Comemorando o Ano-Novo, Ted Lasso revisita os conflitos do capítulo anterior, encerra alguns deles e recorre a clichês em outros
Diferente do episódio de Natal presente na segunda temporada, o sexto episódio da quarta temporada de Ted Lasso, intitulado “Não pule mais por aí…”, é um capítulo importante para determinadas dinâmicas. Roy e Keeley, a crise de autoestima de Beard, a recuperação da esperança de Ted e a relação de Alice com o restante do time após sua suspensão no episódio anterior são os principais focos de uma trama que tenta reorganizar suas peças.
Começando por Roy e Keeley, a inclusão e o retorno do glorioso Jamie Tartt poderiam ter acrescentado mais lenha à fogueira. Porém, sua presença funciona muito mais como alívio cômico e uma oportunidade de reconexão com Roy do que como tentativa de reabrir um desgastado triângulo amoroso, e por isso, agradecemos. A participação de Jamie é um exercício de saudosismo para os fãs, e a atuação de Phil Dunster não decepciona. Ainda assim, fica evidente que sua presença é mais um agrado ao público do que uma participação realmente essencial, assim como aconteceu com Trent Crimm e Shannon alguns episódios atrás.
Quando finalmente temos novamente uma discussão sobre o futuro relacionamento de Roy e Keeley, porém, a série recorre a um clichê conhecido, já explorado de Friends (1994, Marta Kauffman e David Crane) a Harry Potter e o Enigma do Príncipe (2009, David Yates), entre tantos outros: dizer o nome da ex-namorada que ainda ama quando deveria dizer o da atual. Funciona e é eficiente dentro da narrativa, mas também revela como uma situação que poderia carregar sentimentos mais complexos acaba resolvida pela solução mais previsível.

Juno Temple e Hannah Waddingham em “Ted Lasso”, já disponível no Apple TV.
Em seguida, temos o famoso martírio de Beard, algo que acompanhamos desde a primeira temporada e que, após o último confronto com Jane, ganha importância novamente. Em sua interação com a jovem Claudine, é interessante vê-lo feliz por alguns instantes, até que a série parece se lembrar de que Beard não pode simplesmente ser feliz. Essa busca quase sisífica por algum tipo de tormento se tornou uma de suas características mais constantes ao longo da produção. O problema é que Ted Lasso parece cada vez mais esquecer tudo o que o personagem pode oferecer além dessa simples particularidade.
Também temos Ted e Michelle. Em determinado momento, confesso que quis muito que ambos se beijassem na noite de Ano-Novo e retomassem o relacionamento. A discussão sobre Tom Sawyer e as confissões durante a madrugada eram leves demais para não despertar essa possibilidade. Felizmente, esse delírio durou pouco, e ainda bem que não se concretizou. Ambos merecem ser felizes, mas com pessoas melhores.
A jornada de Ted ao longo do episódio, por sua vez, recupera e conclui uma discussão iniciada com a doutora Shannon muito tempo atrás. Ele finalmente consegue se libertar de Michelle e compreender melhor o fato de ela ter se relacionado com o terapeuta que aconselhou os dois durante o término. Mais importante, o episódio reconhece que ainda existe amor e carinho entre eles, sem transformar esse sentimento necessariamente em desejo de reconciliação. Ted finalmente recebe o aval necessário para continuar vivendo sua própria vida, agora acompanhado por um novo cartaz para celebrar essa mudança.
Por fim, temos Alice Chilton, o time e a festa inspirada em De Olhos Bem Fechados (1999, Stanley Kubrick). Repito aqui algo que já havia apontado: a personagem de Tracey Ullman, Zelda Southport, continua parecendo distante do restante da série, e isso é gritante. Exagerada, berrante demais, não natural, quase um estereótipo de um personagem, o que poderia ser interessante, acaba tendo o efeito contrário.

Brendan Hunt e Abbie Hern em “Ted Lasso”, já disponível no Apple TV.
Em paralelo, a produção novamente lança uma luz sobre Alice Chilton, mas sem explorar completamente seu passado. Sim, ela foi uma escrota com Gemma quando as duas jogavam juntas. Mas e além disso? Como era, de fato, a relação entre elas? A série parece interessada em resolver Alice antes de realmente conhecê-la, e isso é uma pena após aquela rica conversa lá no segundo episódio da temporada.
Já tendo ultrapassado a metade, a quarta temporada de Ted Lasso ainda aparenta estar encontrando seu tom enquanto tenta resolver questões acumuladas. Algumas situações são repetitivas e deixam sua marca, mas, diante de outros grandes momentos da série como um todo, acabam perdendo força. A impressão é que ainda está rearranjando as próprias peças quando deveria começar a preparar seu movimento final.
Nesta reta final, a produção da Apple precisa urgentemente segurar as rédeas e caminhar em direção a um desfecho satisfatório. Por enquanto, esse destino ainda não parece estar no horizonte, muito menos devidamente demarcado.
Disponível na Apple TV+, a quarta temporada de Ted Lasso já conta com seis episódios lançados, com novos capítulos disponibilizados semanalmente até o início de outubro.
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