crítica selvagem contra o sistema político e econômico atual, contra a representação de artistas e outras pessoas mais “liberais” na mídia, contra as morais e bons costumes que são vistos como a norma, contra a hipocrisia da mídia e da elite e muito mais. Por outro lado, Sol Alegria pode ser lido como puro desbunde, uma afronta direta contra um país que ainda se vende como cristão conservador. Nesse ponto que a jurupoca pia na história, porque de conservador o Brasil só tem nome; por mais queira provar e vender o contrário.

Em termos de atuação, pense em teatro infantil, ou em montagens amadoras de Shakespeare, não que isso seja ruim. O texto é declamado, com ritmo, bossa e malemolência, sem nunca nem chegar perto de algum realismo. Nessa república das bananas, o que importa é o impacto e não o conteúdo. Talvez seja por isso que Ney Matogrosso faz um showzinho no meio duma mata fechada, durante um circo autoindulgente e profano. Portanto, Sol Alegria foca no espetáculo, mesmo que esse espetáculo seja doido e a sua apresentação seja frequentemente sem sentido.

Técnica e bagunça

Talvez esse seja o único ponto fraco, a doideira não consegue manter o ritmo durante 90 minutos. Naturalmente, para a história fluir e evoluir de forma que dê para entender, é fundamental um respiro no meio dessa bacanal carnavalesca. O problema é que esse respiro prejudica o ritmo do filme, fazendo com que os diálogos cabeça pareçam especialmente confusos, já que não tem mil coisas acontecendo na tela ao mesmo tempo para distrair dos diálogos sem nexo. Ainda bem que algo estranho acontece logo em seguida e é restaurada a desordem.

Por fim, é quase impossível terminar esse texto com alguma exortação ou comentário mais profundo. Tantas experiências, carnais e espirituais, acontecem em Sol Alegria que não tem como começar a compreender sem uma dropar um ácido e ir discutir esse filme em alguma mesa de bar. Finalmente, como ser abalroado por um bonde, esse longa é desorientador, violento, urbano, meio retrô e tétrico. Tire as crianças da sala… ou não, sou um crítico, não um polícial.

 

Serviço

O Novíssimo Cinema da Paraíba

Data: 5 a 18 de agosto

Horário: das 12h do dia 5.08 às 23h59 de 18.08

Valor: Gratuito para assinantes e não assinantes www.belasartesalacarte.com.br/browse

 

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7.8
Sol Alegria

Doido, doido, doido

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