Iniciando de modo cômico, mas inusitado, o novo episódio de Ted Lasso foca nas vidas privadas de seus principais personagens e discute, de diferentes maneiras, o significado da esperança
Desde os meus primeiros textos sobre a quarta temporada de Ted Lasso, venho debatendo como um dos temas recorrentes desta fase da série é a ideia de que acreditar não basta. A crença precisa ser acompanhada de habilidade, esforço ou ação para que aquilo em que se acredita possa, de fato, se realizar. Após seis episódios, finalmente chegamos diretamente a essa discussão.
O episódio começa mostrando a vida privada do time feminino, passando por diferentes graus de dificuldade: aluguel atrasado, empregos adicionais para complementar a renda, carro quebrado e ex-maridos imprestáveis. É uma abordagem muito mais íntima do que aquela que tivemos com o time masculino, que raramente víamos fora do vestiário, e menos ainda dentro de suas próprias casas de maneira que não fosse utilizada para gerar uma situação cômica.
Existem problemas, dificuldades e questões individuais acontecendo longe dos vestiários e dos campos. E, inevitavelmente, tudo isso afeta a mentalidade dessas mulheres dentro de jogo. A série não esconde essa relação e encontra uma das ferramentas mais batidas, mas também mais eficientes de toda a ficção para discutir o assunto: o olhar de uma criança.
Falaremos mais sobre isso adiante, mas é importante destacar os demais núcleos do episódio, já que, desta vez, todos avançam suas respectivas peças.

Jude Mack em “Ted Lasso”, já disponível no Apple TV.
Pela primeira vez, Zelda me pareceu alguém com conteúdo para além da gritaria. Em comparação com o terrível agente de Daniel Rojas, que tristemente continua sendo mencionado quase como um fantasma, Zelda recebe mais camadas e uma individualidade mais natural. E, de quebra, também entrega algumas boas risadas.
Roy encerra seu relacionamento e inicia o processo de aceitar que realmente ama Keeley, mas agora precisa conquistá-la. A estrutura poderia ter sido melhor trabalhada, afinal, esse desfecho parecia inevitável e era apenas uma questão de tempo. A médica introduzida praticamente apenas para cumprir essa função de encerrar a relação em si e, logo depois, abandonada como se não tivesse importância alguma, é uma escolha particularmente frustrante.
Em seguida, temos Beard. Traumatizado após os acontecimentos do Ano-Novo, ele entra em um processo de rejuvenescimento forçado que, mais uma vez, reforça sua dificuldade em encontrar qualquer espécie de felicidade. É quase como se a série continuasse procurando novas maneiras de mostrar que, por trás do comportamento excêntrico, existe alguém permanentemente incapaz de lidar com a própria vida.
Alice também participa de sua própria jornada de evolução ao aderir à tática do improviso conhecida como “Sim, e…”. Em uma espécie de Sim Senhor (2009, Peyton Reed), Tanya Reynolds encontra um timing cômico mais particular, até então pouco explorado dentro dessa persona tão carrancuda. Ao mesmo tempo, Alice passa a demonstrar simpatia por personagens que anteriormente tratava como se fossem inferiores a ela.

Faye Marsay, Jude Mack, Rex Hayes, Aisling Sharkey, Elizabeth Falola, Terri Olejnik, Mercedes Assad, Annelise Heywood, Shannon Hayes, Sapphire McIntosh, Abbie Hern e Karesha Iton em “Ted Lasso”, já disponível no Apple TV.
E, por fim, temos Ted. Sua jornada gira em torno da dificuldade de se definir em apenas três palavras para participar de um aplicativo de relacionamentos e, assim, tentar seguir em frente na vida amorosa. A dificuldade o leva até Keeley, que também atravessa seu próprio processo de luto após o fim de seu relacionamento com Roy.
A interação entre os dois proporciona algumas das cenas mais agradáveis do episódio: duas pessoas sofrendo por acontecimentos que estavam fora de seu controle e que, agora, precisam encontrar uma maneira de se levantar. É uma dinâmica simples, mas que funciona justamente porque nenhum dos dois possui uma solução pronta para oferecer ao outro, mas o apoio e o carinho persiste.
No fim, o novo episódio de Ted Lasso tira todos os personagens de suas respectivas zonas de conforto e, consequentemente, os obriga a enfrentar seus próprios medos e receios. Da mesma maneira que o simbolismo do terceiro episódio foi construído ao redor de Susan Boyle, a escolha de A Menina e o Porquinho como um livro recorrente ao longo deste capítulo também está longe de ser acidental.
A jornada de Charlotte, Wilbur e companhia é construída ao redor da bondade e da crença de que a vida é cheia de desafios, mas isso não deve impedir ninguém de seguir em frente. É justamente essa ideia que entra em choque com o significado tradicional de “Believe”.
Quem coloca o novo cartaz no vestiário feminino não é Ted. E, quando alguém questiona que aquilo tudo é uma grande baboseira, afinal, simplesmente acreditar não resolve os problemas, ele fica em choque. Porque, naquele momento, a pessoa está certa.
Quem encontra uma resposta é Alice, através de um pequeno post-it que ressignifica uma das principais mensagens da série: “Acredite, e agora vença.”
E não é por acaso que quem lê essa frase é uma criança que apresentava dificuldades de leitura. Ao conseguir ler o post-it com maestria, ela provoca o delírio das jogadoras e, principalmente, de sua própria mãe.
É aí que o episódio encontra seu ponto central. Ted Lasso não está abandonando o “Believe”, mas reconhecendo que acreditar é apenas o primeiro passo. Esperança sem ação pode ser apenas uma palavra bonita pendurada na parede. A crença ganha significado quando alguém decide fazer alguma coisa com ela, e agora a série finalmente aparenta abraçar isso.
Disponível na Apple TV+, a quarta temporada de Ted Lasso já conta com sete episódios lançados, com novos capítulos disponibilizados semanalmente até o início de outubro.
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